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Artigo do Jornal: Jornal Agosto 2013
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     Famoso artista assumiu o compromisso de pintar um quadro a óleo para a catedral de uma cidade italiana. Teria por tema a vida de Jesus. Durante meses dedicou-se ao gratificante trabalho.

     Ao final, faltavam duas personagens: Jesus menino e Judas Iscariotes.

     Meticuloso, pôs-se a procurar os modelos ideais. Em bairro de periferia encontrou um garoto de sete anos, cujo rosto o impressionou vivamente. Tinha expressão suave, fisionomia tranquila, olhos brilhantes e expressivos, exatamente o que desejava.

     Conversou com os pais. Conseguiu que o levassem ao ateliê. O modelo infantil posou pacientemente, até que a figura do sublime infante foi retratada, com toda a pureza e inocência pretendidas.

     O pintor suspirou, aliviado. Faltava apenas Judas.

     ***

     O tempo passou, o quadro empacou; anos se sucederam, sem que o modelo ideal fosse encontrado. O artista viu homens que traziam estampada na face a vilania e a degradação. Mas nenhum deles possuía uma fisionomia que configurasse Judas como o imaginava: deprimente figura, um infeliz vencido pela ambição, atormentado pela vil traição.

     Os padres reclamavam. Ele próprio sentia-se envelhecer e temia não terminar a pintura, em face das exigências de sua própria arte. A obra inacabada acabou ficando num canto do ateliê, por duas décadas. Mas o pintor não desistira. Obcecado pela procura, examinava atentamente os homens com quem travava contato, sem que alguém se aproximasse do modelo idealizado.

     Certa feita bebericava um copo de vinho numa taverna, quando um mendigo, esfarrapado e magro, apareceu à porta. Cambaleante, caiu e rolou pelo chão. Voz rouquenha clamava:

     – Vinho, vinho!

     Compadecido, ao tentar erguê-lo, viu-lhe o pintor o rosto bem de perto e estremeceu de emoção. Aquela fisionomia atormentada, viciosa, suja, desesperada, era o retrato fiel de Judas!

     Emocionado, propôs-lhe:

     – Venha comigo! Eu o ajudarei!

     O infeliz o acompanhou. Chegados ao ateliê, depois de ter satisfeito a fome e a sede do improvisado modelo, o pintor desvelou a tela, dispondo-se a iniciar o trabalho.

     Entretanto, quando o mendigo a contemplou, deixou-se possuir por grande agitação, desandando em choro convulso.

     O pintor ficou atônito.

     – O que houve? Por que essa aflição?

     Ele não conseguia falar, a chorar, atormentado.

     – Fale meu filho! O que houve? Deixe-me ajudá-lo!

     O infeliz controlou-se.

     A gaguejar, fez surpreendente revelação.

– Não se lembra de mim? Há muitos anos estive aqui. Fui eu! Fui eu quem posou para o seu menino Jesus!

Este fascinante episódio dramatiza uma situação que se repete, indefinidamente, no Mundo:

     A perda da inocência e da pureza, e o comprometimento com vícios e paixões, marcando a transição da infância para a idade adulta. É comum os pais de criminosos que cometeram atrocidades comentarem, em desespero:

     Não posso acreditar que tenha sido nosso filho! Era um menino tranquilo e gentil, incapaz de uma maldade! Como pôde transformar-se num monstro?!

     Observando o comportamento desajustado, as más tendências que se manifestam no indivíduo, à medida que supera o estágio infantil, tem-se a impressão de que a sociedade corrompe as pessoas.

     Essa era a ideia de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), filósofo do Iluminismo. Ele proclamava que o homem é bom ao nascer, puro e sem mácula. Nasce com a face de Jesus. A sociedade lhe imprime o rosto de Judas.

     É evidente que, se assim fosse, estaríamos diante de um fatalismo inconcebível, uma incoerência de Deus.

     Colocar-nos num mundo onde fôssemos inexoravelmente induzidos ao mal.

     A ideia de Rousseau tem outro problema. Favorece o errôneo conceito de que a alma é criada no momento da concepção. Seria, portanto, pura e imaculada, como um livro de páginas em branco, corrompida pela sociedade, que nela imprimiria todos os seus vícios e maldades.

***

     Sócrates (470-399 a.C.) que viveu há mais de dois mil anos antes de Rousseau, tinha um conceito mais avançado.

     Admitindo a ideia da Reencarnação, considerava que a criança não é um livro em branco. Guarda registros de vidas anteriores. Educar seria não apenas fazer o Espírito entrar na posse de seu patrimônio de experiências pretéritas, mas também ajudá-lo a superar as tendências inferiores resultantes de seus desvios.

     É exatamente esse o ponto de vista da Doutrina Espírita, a nos ensinar que a candura da criança, sua inocência e simplicidade, nada tem em comum com a natureza do Espírito que ali está.

     Este, na verdade, permanece num estado de dormência e só começará a despertar para a vida física após os sete anos, acordando plenamente na adolescência, quando entrará na posse de sua personalidade e tendências.

     Sua aparência, sua graça, sua inocência, tem por objetivo despertar em seus pais, naqueles que a cercam, sentimentos de proteção e carinho, fundamentais para que sobreviva, já que nessa fase o ser humano é totalmente dependente.

     A partir da adolescência, o Espírito reencontra a si mesmo, com suas qualidades e defeitos. A maldade, o vício, a inconsequência, refletirão apenas aquilo que ele é, realmente, fruto de suas experiências passadas.

     Por isso é que a face de Jesus pode converter-se na face de Judas. A pureza aparente pode ocultar o comprometimento com paixões e vícios.

     Há que se considerar, contudo, que a finalidade da existência na Terra é a renovação, a superação de tendências inferiores.

     Encarnamos exatamente para evoluir. As limitações impostas pelo corpo físico, que inibem nossas percepções, as dificuldades e dores da Terra, atuam como lixas grossas que desbastam nossas imperfeições.

     Uma das revelações mais importantes da Doutrina Espírita está na questão número 383, de O Livro dos Espíritos, quando Kardec pergunta qual a utilidade da infância, e o mentor informa que nessa fase o Espírito é extremamente sensível às influências que recebe.

     Muitas de suas tendências inferiores e fragilidades poderão ser superadas com a ajuda dos responsáveis por ela.

     Naturalmente, é fundamental que haja o exemplo, que os pais estejam dispostos a viver o que ensinam aos seus rebentos, cultivando um comportamento digno e honrado. De nada adiantará ensinarem ao filho que fumar é nocivo ou que não deve dizer palavrões, se eles próprios o fazem.

     Artur Azevedo (1855-1908), escritor e teatrólogo brasileiro, narra ilustrativo diálogo entre pai e filho.

     O pai, informado de que o menino mentia muito na escola, dá-lhe uma lição de moral, explicando-lhe, com variados exemplos, que é preciso dizer sempre a verdade. Nesse ínterim, batem à porta. O pai termina a conversa recomendando:

     – Vá atender, filho. Se for alguém que me procure, diga-lhe que não estou.

***

     Óbvio que a possibilidade de corrigir tendências inferiores não acaba jamais. Na dinâmica da reencarnação, somos incessantemente estimulados à renovação, enfrentando as dificuldades e problemas da Terra.

     A diferença é que na infância isso pode ser feito a partir da influência de pais e preceptores.

     Na idade adulta, dependerá de nossa iniciativa.

     Qual seria o caminho? Jesus no-lo indica (Lucas, 18:15-17):

     Trouxeram-lhe, então, algumas crianças para que lhes impusesse as mãos e orasse por elas, e os discípulos repreenderam os que as trouxeram.

     Jesus, porém, disse:

     – Deixai as crianças e não as impeçais de vir a mim. Porque delas é o Reino dos Céus. Em verdade vos digo: aquele que não receber o Reino de Deus como uma criança, de modo algum entrará nele.

     O mestre situa as crianças como paradigmas da inocência e da pureza necessárias para que atinjamos o Reino de Deus.

     Inocência – a pureza da consciência.

     Pureza – a inocência do coração.

     A face de Jesus menino tem se convertido, em nós, nas experiências reencarnatórias, na face lamentável de Judas. Somos convocados, agora, pelo conhecimento espírita, a transformar a face de Judas na figura radiante do Cristo, empenhando-nos com tal ardor e dedicação, que um dia possamos repetir com o Apóstolo Paulo (Gálatas, 2:20): ...e já não sou eu quem vive, mas o Cristo que vive em mim.

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