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Artigo do Jornal: Jornal Maio 2016

Sobre o autor

Iris Sinoti

Iris Sinoti

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       Uma das denominações de sofrimento para os gregos é “pathos”, de onde provém o termo “patologia”, utilizado para designar o estudo das doenças e seus efeitos no organismo. O conhecimento do corpo humano, dos seus desvios em relação à condição de normalidade, avançou consideravelmente nos últimos tempos. Aparelhos modernos têm sido lançados, realizando exames de alta precisão; câmeras e robôs auxiliam em cirurgias complexas proporcionando precisão milimétrica; microscópios cada vez mais potentes fazem investigação avançada em vírus e células doentes, auxiliando os profissionais e enfermos com diagnósticos e terapêuticas modernas, dentre outros exemplos que podem ser citados e que constatam os avanços que realizamos.

       Mas será que temos motivos para nos orgulhar desses avanços?

É certo que não podemos desconsiderar o progresso, mas não parece ainda ser o tempo de celebrar. Isso se deve não somente por conta do surgimento de novas enfermidades, que continuam preocupando a humanidade, mas também por todo um quadro de miséria, violência, abandono e desumanidade que ainda faz parte do nosso planeta. É que por trás das patologias que se manifestam no corpo, atingindo nossas células e órgãos e diminuindo nossos anos de vida, existem outras mais graves: as patologias da alma. E enquanto essas não forem debeladas em sua raiz, as patologias do corpo continuarão a nos atingir, pois em outras palavras: temos doenças porque ainda somos espíritos doentes, e mesmo que encontremos a cura para algumas enfermidades, a distonia energética do nosso ser atrairá novas formas de desarmonia.

       Umas das maneiras que as patologias encontram guarida em nosso ser é quando desconsideramos nossa condição espiritual, e construímos uma existência pautada em uma visão limitada da vida, visando atender os desejos egoicos. Com lentes pequenas para ver e viver a vida, nossos objetivos miram o prazer imediato, as conquistas momentâneas e as ilusões de todo porte.

       Na falta de um indicativo para o valor próprio, na condição de dissociados da própria alma, elegemos o consumo na condição de “deus”. Compramos compulsivamente e destruímos os recursos naturais de forma neurótica. Como bem ilustra o psicólogo Waldemar Magaldi, adquirimos o “que não precisamos, com dinheiro que ainda não temos”, e nos fingimos de satisfeitos, quando na verdade permanecemos com um grande vazio interior, que nada de fora poderá preencher. Iludidos que valemos pelo que possuímos, esquecemos as recomendações de um sábio Mestre: “de que vale ganhar o mundo inteiro e perder a alma”.1

       Nossa patologia da alma prossegue quando negligenciamos a capacidade de amar. Não é à toa que Joanna de Ângelis, em sua psicologia, chama a atenção de que “Na causalidade atual dos distúrbios psicológicos, como naqueles anteriores, sempre se encontrará o amor-ausente como responsável”2. Não nos amando e não amando como deveríamos, não nos vinculamos à vida, e desperdiçamos o seu precioso dom em objetivos pequenos e vidas superficiais. E a alma permanece uma ilustre desconhecida. Talvez seja por conta disso que o sábio Sócrates já alertava: “É da alma que saem todos os males e todos os bens do corpo e do homem em geral, influindo ela sobre o corpo como a cabeça sobre os olhos. É aquela, por conseguinte, que antes de tudo precisamos tratar com muito carinho, se quisermos que a cabeça e todo o corpo fiquem em bom estado”3.

Mas, se pathos indica “sofrimento”, ele também é sinônimo de “paixão” para os helenos. Talvez isso seja símbolo do que nos falta: para curar o pathos do corpo, temos que nos conectar apaixonar-se, no bom sentido pela nossa própria alma. Aí, então, poderemos celebrar a nova condição da humanidade, e mesmo que tenhamos alguma doença, como condição natural da humanidade, não seremos mais almas enfermas.


1 Evangelho de Marcos 8:36

2 Amor, imbatível amor. Editora leal.

3 Platão. Cármides.

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