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Artigo do Jornal: Jornal Junho 2015
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"Encontra satisfação nos benefícios que espalha, nos serviços que presta, no fazer ditosos os outros, nas lágrimas que enxuga nas consolações que prodigaliza aos aflitos". (KARDEC, 2002, p. 272)

 

A assertiva em epígrafe, como tantas outras da obra kardequiana, expressa um valor religioso – a caridade – que fundamenta a proposta ética espírita.

Em consequência, aparece o cotidiano como o espaço natural e privilegiado para ação social espírita, conforme assinala a resposta da questão 643 d’O Livro dos Espíritos:

"(...) basta que se esteja em relações com outros homens para que se tenha ocasião de fazer o bem, e não há dia da existência que não ofereça, a quem não se ache cego pelo egoísmo, oportunidade de praticá-lo" (KARDEC, 2002, p.513).

Em outras palavras, a proposta ética espírita propõe a transformação do homem na sociedade.

"A vida social é a pedra de toque das boas ou más qualidades" (KARDEC, 2002, p.81).

Por outro lado, abre-se ao espírita um espaço socioinstitucional – o centro espírita – como o lugar dedicado ao exercício da caridade em sua dupla dimensão – a moral e a material –, como afirma Kardec (2002a).

É importante ressalvar que as atividades beneficentes – a dimensão material da caridade – têm sido uma constante nas atividades espíritas brasileiras, como vem apontando os estudos realizados por antropólogos.

Assim, a caridade tornou-se "um mandamento capaz de mobilizar recursos pessoais e financeiros em vista de ações filantrópicas cristalizadas em instituições específicas ou dispersas entre os próprios centros espíritas", como analisa Giumbelli (1998).

As atividades beneficentes dos Centros Espíritas, desde 1890, quando foi criado na Federação Espírita Brasileira - FEB o Departamento de Assistência aos Necessitados, fazem parte das "iniciativas invisíveis", frequentemente ligadas a redes religiosas como católica, a espírita e, em menor escala, a protestante, para o bem ou para o mal, têm sido parte orgânica da estratégia de sobrevivência de determinados setores da população e vem atuando de fato no vazio deixado pelos poderes públicos com a relação à pobreza (LANDIM, 1998, p.278).

De tal maneira que as "redes religiosas" ocuparam um lugar relevante no que pode ser denominado de "sistema de proteção primária", ancorado em relações pessoalizadas e ações eventuais de caráter emergencial que, não poucas vezes, era a única possibilidade de atendimento das demandas dos segmentos empobrecidos da população.

De certo modo, tal situação justifica que as atividades dos centros espíritas tenham dado ênfase a beneficência conforme os estudos realizados por antropólogos, mencionado anteriormente.

Ainda que, por vezes necessária, a beneficência apresenta limites em suas possibilidades. Isto porque "ela dá alívio a miséria presente; aplaca a fome, preserva o frio e proporciona abrigo, ao que não o tem" (KARDEC, 2002a, p. 264), mas "dever, porém igualmente imperioso e meritório e o de prevenir a miséria" (KARDEC, 2002a, p. 264).

Isto implica em retomar o pensamento de Kardec quando se refere a dupla dimensão da caridade: a moral e material. Ou seja, a caridade não deveria ser reduzida às atividades beneficentes do Centro Espírita. No indispensável estudo da obra kardequiana, cabe registrar o capítulo XIII do ESE no qual, em diversas oportunidades, se registra a relação indissociável entre a caridade material e moral, sem o que beneficência pode ser se converter em esmola "quase sempre humilhante".

"Daí delicadamente, juntai ao benefício que fizerdes os mais preciosos de todos os benefícios o de uma boa palavra, de uma carícia, de um sorriso amistoso" (KARDEC, 2002a, p. 231).

Em tempos atuais da Assistência Social, a beneficência precisa levar em conta a concepção multidimensional da pobreza.

"A pobreza é a expressão direta das relações sociais vigentes na sociedade e certamente não se reduz às privações materiais. Alcança o plano espiritual, moral e político dos indivíduos submetidos aos problemas de sobrevivência" (YAZBECK, 2003, p. 62-80).

Em tempos atuais do APSE, a beneficência deve ser mediada em espaços de convivência.

"Esse espaço é mediado pelas palavras, gestos e atitudes, o que nele se sucede e se relacionam consciente ou inconscientemente. Quando se distingue o outro como sujeito, abre-se um novo espaço de conversação" (SARMENTO, 2013, p. 80).

 

Referências Bibliográficas

GIUMBELLI, E. Caridade, assistência social, política e cidadania: práticas e reflexões no espiritismo. In: LANDIM, L (org). Ações em sociedade. Militância, caridade, assistência etc. Rio de Janeiro. NAU Editora, 1998

KARDEC, A. O evangelho segundo o espiritismo. 119ed - Rio de Janeiro. Federação Espírita Brasileira, 2002a.

___________O livro dos espíritos. 83ed - Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2002b.

___________O céu e o inferno. 49ed - Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira: 2002c.

LANDIM, L (org). Ações em Sociedade. Militância, caridade, assistência etc. Rio de Janeiro. NAU Editora, 1998

SARMENTO, H. B. M; PONTES, R. N.; PAROLIN, S. R. H. Conviver para Amar e Servir: Baseado em Mario da Costa Barbosa. 1. ed. Rio De Janeiro: FEB, 2013. p. 166.

YAZBECK, M.C. Classe subalterna e a assistência social. São Paulo. Cortez, 2003.

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