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“O papel da imprensa espírita é dar continuidade à divulgação séria da doutrina espírita”

O editor do jornal Correio Espírita, que é publicado em Niterói e circula em oito capitais e centenas de cidades brasileiras, fala sobre as dificuldades enfrentadas pela imprensa espírita

por MARCUS VINICIUS DE AZEVEDO BRAGA

Saulo de Tarso F. Netto (foto), editor do jornal Correio Espírita e presidente do Centro Cultural Correio Espírita, de Niterói-RJ, que é a entidade mantenedora do jornal, fala-nos, entre outros assuntos, sobre o papel da imprensa espírita e as origens do Correio Espírita e as dificuldades que o periódico enfrentou e continua enfrentando até hoje.

Prezado Saulo, fale-nos sobre sua trajetória pessoal no movimento espírita, como conheceu a doutrina e em que tipo de atividades já participou e participa atualmente.

Residindo na cidade de Niterói e cursando o último ano de faculdade no Rio de Janeiro, meu pai indicou uma casa espírita tradicional de Niterói que ele já frequentava: a UMEN - União das Mocidades Espíritas de Niterói. Na verdade, nunca aceitei os postulados católicos na sua totalidade, apesar de frequentar a igreja aos domingos. Por várias vezes, durante o último ano de faculdade não conseguia ir à UMEN, pois sempre tinha uma coisa a fazer. Após a colação de grau cheguei ao Espiritismo em definitivo por esta casa. Fui diretor de divulgação do CEPEAK – Centro de Estudos e Pesquisas Espíritas Allan Kardec e hoje estou à frente do jornal Correio Espírita e sou presidente do Centro Cultural Correio Espírita, pessoa jurídica do jornal.

Conte-nos como surgiu a ideia de fazer um jornal como o Correio Espírita e como se deu sua criação.

A história é longa, com um início em papel A4 e com 50 cópias. Vou resumir partindo da base construída com muito sacrifício, quando estávamos à frente do jornal CEPEAK, que era distribuído gratuitamente em locais afins, bem como em instituições espíritas. Entretanto a “pressão espiritual” continuava, e ouvia em meu íntimo “O jornal precisa crescer, o jornal precisa crescer”. Depois de cinco anos de jornal CEPEAK, com 5 mil exemplares e com 12 páginas em tamanho tabloide, partimos para o Correio Espírita, cuja primeira edição começou a circular em 3 de dezembro de 2004.

O Correio Espírita é um jornal vendido nas bancas. Fale-nos um pouco das peculiaridades desse veículo, de sua linha editorial, estratégia de distribuição e publicidade, colunas, logística e articulação com autores.

Bem, começamos uma empreitada sem saber as suas dimensões. O jornal era bimestral e um ilustre desconhecido. Entretanto, como falei anteriormente, sempre com muita coragem, amparo espiritual e com as experiências quando estivemos à frente do jornal CEPEAK. Bem, já tínhamos passado as humilhações de bater de porta em porta oferecendo um produto (jornal) aos comerciantes que até então ninguém conhecia, em troca de anúncios publicitários. Recebemos inúmeros “nãos”, inclusive de empresários espíritas. Com o início desta nova empreitada com o jornal Correio Espírita, tendo em suas bases uma divulgação a princípio em todo o Estado do Rio de Janeiro, veio a fase de divulgá-lo nas instituições espíritas de todo o Estado através de contatos com quase todos os representantes do extinto CRE - Conselho Regional Espírita, hoje CEU (Conselho Espírita Unificado) - em todo o Estado do Rio de Janeiro. Muitos desses representantes nos perguntavam: “Quem está à frente do jornal? O jornal tem fidelidade a Kardec?”. E, na verdade, conseguimos muito pouco. Aliás, houve mais decepções do que alegrias. De outra forma, sofremos constrangimento em algumas instituições espíritas com a alegação de o jornal possuir anúncios, ser mercantilista... Lamentamos. Outras casas alegavam que o jornal Correio Espírita ofuscaria o informativo de sua instituição. Ridículo... E assim sucessivamente. Obtivemos pouco sucesso junto às instituições que deveriam abraçar e apoiar o jornal e até hoje pouca coisa avançou. Concomitante a tudo isso, já tínhamos contratos assinados com a empresa Distribuidora Folha Dirigida para distribuição do jornal Correio Espírita.

Como podem ver, tudo se encaixava: o jornal nasceu mesmo para as bancas, para levar o Espiritismo além das casas espíritas, com acesso para todas as pessoas e para os neófitos. A luta maior foi vencer as inúmeras barreiras dos próprios redistribuidores de jornais a um produto novo e pior, com distribuição bimestral. Sem falar da discriminação que os produtos espíritas sofrem até os dias de hoje. Posso garantir e citar alguns exemplos de como a coisa funciona: as bancas recebiam o jornal e com uma semana devolviam o produto para a Folha Dirigida sem que ela fizesse a chamada do encalhe. De outra forma, eu mesmo percorria inúmeras bancas anotando os endereços e muitas dessas bancas alegavam que não trabalhavam com o Jornal Correio Espírita. Mentira, pois a Folha Dirigida atestava a distribuição para aquelas bancas que negavam vender o produto. Isso de forma muito expressiva aconteceu por um bom tempo. Outras bancas solicitavam brindes em camisas, canetas etc. em troca de amostragem do jornal, o que não foi possível atender pela falta de recursos.

Importante ressaltar que logo no início tínhamos a certeza de que a credibilidade do jornal viria com seus artigos, a linha editorial ditaria o futuro do jornal. Lembrando a mensagem psicografada pela médium Ermance Dufaux, em Obras Póstumas, segunda parte no Capítulo Revista Espírita, depois de traçar um verdadeiro roteiro de divulgação espírita que Kardec soube cumprir à risca: lamentavelmente, a grande maioria dos dirigentes espíritas nada sabe de divulgação espírita. Ficou claro na mensagem que a regularidade é que fideliza o público. Depois fizemos uma parceria com a Rádio Rio de Janeiro para tornar o jornal mais popular. Fora da nossa equipe, cito Gerson Simões Monteiro que, na época, era o presidente da FUNTARSO e que acreditou neste trabalho abrindo as portas da Rádio Rio de Janeiro para o jornal Correio Espírita.

Começamos em dezembro de 2004 com oito páginas e uma tiragem de 5.000 exemplares bimestrais. No ano de 2006, com edições mensais de 12 páginas e, atualmente, de 16 páginas sendo 4 coloridas, sempre no tamanho standard.

Se o início foi difícil, manter o jornal também é muito difícil. A cada edição, uma batalha vencida com muito amor e alegria. Sabemos que os Espíritos nos dão muita assistência. O maior vitorioso deste trabalho é a doutrina espírita. De forma inédita, conseguimos colocar um jornal espírita lado a lado com qualquer outro jornal. Hoje, o Correio Espírita está presente em oito capitais e em centenas de cidades. É bom frisar que o Jornal Correio Espírita, para alcançar este momento, não foi rotulado por nenhuma casa espírita; não possuímos diretor de doutrina, seguimos bem as orientações e experiências de Kardec quando começou a editar a Revista Espírita. Sugerimos a leitura de Obras Póstumas no capítulo Revista Espírita.

Na sua visão, dada a existência da literatura espírita, qual a importância de veículos de divulgação como jornais e revistas especializadas?

Começamos pelas palavras de Emmanuel: “A maior caridade que podemos fazer para o Espiritismo é a sua própria divulgação”. Entretanto, a grande maioria dos espíritas está excessivamente presa às questões sociais de caridade, e não na audácia de divulgar e apoiar os meios de comunicação espírita. As revistas, os jornais contados a dedo, as livrarias e editoras agonizam. A informação espírita atrai o público para as instituições espíritas. Tenho diversos casos de frequentadores de casas espíritas que chegaram a elas pelas páginas consoladoras do Jornal Correio Espírita. Não querendo ser pedante, mas conheço espíritas que sequer vão ao cinema ou ao teatro para apoiar os trabalhos da crescente doutrina. Se tivéssemos maior atenção aos meios de comunicação espírita, posso assegurar que o Espiritismo estaria à frente do que está hoje e, por conseguinte, o mundo também.

Qual o perfil de escritores espíritas nos periódicos espíritas em geral observados pelo senhor?

A grande maioria já se tocou que o Espiritismo é dinâmico. Outros escritores precisam ser mais atualizados como Kardec foi escrevendo sobre acontecimentos do dia-a-dia na Revista Espírita. No seu aspecto essencial, a revista descortina verdadeiramente o pensamento de um homem genial que fez dela uma grande provocação e instigava o leitor a ler, não somente pelos seus títulos inteligentes, mas também pela seleção de artigos de dar inveja a qualquer jornalista do momento atual. Tenho lido excelentes artigos em jornais e revistas. Entretanto, pela falta de hábito dos espíritas de não ler jornais e revistas, os artigos passam despercebidos. Lamento profundamente que os espíritas não levem jornais e revistas de termas atuais para discussão e debate nas casas espíritas com mais frequência.

Sobre o Correio Espírita, o senhor tem algum caso típico para nos contar, alguma carta, interação com leitores digna de nota?

Recebemos muitas correspondências ao longo desses sete anos. Mas o que mais me chamou atenção foi uma cobertura jornalística em uma casa espírita muito antiga, diria até uma das mais antigas do mundo, localizada na Rua Carmo Neto, no centro antigo da cidade do Rio de Janeiro. Lá estivemos o jornalista Marcelo José e eu. As instalações muito antigas, livros de presença de renomados espíritas daquela época. Um relógio de parede vindo de Portugal que, depois de vinte anos sem funcionar, deu até badaladas. E tudo isso sendo registrado pelo Marcelo e pelas lentes de minha Cyber-Shot. Uma bíblia antiquíssima que não conseguimos fotografar. A princípio, o defeito era com o fotógrafo. Substituímos o fotógrafo, depois trocamos as pilhas da máquina, depois outra máquina e nada fez com que fotografássemos a bíblia. Por fim, o fato intrigou a todos os presentes e acabei levando a bíblia para minha residência, onde consegui fazer um scanner, cuja imagem foi inserida na edição da cobertura jornalística e publicada no Correio Espírita.

Como funciona no Correio Espírita o trabalho dos jornalistas que produzem matérias próprias?

Todos os trabalhos jornalísticos são voluntários, bem como o trabalho de todos os articulistas e colunistas. Não há interferência da redação, apenas orientamos no escopo editorial e nas pautas. Logicamente, há artigos que recebemos que não se enquadram na proposta editorial, e assim os excluímos de nossas pautas.

Com o avanço da internet, qual a sua opinião sobre os rumos da comunicação social espírita?

Os jornaleiros reclamam que a internet roubou boa parte de seus leitores. As vendas de produtos impressos caíram bastante. Isso é sinal de um novo modelo de comunicação. Vejo um progresso na mídia de informação neste momento, em que as redes sociais adentram em nosso tempo, encurtam as distâncias e logicamente o tempo. Isso é muito bom para o Espiritismo, que caminha lado a lado com o progresso científico e tecnológico da informação séria. Entretanto, ressaltamos que a falta de reflexão sobre a comunicação espírita traz prejuízos à Doutrina Espírita, cuja informação jornalística é muito incipiente.

O movimento espírita, como qualquer organização humana, apresenta pontos polêmicos e discordâncias públicas. Qual é, em sua opinião, o papel da imprensa espírita nessas polêmicas?

Os movimentos espíritas são o conjunto de ideias de cada simpatizante, não obstante a minha opinião ser igual ou diferente da sua. Importante é ter Kardec como norte de toda a codificação. Acredito que as polêmicas existem pela falta de conhecimento doutrinário e não pela falta de doutrina. Melhor dizendo, os pensamentos de Allan Kardec continuam sendo pouco estudados. Pergunto ao leitor: você já estudou o livro O Céu e Inferno? Com certeza a Revista Espírita também não. Na minha opinião, o papel da imprensa espírita é dar continuidade à divulgação séria da Doutrina Espírita. Por experiência própria, evitamos publicar no Correio Espírita discussões vãs. Entretanto, o jornal tem apresentado artigos polêmicos para a sociedade como, por exemplo, a homossexualidade, a pederastia, o aborto, pena de morte etc., em que o jornal sempre esteve presente para esclarecer, à luz da razão e jamais por omissão, a sociedade.

Por fim, qual a sua opinião sobre o papel e as diretrizes a serem observadas pelo comunicador social espírita?

Há um dito popular que diz: “o exemplo arrasta”. Se esperarmos a nossa reforma íntima, jamais seremos um comunicador espírita. O comunicador espírita antes de se tornar moralizado precisa aprender a passar bem a informação espírita. Vejo ainda alguns sermões em casas espíritas, e isso não é bom. Em se tratando de jornalismo, acredito que o melindre precisa ser transformado em profissionalismo e que somente boa vontade, em se falando de divulgação, pode atrapalhar, pois erra em não apresentar um trabalho bem-acabado.

Aos nossos irmãos de comunicação espírita ainda resta uma grande oportunidade de aprender, de vivenciar e redescobrir o pensamento sobre comunicação social espírita que ainda continua oculta nas páginas de Obras Póstumas, nas quais os Espíritos, sem TV, sem teatro, sem cinema, ditaram a Kardec um roteiro de comunicação espírita a ser seguido. Cabe aos espíritas apoiar a mídia espírita impressa, virtual, falada ou televisiva.

Fonte : http://www.oconsolador.com.br/ano6/265/entrevista.html

Espiritualidades.com : http://www.espiritualidades.com.br/NOT/Not_2012/2012_06_28_SaulodeTarso_entrevista.htm

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