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Artigo do Jornal: Jornal Outubro 2014
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Nos idos de 1990, no estudo da noite de sábado do Mês do Jovem Espírita em Valença-MEJEVAL, encontro de jovens realizado naquela cidade do Rio de Janeiro, presenciei interessantíssima exposição de dois jovens colegas, que falavam da importação de práticas católicas para a Doutrina Espírita, comparando, de forma criativa, a relação das pessoas com a água fluidificada e a água benta; bem como o passe e a comunhão, entre outros paralelos ritualísticos.

Essa discussão me instigou nesses últimos 25 anos, e percebi que outras pessoas também se sentem perturbadas por essas questões, de falta de construção de uma identidade da prática espírita, assolado por vezes na importação de modelos dos cultos afro-brasileiros, do catolicismo e mais recentemente, de igrejas evangélicas, em uma avalanche de situações que apesar de boas, são questionáveis em relação aos pressupostos que abraçamos no seio do espiritismo. Movimento é feito de práticas, de ações em conjunto e para além de rituais, temos atividades características, que necessitam de uma identidade coerente.

A questão é polêmica, mas nem por isso menos importante... Veio à tona novamente, ao tomar conhecimento de uma juventude espírita que saiu às ruas distribuindo exemplares de O Evangelho Segundo o Espiritismo para os transeuntes, no sinal, nas praças, nas ruas, em uma prática bem similar à que observamos em nossos irmãos evangélicos, que alistam seus jovens em caravanas pelas ruas, distribuindo jornaizinhos, na busca de angariar adeptos a sua fé, no que poderia se aproximar de um proselitismo, ou seja, um intento ativista de converter uma ou várias pessoas, ou determinados grupos, a uma determinada causa.

Importarmos assim um modelo, a meu ver, ausente de uma reflexão do que essa prática se traduz para o jovem e para comunidade. É uma questão preocupante... Ouviremos, certamente: ”- Ah, que mal existe em distribuir pela rua o Evangelho? É uma coisa boa!” Verdade, sem dúvida é uma prática do bem, mas no mundo das práticas, fazemos escolhas ao direcionar o nosso potencial e passamos mensagens para os que fazem e para os que são objetos de nossas ações.

O próprio Kardec, n’O Evangelho Segundo o Espiritismo, promulga a supremacia do “Fora da caridade não há salvação”, explicando que o crescimento espiritual não se dá pelo encontro com uma verdade e sim com o amor. Qual o propósito de distribuirmos a nossa obra básica vinculada aos ensinos de Jesus e ao aspecto religioso do espiritismo pelas ruas? Desejamos divulgar o espiritismo, como doutrina, para buscar a conversão daquelas pessoas, ou entregamos apenas uma obra que sabemos ser boa em sua mensagem? O que desejamos e como isso é percebido? Reflexões nos levam a essas questões...

Kardec em O que é o Espiritismo nos diz: “(...) Não pretendo forçar convicção alguma. Quando encontro pessoas que sinceramente desejam instruir-se e dão-me a honra de pedir-me esclarecimentos, folgo e cumpro um dever respondendo-lhes nos limites dos meus conhecimentos; quanto aos antagonistas, porém, que, como vós, têm convicções arraigadas, não tento um passo para delas arredá-los, atento a que é grande o número dos que se mostram bem dispostos, para que possamos perder o nosso tempo com aqueles que o não estão.”, indicando que o espiritismo em relação a divulgação pousa como uma luz serena, para aqueles que o buscam e não como um farol a invadir a casa das consciências, pelas lutas de argumentos.

Aí, esbarramos na questão do tênue limite entre a divulgação e o proselitismo, no qual sempre invocam a frase do livro Estude e Viva, ditado pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz; psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira: "(...). Para isso, estudemos Allan Kardec, ao clarão da mensagem de Jesus Cristo, e, seja no exemplo ou na atitude, na ação ou na palavra, recordemos que o Espiritismo nos solicita uma espécie permanente de caridade - a caridade da sua própria divulgação".

Sempre esquecemos de ressaltar o trecho que fala “seja no exemplo ou na atitude, na ação ou na palavra”, dando-nos a dica de como deve ser essa divulgação, a feição de vitrines vivas. Sim, é preciso divulgar o espiritismo, e isso tem sido feito principalmente pelos nossos livros e por nossas casas espíritas, sempre localizadas em local visível, contando com o exemplo e a palavra amiga de cada frequentador para que as pessoas a conheçam e dela se aproximem. A questão aqui não é divulgar ou não o espiritismo e sim a agregação de práticas que podem vir a se chocar com os nossos pressupostos, o nosso ethos como movimento.

 

Nesses mais de 150 anos de movimento espírita, em que pesem os nossos baixos índices formais no Censo, as nossas crenças em seus pilares básicos são difundidas em escala nacional e mundial (vide os filmes de sucesso), nossos livros são vendidos em larga escala e não precisamos, salvo melhor juízo, desses artifícios, pois o pressuposto é que o nosso foco é o homem de bem e não aumentar o nosso número de adeptos, o que não se vê em religiões cuja matriz é a salvação pela fé.

Somos uma doutrina que surgiu dentro de um tríplice aspecto (Ciência e filosofia com consequências religiosas, na proposta kardequiana), questionando muitas dessas práticas religiosas vigentes, no âmbito da Igreja católica, e construímos a nossa identidade nas casas espíritas à luz das ideias do codificador e dos que o precederam, com o foco na prática do bem, na vivência mediúnica e no estudo reflexivo e incessante da doutrina que abraçamos, na promoção do homem de bem, na nossa renovação como espírito, avançando nessa encarnação, vivendo no mundo sem ser do mundo.

Infelizmente, a distribuição de obras não é a única prática que importamos recentemente... Valorização do luxo e da suntuosidade nas instalações, eventos grandiosos, obras literárias de cunho motivacional, uma busca de se apresentar como a verdade, o endeusamento de palestrantes e de médiuns, hipervalorização de práticas de cura, valorização dos textos dos livros como obras sagradas, preferência quase exclusiva de autores desencarnados, um desprezo pelo debate e pelo dissenso, isso somado aum modelo de arte industrializado, excludente de outras manifestações culturais laicas.

Esses modelos, oriundos de outras denominações, tem seu valor, e como dizia Paulo, examinai tudo e retende o que for bom. Mas, é preciso a reflexão, a luz de nossos pressupostos espíritas, no legado kardequiano, para analisar de que forma essas práticas contribuem com o nosso progresso espiritual. Não é uma questão de polemizar, mas de analisar e raciocinar, indigesta herança de uma fé que se propõe raciocinada, baseada na convicção construída.

Criticamos com veemência práticas oriundas dos cultos afro-brasileiros, mas absorvemos, tranquilos, práticas do catolicismo e das igrejas pentecostais sem pensar nestas a luz da visão do espiritismo da sua própria vivência. O ecumenismo, como movimento de integração e respeito entre as crenças, é admirável, mas precisamos saber por que escolhemos o caminho do espiritismo e seus valores.

Longe de criticar a iniciativa dos jovens na distribuição dos evangelhos, defendo apenas que tenhamos o debate na importação dessas práticas, com analise e reflexão, a luz dos princípios da doutrina e da sua proposta revolucionária de prática religiosa, que rompe com paradigmas. Lembremos que quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve...

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