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Artigo do Jornal: Jornal Agosto 2016
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Perguntado sobre quantas vezes deveria perdoar cada ofensa, na busca da confirmação do adágio que preconizava perdoar apenas sete vezes, Jesus responde que não sete, mas setenta vezes sete. Nos nossos burocratismos, queremos então buscar uma regra matemática do perdão...

A multiplicação é uma operação fundamental que faz um número ser somado a ele muitas vezes, em uma expansão geométrica, de maior amplitude. Multiplicar é aumentar em muito e Jesus ao responder o setenta vezes sete quis dizer algo como por “quantas vezes for necessário”.

E no caso específico do perdão, podemos interpretar que ele respondeu o seguinte: façamos todo esforço possível e imaginável para prevalecer o amor, ali materializado pelo perdão. Ou seja, que sejam setenta vezes sete, ou seja, muitas e muitas vezes, não querendo nessa análise que Jesus naquela época utilizasse conceitos abstratos e concretos como o infinito.

A mensagem do setenta vezes sete é bem maior do que o conceito do perdão. A mensagem é que pelo amor, pelo bem de nosso próximo, pelo crescimento, devemos envidar todos os esforços possíveis, sete, setenta ou quatrocentos e noventa vezes, insistindo na ideia do bem, com fé no ser humano, como obra de Deus na busca da perfeição. Essa lógica se aplica a vários setores da atividade espírita.

Alguns trabalhos assistenciais lidam com a chamada população de rua, pessoas que habitam as vias urbanas e padecem de carências não apenas materiais, mas de problemas de socialização e por vezes, desilusões com a vida. Nestes, a ideia do setenta vezes sete se faz mais incisiva na nossa insistência com aquele irmão que já entregou os pontos. Diante das dificuldades, mais amor, e com paciência. Paciência, pois os avanços espirituais se fazem de forma tímida.

Da mesma forma, trabalhos envolvendo pessoas com deficiência demandam do trabalhador espírita esse sentimento de que temos que insistir na lição, fazer e refazer até onde for necessário, na ideia do setenta vezes sete. Avanços lentos, dificuldades de compreensão, um cenário que exige dos abnegados trabalhadores essa percepção de que a luta é morosa.

E por fim, para aqueles irmãos que labutam em comunidades carentes, com seus problemas naturais, a lição do “setenta” é fundamental para enxergar naquela complexa rede de problemas os avanços e possibilidades. Alegria com pequenos progressos, enxergar o facho de luz tênue na escuridão, são características que nos ensinam a lógica do “setenta”, de insistir com fé na melhora que virá, pequena, mas relevante.

Obviamente, que como tudo, essa lógica tem um lado negativo. A chamada síndrome de burnout (“queimar por completo” na tradução literal), ou síndrome do esgotamento profissional, se refere à dedicação exagerada a atividades laborais de um modo geral e se caracteriza pelo perfeccionismo e pela necessidade de lograr êxito, típicas de pessoas apaixonadas.

Se faltar o equilíbrio e a paciência diante desses desafios, o esgotamento e a depressão rondam o trabalhador, que precisa ajustar suas expectativas à realidade, o que pode ser promovido pelas atividades de avaliação em grupo, reflexão ou uma mera conversa entre amigos.

Apaixonados, confiantes, com a cabeça nas nuvens, mas com o pé no chão. Investindo no bem não setenta, mas setenta vezes sete, mas enxergando com os olhos de ver os pequenos avanços, resistindo a tentação do orgulho de, no que tange a questões sociais e humanas, tentar resolver tudo de uma vez só.

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