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Artigo do Jornal: Jornal Março 2015

Sobre o autor

Cláudio Sinoti

Cláudio Sinoti

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Temos vivido dias de intenso avanço tecnológico, que dentre outras coisas modificou bruscamente a forma de comunicação. As redes sociais, antes restritas a grupos específicos, popularizam-se em velocidade impressionante, alcançando até mesmo àqueles que tinham resistências, porquanto o que era “luxo” passou a ser visto como necessidade: pessoal, profissional e social.

Não somente o “Facebook” vai ganhando campo, mas os aplicativos interativos em aparelho celular – como o “WhatsApp” – tornaram-se moda, até mesmo dentro dos meios religiosos. Será que existe algum mal nisso?

O meio tecnológico que utilizamos não é um mal em si mesmo, porquanto somente torna-se intermediário daquele que lhe faz uso. Por conta disso, todos os avanços podem estar a serviço tanto do bem quanto do mal. Mas a questão traz de volta a reflexão pessoal, pois temos que atentar para a forma como temos utilizado os meios extraordinários que temos ao alcance.

Tempos atrás fui incluído – sem que tivesse solicitado – em um desses grupos de amigos. E tendo deixado o aparelho celular no silencioso, enquanto atendia a uma paciente, tomei um susto ao verificar, uma hora depois, que constava o aviso de “257 novas mensagens”, incluindo vídeos e áudios, sendo grande parte de material que para mim não trazia nenhum interesse, ou mesmo algo edificante que justificasse deter o tempo que tinha.

Consultando alguns amigos verifiquei que não estava isolado nesse movimento, e que outras pessoas também passavam por situações embaraçosas, por estarem envolvidas em grupos familiares aos quais se sentiam “obrigadas” a permanecer. Mas somos mesmo “obrigados” a participar de tudo isso?

Devemos sempre ter em conta que nossa obrigação maior é com a consciência, com o nosso progresso espiritual, e em tudo o que participamos não podemos perder isso de vista. Claro que podemos (e devemos) ter momentos de lazer e descontração que, aliás, favorecem nossos esforços, mas isso não deve se transformar em algo que escravize a consciência e bombardeie os sentidos. Se nos obrigamos a ver todos os vídeos que nos enviam, a ler todas as mensagens, a responder tudo o que nos solicitam e a participar de todos os grupos, nos tornamos escravos da demanda do outro, e perdemos contato com o que os nossos sentidos interiores nos solicitam.

Ademais, nosso aparelho psíquico, nesses tempos modernos, recebe um altíssimo volume de informações e estímulos, que quando menos nos damos conta alteram nosso estado emocional, lançam no organismo uma carga de estresse intensa e, nos casos mais graves, ocasionam comportamentos doentios, como a moderna Síndrome do Pensamento Acelerado e as compulsões de verificação de mensagens: achamos que não podemos nos desconectar um minuto sequer. Fora isso, as autoridades confirmam inúmeros acidentes de trânsito por conta de incautos que não conseguem respeitar os códigos de convivência social, e não conseguem desligar-se nem mesmo enquanto dirigem. A alienação nos afeta e afeta os outros, de forma desastrosa.

O que fazer então, perguntou uma paciente certo dia: nos alienar, nos isolar do mundo em que vivemos?

Certamente que o isolamento não é solução, porquanto na condição de seres sociais somos convidados a participar do contexto coletivo e auxiliar no seu desenvolvimento. Mas isso não retira o nosso senso crítico e livre-arbítrio, que devem estar ainda mais aguçados nesses Tempos Modernos. Utilizar-se da tecnologia, mas não escravizar-se a ela. Estipular limites em que a participação em grupos e a disponibilidade online seja tolerável e saudável. Reciclar os conteúdos e fazer crivos para selecionar aquilo que deve fazer parte das nossas vidas.

Quanto ao grupo em que fui incluído, das “257 mensagens em 1 hora”, mandei um abraço aos amigos, deixei meu contato e pedi licença para sair, pois não conseguiria acompanhá-los no ritmo que seguiam. E em outros que continuei a participar, estabeleci acordos de uma convivência saudável, para que não fôssemos propagadores de pessimismo, troca de agressões e ironia de baixo nível, pois disso a humanidade está farta. O

Homo Tecnologicus,

como é chamado por alguns especialistas, é chamado a desenvolver e utilizar-se das novas tecnologias, mas sempre de forma lúcida e consciente, fazendo com que sejam instrumentos para o desenvolvimento do espírito, esse sim, impostergável e primordial para a humanidade.

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