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Artigo do Jornal: Jornal Junho 2015
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Estupefato, deixei a sala de cinema após assistir ao filme Exodus (EUA, Reino Unido, Espanha; 2014), que narrou naquela visão cinematográfica a saga de Moisés e a libertação dos hebreus do jugo egípcio. Causou espanto a troca, na película, do cajado do patriarca pela espada e a sua conversão em um general, diante de um verdadeiro Deus dos exércitos, com escolhas claras entre seus filhos.

Pela mente, na saída da sala de cinema, trazendo Moisés para o contexto do cristianismo, passaram as cruzadas e as mortes em nome do Cristo, os palácios erguidos em honra ao filho do carpinteiro, as politicagens e negociatas com ares cristãos, e ainda, as guerras que povoam os noticiários e que trazem, nas suas justificativas, uma menção ao nazareno.

Passados mais de dois mil anos, ainda persiste a ideia de um Deus sectário, de povos eleitos em detrimento de outros e no caso de Jesus, mais especificamente, uma vinculação a realezas terrenas, distante ainda de uma mensagem não compreendida, de amor ao próximo como a si mesmo.

Vemos então um Cristo convertido, que sustenta ideias e projetos estranhos a suas palavras e gestos, fossilizadas na mágica alienante da “palavra de Deus”. Seguindo suas pegadas, percebemos que em alguns momentos históricos, por conta de forças econômicas e políticas, a mensagem evangélica foi se deturpando ao sabor dos interesses, pela força das circunstâncias aliada a fraqueza dos homens.

Jesus disse claramente que seu reino não era deste mundo, discussão que Kardec traz no Capítulo II de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Uma reflexão profunda e necessária, no sentido de que buscamos trazer o Cristo para as nossas medidas, como fizeram os gregos no antropomorfismo de seus deuses. Buscamos adaptar Jesus, converter o Cristo em um símbolo para justificar nossas ações reprováveis e não um modelo para as nossas atitudes, na indicação da pergunta 625 de O Livro dos Espíritos.

Assim, vemos passar pelo mundo e pelas falas o Cristo, com roupagens de general, de galã de cinema, de soberano com riquezas, e até Jesus como Deus, uma falácia que se desmonta ao olharmos a nossa condição na imensidão do universo. Esquecemo-nos do papel que ele mesmo escolheu nessa encarnação, um humilde filho de carpinteiro.

Para nós, espíritas, o Cristo se apresenta como modelo e fonte de ensinamento, como um Mestre. Não figura como salvador, a carregar nossas mazelas. Não figura como ente exclusivista, a defender seu povo eleito. Não se apresenta como figura acima do bem e do mal. Trata-se de um irmão maior, na nossa longa estrada da evolução.

O Cristo não é o que queremos, o que nos convém. Para além da temporalidade de nossos poderes terrenos, pairam suas palavras e exemplos, carentes de interpretações mais realistas que sustentem não os sonhos bélicos e de poder e sim a construção do homem novo, reconhecido pelo amor em seus atos.

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