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Artigo do Jornal: Jornal Dezembro 2014
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O Canal de TV por assinatura “Viva” estreou recentemente a série “Meu amigo encosto”, uma comédia que explora a cultura popular de se associar problemas pessoais a ações de espíritos, aproveitando-se dessa vertente espiritualista latente na nossa terra.

A despeito da adesão pelo tema, estampada nas diversas explorações comerciais da temática, tratada na série televisiva por um especialista, o “encostologista”, a Doutrina espírita, ainda que muitos pensem de forma diversa, não comunga dessa visão “encostologista” da ação dos espíritos ditos obssessores.

Para o espiritismo, as nossas agruras têm a sua origem em causas presentes e passadas, e a atuação do espírito é mera consequência, sem esquecer a memorável lição do codificador de que os espíritos são, nada mais, nada menos, do que as almas dos homens, em outro plano de existência.

Nesse sentido, O Evangelho Segundo o Espiritismo, no seu Capítulo XII, assevera de forma límpida:

“Antigamente, para apaziguar os deuses infernais, depois chamados demônios, mas que não passavam de espíritos maus, sacrificavam-se animais e até pessoas. O Espiritismo vem provar que esses demônios são apenas almas de homens perversos que ainda não se livraram dos instintos materiais, e que somente se pode pacificá-los sacrificando-se o ódio que possuem, por meio da caridade; que a caridade não tem apenas o efeito de impedi-los de fazer o mal, mas também de conduzi-los ao caminho do bem e contribuir para sua salvação. É assim o ensinamento de Jesus: Amai os vossos inimigos, não está unicamente limitado ao Planeta Terra e à vida presente, mas inclui também a grande lei de solidariedade e fraternidade universais.”

Assim, não faz sentido essa visão persecutória em relação aos espíritos desencarnados, convertida, muitas vezes, em paranoias, alimentadas pelo pânico e que conduzem a criatura, por vezes, a ser vítima da extorsão, da exploração de seus receios e medos, por serviços de eliminação ou banimento desses pretensos espíritos malignos, a feição de tratamentos dados a parasitas.

No espiritismo, a visão é do “espírito sofredor”, filho de Deus como nós e essas abordagens coisificadoras desses espíritos merecem de nós uma profunda reflexão em relação ao próximo, a lei de causa e efeito e o primado do amor contido em nossa doutrina.

O assunto da Obsessão é tratado, inicialmente, na obra kardequiana, n’O Livro dos Médiuns e n’A Gênese, definida como a “ação persistente de um espírito sobre o outro”, dividida pelo codificador em três tipos: Obsessão simples, fascinação e subjugação, não se tratando, nem de longe, de uma exclusividade espírita, dado que a história é farta e processos dessa natureza.

Trata-se de uma relação entre espíritos – construída e desconstruída –, em processos gradativos, alimentados pela invigilância e pautados no ódio, na vingança e na inimizade – forças poderosas. Para a sua extinção, cabe a letra evangélica do amor aos inimigos, da outra face e ainda, do amor que cobre a multidão de pecados e do perdão que liberta as almas, pelas vias da reparação.

Relações complexas que não se resolvem de forma simples, com fórmulas mágicas ou soluções imediatistas. Só o contato que cicatriza as feridas pode trazer avanços, no exercício do amor, na reconstrução de relações. Coisificar, expulsar, amarrar o espírito são visões paliativas de um problema que não tem a sua sede na mediunidade e sim nas relações e nos sentimentos.

Obviamente, a casa espírita pode ajudar nesse processo, na chamada profilaxia da obsessão. Entretanto, ainda que essa ofereça os passes que reequilibram, a prece, a palestra e as reuniões de atendimento, faz-se necessário focar no encarnado, na sua renovação íntima que convença a nuvem de testemunhas da mudança daquele espírito, na visão de que as palavras convencem, mas os exemplos arrastam.

Da mesma forma, no trato da obsessão, devemos ter zelo na sua associação à doença mental, não dispensando a atuação médica em hipótese nenhuma, sem descuidar do poderoso aliado contido na terapêutica espírita.

Como visto, adensando-se no paradigma espírita, fundamentado na codificação kardequiana e nas obras complementares que com seriedade essa questão, no que tange a obsessão, “nem tudo que reluz é ouro”, em discursos no qual nos enganamos entre vítimas e algozes, querendo ressuscitar o “céu e o inferno” ou “anjos e demônios”, esquecendo-se que nas aulas da vida, pautadas pela Lei de causa e efeito, não temos inocentes, temos apenas causas anteriores e presentes e que o importante é a percepção que a hora é agora, de diminuir os débitos e de resgatar dívidas.

Não existe mágica! O espírito sofredor que supostamente nos persegue está ligado por forças poderosas, laços afetivos de vidas passadas, de feridas que não fecharam e que nos conduzem a reparação nos bancos escolares da reencarnação. Como na alegoria do evangelho, do pastor que sai para buscar uma única ovelha, tenhamos em mente que Deus se preocupa conosco e com ele também. Aquele que chamamos de perseguidor, inimigo invisível, obsessor e que pedimos contritos que seja afastado pelos amigos espirituais, Deus vê apenas com mais um de seus filhos, afastado da luz.

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