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Artigo do Jornal: Jornal Março 2015
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Pagando uma dívida de mais de década comigo mesmo, nessas férias de fim de ano consegui finalmente assistir ao clássico Gênio Indomável, de 1997, dirigido por Gus Van Sant e com interpretações magníficas de Matt Damon, Robin Williams e Ben Affleck, o que lhe rendeu várias premiações.

Um filme sobre a inteligência, materializada em níveis extremos e que apresenta a realidade de um jovem superdotado e o quanto ele se vê divergente em relação ao mundo. A película mostra a inteligência como uma benção que pode se tornar um fardo, e ainda, que o saber é um rio que deve fluir no mundo real, com um sentido produtivo.

A inteligência hoje é entendida como uma potencialidade de múltiplas dimensões e o filme mostra bem isso, em especial no trecho que o personagem revela que coisas simples ele faz com dificuldade, apesar de sua intelectualidade. Dimensões que são valorizadas em determinados contextos sociais.

Após os estudos do psicólogo americano Howard Gardner na década de 80, quando falamos de inteligência, perguntamos sempre: “- Qual inteligência?”. A busca pelo homem para medir e quantificar a inteligência é antiga. Alfred Binet, em 1900, criou um teste para avaliar se as crianças teriam sucesso na sua vida escolar, o que virou uma grande febre na Paris da Belle Époque. Pela primeira vez o homem atribuiu um número a inteligência e passou a unir em um teste que avaliava resultados verbais e matemáticos, o Quociente de Inteligência de uma pessoa, bem próximo das avaliações de caneta e papel que realizamos nas escolas para verificar os que pretensamente terão sucesso na vida.

Howard Gardner, na sua discussão das múltiplas inteligências, se contrapõe a essa ideia monolítica de inteligência. Ao estudar os deficientes mentais, observou esse pesquisador que o homem possui capacidades diferenciadas, tão fundamentais e complexas quanto às outras.

Para ele inteligência é a “ capacidade de resolver problemas ou de elaborar produtos que sejam valorizados em um ou mais ambientes culturais comunitários”, um valor que depende do grupo social e do momento histórico e tem seu enfoque na capacidade de resolver determinados problemas, segundo esta visão.

Fruto de processos históricos, colocamos hoje as inteligências linguísticas e lógico-matemáticas em uma posição de destaque, base desses testes de avaliação de inteligência e da maioria das avaliações a que nos submetemos. Entretanto, Gardner apresenta a inteligência em um aspecto multidimensional. Howard Gardner classificou as inteligências em sete, a saber: Linguística; Lógico-Matemática; Espacial; Corporal-Cinestésica; Musical; Interpessoal; e Intrapessoal.

Essa não é uma lista definitiva ou rígida, obviamente. O ponto principal é o enfoque da pluralidade do intelecto, mostrando que formas “puras“ destas inteligências não existem, coexistindo todas em maior ou menor grau em cada indivíduo e passíveis de desenvolvimento. Na resolução das questões da vida, mobilizamos essas inteligências, a feição do regente de uma orquestra.

Temos então uma miríade de potencialidades, dons divinos que desenvolvemos pelos processos educativos das nossas reencarnações, entre a teoria e a prática, entre o pensado e o concreto, no longo caminho da perfeição.

Nessa temática da inteligência, a Doutrina Espírita não se furta, colocando a inteligência como um atributo do espírito, como exemplificado no Trecho d’O Livro dos Espíritos que diz: “ Os Espíritos pertencem a diferentes classes e não são iguais em poder, inteligência, saber e nem em moralidade.” E ainda, apontando a este atributo um caráter divino, dado que a pergunta primeira da mesma obra afirma: ”– Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas ”.

Mas, no contexto que nos interessa no presente artigo, uma outra obra traz uma dimensão da inteligência. Falamos do texto “Missão do Homem Inteligente na Terra”, presente no Capitulo VII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, texto esse que apresenta a inteligência como uma dádiva ligada a uma missão, no contexto social.

Resgatando o filme, o personagem somente se “ajusta” quando dá um sentido produtivo a sua potencialidade intelectual. E conforme Gardner, já citado, essa chamada inteligência se manifesta de diversas formas, vinculadas a um contexto social, e podemos utilizá-la, combinada, para diversos fins.

Entretanto, o Evangelho, na mensagem do espírito Ferdinando, nos diz mais... Nos diz do caráter instrumental da inteligência no processo da evolução, e que a recebemos esta com um propósito de contribuir com o bem geral. A mensagem é inequívoca, como nos trechos: ”Se Deus, em seus desígnios, vos fez nascer num meio onde pudestes desenvolver a vossa inteligência, é que quer que a utilizeis para o bem de todos; é uma missão que vos dá, pondo-vos nas mãos o instrumento com que podeis desenvolver, por vossa vez, as inteligências retardatárias e conduzi-las a Ele. (...) A inteligência é rica de méritos para o futuro, mas sob a condição de ser bem empregada. Se todos os homens que a possuem dela se servissem de conformidade com a vontade de Deus, fácil seria, para os Espíritos, a tarefa de fazer que a Humanidade avance.

Fica a reflexão... Em uma era de valorização do conhecimento, da intelectualidade, carreada pelos avanços da tecnologia em nossa vida, lembremos que a mão que faz o açude também faz a bomba e que para além de espetáculos de exibicionismo em tertúlias intelectuais ou para amealhar o vil metal, a nossa inteligência necessita ser aplicada em um fim produtivo, em um direcionamento que contribua para o progresso de todos e, consequentemente, para o nosso bem.

Somente assim, fazendo fluir esse rio para o bem de todos, enriquecido pela troca com outros afluentes e pelas chuvas da espiritualidade, cumpriremos nossa missão em relação à inteligência. Faremos um mundo mais rápido e confortável pela inteligência. Mas, necessitamos também de um mundo mais fraterno, e nisso a inteligência tem muito a colaborar.
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