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Artigo do Jornal: Jornal Junho 2014
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“Noventa milhões em ação, Pra frente Brasil, no meu coração. (...) De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão! Todos ligados na mesma emoção, tudo é um só coração!”. A melodia da Copa de 1970 embalou o imaginário de gerações de brasileiros em um evento que de quatro em quatro anos abala o cotidiano nacional, inflamando casas, enfeitando ruas e nesse ano de 2014, agitando nossos estádios, dado que somos os anfitriões. Estamos falando da Copa do mundo de futebol FIFA - 2014.

Evento promovido pela Fédération Internationale de Football Association (FIFA), supera em termos de mobilização nacional outros eventos como o carnaval, o Natal e a festa junina. Passados 64 anos de sua última edição no Brasil, o evento retorna aos nossos campos, brindando gerações que somente vivenciaram a competição em outros países.

E toda essa emoção, contagiante, essa profusão de sentimentos e expectativas, catalisadas por um ano eleitoral, e ainda, um sem número de ações de infraestrutura que afetam diretamente o cotidiano dos cidadãos dos grandes centros, mexe com a vida coletiva. Um cenário que nos mobiliza, para o grito de gol e para manifestações por anseios, pela luta por direitos sociais e por uma vida melhor, no contexto de um país que vê sua democracia amadurecer a cada ano.

Esse caldeirão sociológico, que se materializa em greves, protestos, ruas enfeitadas, bandeiras no carro, em somas de amores e ódios, inflamado por uma estrutura social que se articula em redes sociais, faz da chamada pelo escritor Nelson Rodrigues de “Pátria de Chuteiras” um evento diferente do que se pensou quando da escolha da Copa no Brasil em outubro de 2007, mas que já se encaminha para os moldes normais da paixão nacional pelo futebol.

Nesse contexto, mensagem psicografada de maio de 2014, divulgada pela Federação Espírita Brasileira em seu sítio, de autoria do espírito José do Patrocínio, ativista político e abolicionista, indica que “Os benfeitores nos recomendam prudência. Aquietarmos antes de acelerarmos; paciência, antes que a preocupação maior; oração, antes que o receio. (...) Os irmãos infelizes, acostumados à balburdia, à desordem no mundo espiritual inferior, querem aproveitar, também, no seu trabalho organizado, chamar atenção do mundo, para desmoralizar o grande Programa de Jesus para o Brasil. (...) Os espíritas conhecedores desses acontecimentos, da ação dessas criaturas infelizes, nossos irmãos, devemos estar conscientes de que representamos elos da grande corrente da Bondade que protege o grande programa que o Cristo de Deus colocou nas mãos do povo Brasileiro. Estejamos, pois, meus irmãos, atentos, não sejamos aqueles que multipliquem as más informações e notícias, mas as serenados, aquietados, nos liguemos aos benfeitores, nesse momento importante, para que possamos transmitir para o Mundo inteiro a nossa gente tão boa, a expectativa de um ambiente de paz e de um povo ordeiro e generoso, e sobretudo Cristão.”

Corrente de bondade... Corrente prá frente... As palavras de nosso altivo irmão nos conclamam a serenidade e ao equilíbrio nesse festivo momento de nosso País, que comemoramos de forma ordeira quando em outras edições, longe de nossas casas. O posicionamento político, a luta pelo homem de bem e a inseparável questão de um mundo melhor, são virtudes, conquistas de todos os cidadãos, mas que clamam por prudência, como a serpente dos ditos evangélicos, e também a mansuetude da pomba, entendendo os melhores campos de luta, utilizando a razão como guia diante das conjunturas complexas, para além de uma mera competição esportiva, envolvendo nuanças econômicas, sociais e geopolíticas.

Paulo de Tarso dizia - “Examinai tudo e retende o que for bom”. Na presente competição, não adentrando na discussão dos benefícios materiais de investimentos e avanços econômicos e de infraestrutura, podemos ressaltar, de forma mais própria na temática espírita, os avanços que esta traz em termos de estímulo aos esportes, dado que este, como atividade humana, fomenta o companheirismo, a vida saudável e o lazer, tendo como foco em especial a juventude.

Serve o esporte como elemento educador e de adesão da população a questões coletivas, servindo de oportunidade bendita de exemplificarmos em campo e nas arquibancadas a nossa conduta moral, rechaçando a violência das torcidas, a prática do racismo, a fraude e outras condutas lamentáveis, que não são exclusivas da modalidade futebolística.

Entretanto, como toda prática, pelos seus excessos, pode nos conduzir a embaraços na senda do bem... Um grande espírita que residiu em Niterói-RJ, em comunicação mediúnica após sua desencarnação indicou que "o futebol muito atrapalhou minha evolução..." Trata-se de uma competição esportiva, uma paixão nacional, uma fonte de integração, mas não pode ser uma razão para viver. A vida na Terra, como espírito encarnado, nos demanda atenção a outras questões, que dizem de nossa vida espiritual e da nossa caminhada como viajores rumo à perfeição.

Gostando ou não de futebol, no Brasil este fenômeno cultural acentuado pela Copa do Mundo nos invade, mexendo com o nosso cotidiano e nos conclamando a torcer pelos nossos representantes em campo, figurando também como momento de confraternização com os amigos e a família, momentos nos quais as recomendações de José do Patrocínio, no que tange a prudência, fazem-se mais uma vez valorosas.

Diante das tristes ocorrências de acidentes automobilísticos, brigas familiares e alcoolismo, que figuram em outras manifestações populares e também naquelas relacionadas ao futebol, cabe a nós, espíritas, manter uma conduta moralmente adequada, no conceito que lazer não necessariamente é inconsequência, orando e esclarecendo outros irmãos que não estão atentos a essas questões.

Aí se apresenta um novo desafio, o “viver no mundo sem ser do mundo”, ou seja, viver a festa esportiva, comemorar, torcer, vibrar, com equilíbrio e prudência. Não necessitamos nos insular da sociedade, como bem preconiza O Livro dos Espíritos na pergunta 770. Necessitamos enfrentar o mundo, e relembrando Jesus, “vencer o mundo”, encarando a nossa imperfeição no campo das provas.

No plano social, da promoção do esporte e da adesão ao sentimento de coletividade, e no plano individual, como convite a alegria com juízo, o fenômeno da Copa do Mundo de futebol figura como muito mais do que uma partida de futebol e sim como um evento social ímpar, do qual é possível extrair aprendizado para a nossa vida espiritual, a despeito de todas as críticas pertinentes, e temos como desafios prementes a superação da depredação, da violência, do racismo, dos acidentes automobilísticos e toda ordem de excessos que são inerentes a nossa imperfeição.

O momento é de festa, a seleção canarinho mais uma vez entra em campo para buscar o caneco campeão. Jovens atletas, acompanhados por milhares de olhos brasileiros, têm a oportunidade de mais uma vez mostrar técnica e integração, mas também de jogar com uma conduta moral desejável, dentro e fora de campos, dado que todos nós somos a seleção brasileira.

Box 1 - Gol espírita

Ainda que nossos gramados recentemente sejam brindados por um jogador chamado Kardec, seus inúmeros gols não são os gols espíritas. Na tradição do futebol, o chamado “gol espírita” é aquele marcado de forma inusitada, sem querer. Mais ou menos como se uma “força do além” interferisse na trajetória pretendida na bola, com um efeito positivo. Temos como exemplo, se o atleta chuta de um local praticamente sem ângulo, é gol espírita. Quando um jogador tenta cruzar uma bola e ela acaba entrando direto no gol, trata-se de um gol espírita. E ainda, se o goleiro de um dos times chuta da sua área e ela encobre o goleiro do outro time. São situações de jogo, comuns e devidas a fatores físicos diversos. Relembremos a sabedoria de O Livro dos Espíritos, que trata de assunto similar na pergunta 528. “Um homem mal intencionado dispara um tiro contra outro, mas o projétil passa apenas de raspão, sem o atingir. Um Espírito benfazejo pode ter desviado o tiro? Se o indivíduo não deve ser atingido, o Espírito benfazejo lhe inspira o pensamento de se desviar, ou ainda poderá ofuscar o seu inimigo de maneira a lhe perturbar a pontaria; porque o projétil, uma vez lançado, segue a linha da sua trajetória”. Gol espírita, só na tradição futebolística!

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