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jose herculano
“Os pais e os mestres não são domesticadores de animais selvagens, mas condutores do desenvolvimento de consciências que vão operar no futuro. O profissionalismo educacional da nossa civilização transformou a maioria dos mestres em funcionários frios que não se preocupam com o educando, mas com os esquemas técnicos e os problemas disciplinares e administrativos”. (J. Herculano Pires).

José Herculano Pires (1914-1979) foi alguém com tantas atividades e contribuições que fica difícil resumi-las em um artigo. Por isso, aqui traçaremos apenas parte de sua faceta pedagógica, a que direcionava as outras facetas que possuía.

Seguindo os passos de Kardec, que “abandonara a sua cátedra para assumir a reitoria da Universidade do Espírito”, [1] Herculano, no local e momento certos, deixou de lado, por exemplo, a luta em favor da Escola Laica — leia-se: materialista —, embora isso pudesse ser diferente, para assumir a regência da Pedagogia Espírita.

Num contexto histórico complicado — época de ditadura militar —, lançou a Revista Educação Espírita, que, sem dúvida alguma, foi um marco na História da Educação. Pelo conteúdo e proposta cativantes da Revista, que procurava discutir, orientar e sistematizar a Pedagogia Espírita, acreditamos que, sendo herdeiros desse legado cultural, devemos esforçar-nos na divulgação dessas ideias que foram organizadas pioneiramente pela Edicel, por meio do idealismo do nosso Frederico Gianini.

Lutando contra os tabus da História, que têm “uma função de autodefesa”, [2] devemos também lutar contra o reinozinho da matéria, impotente para dar soluções para a crise da educação no nosso tempo e também para privar a História de mais um silenciamento no que concerne à Pedagogia Espírita.

Vamos apresentar agora duas ideias-chave que fundamentam esta Pedagogia. Primeiramente, Herculano, dialogando com os existencialismos — pois havia algumas ramificações —, colocou uma pedra no existencialismo ateu então em moda. Porque, se somos seres espirituais com experiências físicas, isso nos estimula a melhor discernir e agir e, assim, a termos mais condições para manifestar nossas possibilidades divinas. Sobre isso, disse-nos Herculano na década de 70:

“Vivemos entre duas existências e não apenas numa, como supõe a ilusão materialista. Não somos apenas o existente da concepção existencialista, somos o interexistente da concepção espírita. O conceito de alienação atribuído às religiões pelos materialistas é devolvido a eles. Não é alienado o ser que interexiste, mas aquele que apenas existe, que pensa que pode viver unicamente a sua existência passageira na Terra”. [3]

Com isso, percebemos que estamos inseridos em dois planos: o espiritual e o físico, que se interpenetram num grande projeto educativo chamado vida, que nos leva à autoconstrução e, naturalmente, promove a melhoria de todos nós.

Contudo, como conseqüência direta do ser que interexiste e do entendimento profundo a respeito dessa nova concepção de mundo que é o Espiritismo, Herculano descortinou um nevoeiro na História da Educação dizendo: “A pedra fundamental da Pedagogia Espírita está lançada e não podemos retirá-la: o educando é um reencarnado”. [4]

Isto significa dizer que o educando não deve ser visto como uma folha em branco a ser preenchida numa suposta existência única, mas sim que ele é um ser palingenésico, com uma herança de experiências seculares que devem ser analisadas com muito tato, para o bem do próprio educando e da educação.

Mais precisamente em 1974, percebemos um novo momento histórico. O professor de Avaré cumpria sua missão e bradava: “O Espiritismo é Educação”. [5]

Ele, que pouco se importava com as vaidades do mundo, ou seja, com os reinozinhos terrenos, fez o que foi necessário e possível. Agia como educador sempre, e defendia com ardor o trabalho gigantesco de Allan Kardec, lutando contra os espíritos vaidosos que queriam, sem razão, “atualizar” o trabalho do mestre lionês.

Então, só podemos agradecer por tudo que fizeram o reitor da Universidade do Espírito, o grande educador, nosso mestre Allan Kardec, e o maestro da Pedagogia Espírita, nosso estimado professor Herculano Pires, que, certamente, continuam inspirando aqueles que, através da vida, lutam pelo ideal da educação espírita. Este novo tipo de educação, que tem as suas raízes na Grécia antiga, a partir de Sócrates, e tem o seu ponto mais alto no trabalho educativo incomparável de Jesus de Nazaré, busca atender o educando tal como ele é: criatura imortal que transcende a condição humana.

Logo, a Pedagogia Espírita, orientando o homem para Deus e para o mundo ao mesmo tempo, de forma equilibrada, deflagra no ser a manifestação de uma poderosa faculdade da alma, chamada vontade. Isto o leva a atualizar as suas potencialidades por meio da experiência. É o voo do espírito descobrindo que é construtor de si mesmo e de um mundo melhor!

Artigo publicado na Revista Internacional de Espiritismo. Nº 5. Matão, junho de 2014.

 

Bibliografia

[1] PIRES, José H. Revista Educação Espírita. O impacto Esp-Educacional. ANO III, janeiro a junho de 1973, n.º 4, 116. º Aniversário do Livro dos Espíritos (1857-1973), p. 2, Edicel.

[2] FERRO, Marc. Os Tabus da História. Nas Origens do Tabu, p. 30, Ediouro

[3] PIRES, José H. Revista Educação Espírita. Conceito Espírita de Educação. ANO IV, janeiro a dezembro de 1974, n.º 6, 117.º Aniversário do Livro dos Espíritos (1857-1974), p. 58, Edicel.

[4] PIRES, José H. Revista Educação Espírita. Conceito Espírita do Educando, ANO IV, janeiro a dezembro de 1974, n.º 6, 117.º Aniversário do Livro dos Espíritos (1857-1974), p. 76, Edicel.

[5] PIRES, José H. Revista Educação Espírita. Educação e Regeneração. ANO II, julho a setembro de 1972, n.º 2, 117.º Sesquicentenário da Independência do Brasil (1822-1972), p. 2, Edicel.

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