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soin-12042011-280x230Mira era muito estimada pelos patrões.
Serviçal humilde, a todos encantava com sua boa vontade e dedicação.
Órfã, vira escoarem-se a infância e a adolescência num lar infantil. Depois se empregara na residência de Lupércio, abastado comerciante, onde passara a residir.
Jerônima, a esposa, em princípio a contratara para serviços gerais. Logo, observando sua vocação para lidar com crianças, confiara-lhe seus filhos.
A jovem revelou-se uma babá muito especial, que cuidava de rebentos alheios com o carinho e a solicitude que dispensaria aos de sua própria carne.
Não se casara. Tímida e recatada, raramente saía, furtando-se ao contato com os rapazes da vizinhança, e nenhum deles poderia imaginar que aquela mulher de discreta beleza reservava todo um tesouro de ternura àquele que conquistasse seu meigo coração.
A patroa, encantada com a serviçal, proclamava frequentemente:
– Mira é da família!
As crianças cresceram. Os anos escoaram-se, modifi¬cando os quadros da vida, sem alterar em nada o devotamento da serviçal aos filhos de Jerônima, que repetia sempre:
– Mira é da família!
Até que aconteceu o problema...
Certo dia ela desenvolvia seus afazeres domésticos quando sentiu forte dor no peito. Desmaiou. Providen¬ciada a internação de emergência, o médico informou, após vários exames, o quadro sombrio:
– A paciente está com grave deficiência cardíaca. Recomendo repouso absoluto por três meses.
Jerônima dirige-se ao marido:
– Meu querido, a situação é grave. Não podemos abandonar Mira, mas é impossível sua permanência em casa. Precisamos de uma substituta e o quarto onde dor¬me é muito pequeno para acomodar duas pessoas. Além do mais não disponho de tempo para atendê-la em suas necessidades.
Lupércio concordou com a mulher e apresentou a solução:
– Entrarei em contato com uma organização de as¬sistência que mantém um lar de idosos. Embora Mira se¬ja relativamente jovem, seu mal a situa em velhice preco¬ce. Conheço os diretores e tenho feito doações. Não será difícil conseguir a internação.
– Ótima ideia!
Da palavra à ação foi um passo. Com a presteza de quem resolve incômodo problema, Lupércio tomou as providências necessárias.
A serviçal recebeu com imensa tristeza a notícia, mas, humilde, conteve-se, aceitando os argumentos da patroa:
– Sabe como a estimamos. Por isso mesmo quere¬mos que descanse à distância das responsabilidades em nosso lar. Lá desfrutará da tranquilidade necessária para a sua recuperação. Seu cantinho aqui continuará reserva¬do...
E, enfática:
– Afinal, você é da família!
No dia seguinte levou-a ao novo lar. Dirigindo-se à atendente, Jerônima recomendou solene:
– Peço-lhe que a receba com muito carinho. Preocu¬po-me com seu bem-estar.
Com o alívio de quem se livra de indesejável encargo, acentua:
– Mira é da família!
A doente não sobreviveu à tristeza de separar-se da sua “família”. Faleceu algumas semanas depois. No veló¬rio Jerônima chorava, emocionada, falando da antiga serviçal.
– Pobre criatura! Lamento sua morte como a de uma filha querida. Tantas lutas e logo agora, que podia des¬cansar tranquilamente, a morte veio buscá-la. Fará muita falta. Lembraremos sempre de nossa Mira como de um familiar querido que partiu.

* * *
Os lares da Terra são como clubes fechados, onde só entram os que possuem a senha indispensável: o mesmo san¬gue.
Em situações peculiares, premiando uma dedicação sem limites, poderá um serviçal ser promovido a “membro da casa”.
Todavia, semelhante disposição não resiste aos testes da gratidão, porquanto tão logo se reduzam suas possibilidades de trabalho, em decorrência da idade ou de insidiosa moléstia, será sumariamente descartado. Se não pode servir à família, deixa de ser “da família”.
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