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Artigo do Jornal: Jornal Agosto 2015

Lana aborrecia-se com sua mãe. Dona Lourdes estava com setenta e cinco anos, tomada de achaques e de impertinências. Semi-inválida, precisava de muita paciência e atenção. O marido e os filhos sugeriam, não raro, que seria melhor interná-la num abrigo para idosos, mas ela se recusava.

Lembrava sempre a afirmativa de Allan Kardec: tudo o que os filhos fizessem por seus pais representaria apenas os juros do que receberam, o pagamento de uma dívida de gratidão. Quanto a isso não havia dúvidas. A idosa senhora fora mãe dedicada e carinhosa. Cuidara muito bem dela. Quando, com base em suas próprias experiências maternas, pensava nas noites insones, nas preocupações ante enfermidades infantis, nos infindáveis cuidados que uma criança exige, no diligente esforço da genitora em seu benefício, parecia-lhe um crime descartar-se dela.

Esforçava-se por cumprir seus deveres como filha. Ainda assim, havia momentos em que o abrigo lhe parecia tentador, até que travou contato com Heloísa, simpática senhora que começara a frequentar o Centro do qual participava.

Buscando estreitar laços de amizade, fez-lhe uma visita e encontrou-a às voltas com sua mãe, sofrida anciã, cega e com adiantada surdez. Muito insegura, ela reclamava a presença constante da filha, deixando escapar, na conversa vacilante, o receio de ser abandonada à própria sorte.

– Nossos velhos dão muito trabalho, não é mesmo? – comentou, quando se viu a sós com a dona da casa.

– É assim mesmo – respondeu Heloísa sorrindo. – A velhice impõe imensas limitações, em sofrida dependência.

– Confesso que a paciência não é o meu forte. Só fico com a mamãe porque o Espiritismo ensina que tenho esse dever. Ela cuidou de mim durante muitos anos. Foi meu apoio constante, mesmo depois de meu casamento. Ajudou a cuidar dos netos…

– Realmente, somos grandes devedoras de nossas mães. Pelo simples fato de nos terem posto no mundo, sujeitando-se aos nove meses de gestação e às dores do parto, merecem todo o nosso respeito e solicitude.

– Você tem irmãos?

– Somos oito.

– Meu Deus! Quanta gente!... Rodeada de filhos, ainda assim sua mãe tem receio de ser abandonada?

– É o seu maior temor. Apavora-se ao pensar nisso.

– Há algum fundamento?

– Talvez seja porque nos deixou a todos... Alguns meses após o falecimento de meu pai ela se envolveu com um homem, apaixonando-se perdidamente. Dispôs-se a viver a seu lado e porque ele não aceitasse os filhos, partiu sozinha.

– Meu Deus! E como vocês ficaram?

– Meu irmão mais velho, com dezessete anos, e eu, com dezesseis, assumimos os encargos da família. O mais novo tinha dois anos. Foram tempos difíceis. Cheguei a trabalhar como serviçal doméstica. Mas, com a graça de Deus, aos poucos melhoramos nossa situação. Hoje estamos bem e todos casados.

– Ficaram muito tempo sem contato com a mãe?

– Vários anos.

– Como a encontraram?

– Foi há dois anos. Ela já estava cega e alquebrada. Seu companheiro, com câncer no estômago, morreu pouco depois.

– Entendo agora os temores de sua mãe. Imagina que façam com ela o que fez com vocês.

– A pobrezinha está bem frágil. É natural que tenha receios.

Lana sentia-se perplexa.

– Apesar de tudo o que o Espiritismo ensinou-me, não sei se teria disposição para assumir uma mãe que houvesse abandonado a família por um pilantra qualquer...

– Bem, eu não entendo muito da Doutrina. Sou apenas uma iniciante. Guio-me pelo coração e dentro dele não há espaço para rancores contra mamãe. Meus irmãos compartilham do mesmo sentimento. Ela sofreu muito. Foi judiada pelo homem que escolheu. Encaro sua deserção como uma espécie de doença moral. Ela precisa de mim...

Lana despediu-se e, de retomo ao lar, admitia que sua nova amiga estava bem adiante no aprendizado espiritual.

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