pteneofrdeites
Compartilhar -
familia
Por André Parente

“Os adultos se esquecem facilmente de que foram crianças porque se acham integrados num mundo diferente, o mundo da gente grande. Esse mundo dos adultos é geralmente feito de ambições, temores, ódio e violências. É um mundo hostil, muitas vezes brutal. Os adultos se tornam criaturas práticas, objetivas, eficientes - o que vale dizer egoístas, secas, frias e insensíveis. Se fizessem algum esforço para vencer essa frieza moral, lembrando-se um pouco da infância, voltariam a viver e seriam capazes de amor e ternura”. (J. Herculano Pires).

A família é a instituição mais antiga da sociedade. Segundo o pedagogo Franco Cambi: “é o primeiro regulador da identidade física, psicológica e cultural do indivíduo e age por ele por meio de fortíssima ação ideológica” (CAMBI, 1999: 80). Isto significa dizer que esse instituto forma em grande parte o indivíduo antes dele inserir-se de forma mais direta na sociedade. Logo, muito do que somos hoje guarda relação com o período que convivemos em família.

Existem vários tipos de famílias: a família do mundo antigo, cujo poder do pai era muito grande; a família cristã, reconfigurada por Jesus; a família africana, alegre, viva e que não se perdeu com a migração forçada nem com a escravidão; a família indígena, com afirmação dos seus valores aos mais novos; família sagrada, importante, porém presa à fixidez doutrinária; a família burguesa, apegada exclusivamente aos próprios membros; a família operária, embora os socialistas neguem devido à exploração dos trabalhadores; e a família dos novos tempos, a que é a síntese de todos os modelos anteriores e a que transformará a humanidade .

Pode-se também, de acordo com o professor Herculano Pires, estabelecer o vínculo entre o ser humano e a família: “O homem é relação e a família é o meio de ralação em que ele absorve a seiva humana que o faz homem”. (PIRES, 2000:32). Logo, o ser precisa do meio chamado família para se formar como ser humano. Mas se essa instituição passa por uma profunda crise, como lançar ao convívio social pessoas que não se formaram humanamente através da família?

O Espiritismo é uma proposta de educação e não de salvação. A educação espírita, que provém da Doutrina Espírita e talvez seja o seu mais puro reflexo, considera a infância o tipo de repouso e de preparação dos espíritos para os desafios da vida. É o crisol onde as famílias se unem para os reajustamentos entre os seus membros. São as antipatias e simpatias que encontramos ao reencarnarmos. As simpatias devem ser cultivadas e as antipatias transformadas.

O ser sob influxo de Deus faz-se criança, revestido da roupagem da inocência, para aperfeiçoar-se rumo à perfeição relativa que lhe está destinada. Quando alguém nasce num grupamento familiar é como o sol que brilha e espanta a noite. É o sopro da vida ensinando-nos a viver. A chegada de alguém, frequentemente, produz ânimo, alegria, tira a dor, suaviza olhares. Além disso, o nascimento de uma criança divide a história das famílias em antes e depois. Portanto, o cuidado com a educação dos filhos deve ser assunto de grande importância para os pais. Pode-se errar, quando o desconhecimento existe e quando o desejo de reparação é acionado, mas a indiferença constitui em erro grave e pedirá dos responsáveis longo tempo de serviço em favor do bem comum...

A mãe pode ser considerada a primeira educadora. O amor de mãe pode ser reputado, desde que educado, como o maior amor que um ser possa ter por outros seres. Não é por outra razão que os grandes educadores da humanidade destacaram a forte influência da mãe na formação dos filhos. Devido a esse fato, parece ser medida de bom senso que a sociedade ajude na preparação das futuras mães.

Acreditamos ser de grande valor fazer uma reflexão sobre o tema família dentro da perspectiva espírita, porém, antes, iremos apresentar uma síntese sobre o que alguns povos da antiguidade pensavam sobre este assunto.

Primeiro vamos referir-nos à Grécia Antiga. No mundo grego não existia a valorização da infância, da mulher e a família era assentada no poder do “pater família”, do pai – que imprimia medo e terror.

Ainda na cultura grega encontramos na mitologia vários relatos que mostram deuses, semideuses e mortais que possuíam relação de parentesco, mas não sabiam muito bem como lidar com as antipatias e simpatias.

Podemos citar também os registros sobre o tema família na cultura hebraica. No livro de Gênesis, encontramos a conhecida história de Esaú e Jacó – irmãos gêmeos que brigavam desde o ventre. Eles brigaram durante boa parte da vida, mas depois se reconciliaram. Mas como entender essa animosidade entre os dois irmãos? Quando começou? Se alma foi criada junto com o corpo, como reconhecer a sabedoria de Deus?

Com o cristianismo primitivo encontramos na figura de Jesus o pedagogo maior que reconfigura o modelo de família. Ele valoriza a infância, a mulher e apresenta um novo modelo de pai: o que perdoa e não pune; o que ensina pelo amor e concede ao filho o tempo como agente da sua autoeducação.

O cristianismo foi distorcido. Em nome de Jesus criaram guerras, impérios e mais uma vez o instituto família foi desprezado. Cabia ao Espiritismo – terceira grande síntese da lei de Deus – resgatar o verdadeiro sentido dos ensinamentos de Jesus. Parecia destinado ao Espiritismo o ineditismo de explicar melhor a conversão “do coração dos filhos aos pais e dos pais aos filhos”. E sobre o tema família, Kardec- maior apostolo de Jesus na contemporaneidade- penetrou na essência da questão. Como um artesão do conhecimento leva-nos a uma reflexão profunda sobre como as relações sociais são estabelecidas com os membros de um grupo familiar. Um dos princípios da Doutrina Espírita é lei da reencarnação. A partir dessa visão, compreendemos que “a sucessão de existências corporais estabelece entre os espíritos ligações que remontam as vossas existências anteriores” [1] .

Diante disso, este trabalho considera a visão de mundo espírita, embora não seja única, importante para que possamos entender que Deus na sua sabedoria criou a instituição família para nos permitir através do véu do esquecimento e da pluralidade das existências aparar as arestas do amor e do ódio que construímos na esteira do tempo. O Espiritismo ensina-nos que podemos transformar as antipatias que ainda temos em simpatias que alargarão o nosso olhar sobre o viver e o existir. Segundo Herculano:

“Há na família, como no homem, uma finalidade superior a atingir. O elemento que determina a organização familial não é o simples interesse material. A linhagem não é determinada pela tradição ou pelos títulos nobiliárquicos, mas pelo desenvolvimento das linhas sucessórias”. (PIRES, 2000: 39).

Sabe-se que o objetivo superior da família é permitir, ao contrário do que dizem, não o rompimento dos laços de família, mas a ampliação, através da reencarnação, das relações entre os seres humanos. É um recurso da pedagogia divina que busca ensinar aos homens a amarem-se como irmãos. O Espiritismo ensina que somos todos membros de uma mesma família: a humana e, portanto, devemos fazer do lar a escola maior de aplicação dos ensinamentos éticos que levaremos para a sociedade.

É importante reconhecer que a vida em família apresenta dificuldades que podem levar os membros ao embotamento de suas potencialidades. O espírito Agostinho de Hipona numa importante comunicação diz o seguinte:

“De todas as provas, as mais penosas são as que afetam o coração. Aquele que suporta com coragem a miséria das provações materiais, sucumbe ao peso das amarguras domésticas, esmagado pela ingratidão dos seus. Oh, é essa uma pungente angústia! Mas o que pode, nessas circunstâncias, reerguer a coragem moral serão senão o conhecimento das causas do mal, com a certeza de que, se há longas dilacerações, não há desesperos eternos”. (KARDEC, 2010: 195).

Conclui-se que a vida de relação, ou seja, o grande túnel que estamos mergulhados, acolhe-nos pela família temporal que temos e devemos transformar na grande família divina. Deus foi muito inteligente, com o perdão da expressão, de criar a instituição família, que ramifica-se em vários tipos, mas é antes de tudo uma representação de sua sabedoria. É o elã evolutivo convidando-nos ao retemperamento de que somos filhos de Deus e viajantes do universo fazendo do amor aos nossos familiares o roteiro seguro do nosso reerguimento perante a lei maior. É o sopro de Deus inaugurando no mundo a família dos novos tempos...

Artigo publicado na Revista Internacional de Espiritismo. Nº6 - Matão, julho de 2014.

BIBLIOGRAFIA:

A Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 1985.

ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro, LTC, 1981.

BUSCAGLIA, Leo. Amor. Rio de Janeiro, Record, 1972.

CAMBI, Franco. História da Pedagogia. São Paulo, UNESP, 1999.

DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Brasília, FEB, 2008.

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família e da Propriedade Privada, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2005.

GADOTTI, Moacir. Dialética do Amor Paterno. São Paulo, Cortez, 1989.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. São Paulo, Lake, 2004.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. São Paulo, Lake, 2010.

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. São Paulo, Lake, 2004.

KARDEC, Allan. A Gênese. São Paulo, Lake, 2004.

KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1864.Tradução. Júlio Abreu Filho, São Paulo, Edicel, 2002.

KARDEC, Allan. Viagem Espírita em 1862. Matão, O Clarim, 2000.

LUZURIAGA, Lorenza. História da Educação e da Pedagogia. São Paulo, Nacional, 1984.

MIRANDA, Hermínio C. Nossos Filhos são Espíritos. Niterói, Editora Arte e Cultura, 1991.

PEREIRA, Yvone do Amaral. A Família Espírita. Brasília, FEB, 2013.

PIRES, J. Herculano. Curso Dinâmico de Espiritismo. São Paulo, Paidéia, 2000.

PIRES, J. Herculano. Pedagogia Espírita. São Paulo, Paidéia, 2004.

PIRES, J.Herculano. Educação Espírita, Revista de Educação e Pedagogia. São Paulo, Edicel, 1970 a 1974.

SAMARA, E. Mesquita. A Família Brasileira. São Paulo, Brasiliense, 1986.

TARANDACH, Ester Rosenberg. Diagnóstico Psicossocial da Família. Petrópolis, Vozes, 1978.



[1] Conforme a questão 204 de O Livro dos Espíritos.

Compartilhar
Topo Cron Job Iniciado