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Artigo do Jornal: Jornal Julho 2016
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Dandô, ô, dandei, olha o vento que brinca de dandar. Ele vem pra levar as andorinhas ou quem sabe a canção pra uma janela. Saciar o ipê que se formou, e roubar suas flores amarelas”. Com esses belos versos inicia-se a canção popular chamada Circo das Ilusões, de autoria de João Bá e Klecius Albuquerque, gravada no LP Segredos Vegetais, de Dércio Marques (1988), além de outras versões, e que compõe repertório de programas da chamada música raiz, que tiram o Brasil da gaveta, como diz o emérito compositor Rolando Boldrim.

       Nesses versos motivadores do presente texto, vemos o autor criar um verbo que reflete o insondável movimento do vento, o “dandar”. Um andar bailarino, que se adapta e chega aos seus objetivos contornando obstáculos, espalhando-se pelos cantos da cidade, mostrando que o vento sopra onde ele quer, vindo sabe-se lá de onde e indo para rumos desconhecidos.

       Aliás, Jesus já havia falado sobre isso, no seu singelo diálogo com Nicodemus acerca das vidas sucessivas. Esclarece o Mestre Nazareno: “Não te admires que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. O vento sopra para onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes de onde ele vem, nem para onde vai; o mesmo se dá com todo aquele que é nascido do espírito”. Descrição acertada do homem no planeta Terra, encarnado, errante e rumo ao crescimento.

       Não seguimos, espiritualmente falando, a esmo, sem rumo. Seguimos, como o vento, movidos por forças poderosíssimas, internas e externas. Não sabemos de onde viemos, nem para onde vamos, mas seguimos pela vida, bailando como o vento, indo para onde queremos, brincando de “dandar”, levando canções para a beira das janelas, em um jogo que por vezes foge a nossa lógica limitada, mas que segue uma lógica maior.

       Quantas vezes vemos a nossa vida e não entendemos seu sentido, o que quer de nós a divindade. Mas, lembremos do vento, “dandando” por aí, construindo nos moinhos e nas velas das embarcações, destruindo nas tempestades e furacões e pensemos que a nossa vontade é que guia esse “dandar”, entre prédios e árvores, entre valores e pessoas, e que precisamos sintonizar este “dandar” com a vontade divina, as vezes nos deixando impulsionar pela força que move os ventos, as vezes decidindo nosso caminho de forma diretiva, pelas esquinas das reencarnações.

       Assim, “dandamos”, como pequenas brisas, como fortes vendavais, sincronizados ou em choque, animados pelo invisível espírito que em nós é uma usina poderosa, a nos abastecer pelos caminhos da vida. Não existe vento que não se mova! Não existe espírito que não evolua! Mesmo os que comentem as maiores atrocidades, avançam pelo aprendizado. A cada encarnação, tudo muda, pai vira filho, inimigo vira amigo, seguindo e se ajeitando, como o vento que percorre as ruas empoeiradas e revira o lixo em pequenos redemoinhos ou quando pelo trabalho dos séculos na erosão, desbasta a mais dura rocha.

       Ainda que não entendamos bem os mecanismos da nossa vida, como dito por Jesus em sua metáfora do vento, sem saber bem nossa história reencarnatória e os planos da presente, seguimos como uma força livre, sem amarras, na busca da evolução, como deve ser o vento. A oportunidade da encarnação nos dá a vontade como mecanismo principal de reescrita de um novo amanhã, parafraseando as palavras de Chico Xavier, mas continuamos subordinados aos ditames da Lei.

       Voar como o vento, livre para trilhar novos caminhos, mas envolto em leis, correntes e forças que nos guiam para um sentido maior, construído por nós em pequenas escolhas, típicas de nossa maturidade, que se fazem na magia de “dandar” diante de cada desafio, girando e rodopiando, na qual a encarnação espera de nós apenas força e determinação, recheados de muito amor.

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