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Artigo do Jornal: Jornal Novembro 2016

Sobre o autor

Cláudio Conti

Cláudio Conti

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A necessidade de um ciclo de experiências "dentro" e "fora" de corpos carnais, como se conhece na crosta terrestre, é aceito por algumas vertentes de pensamento. Apenas para citar dois exemplos, no Espiritismo é denominado de reencarnação, enquanto que no Budismo é tido como ciclos de nascimento e morte. Apesar de não representarem exatamente a mesma ideia ou conceito, pode-se estabelecer uma certa equivalência entre ambos.

Contudo, encarnação deve ser tratada de forma distinta de reencarnação, pois se uma dada vertente de pensamento considera a reencarnação, como citado anteriormente, outras, tais como algumas religiões Cristãs, mantém a crença de uma única existência corporal, cujo início é concomitante com a criação da alma. Nesta abordagem, estado de ventura ou sofrimento, isto é, o destino do espírito no pós-morte, para todo o sempre, é selado nesta existência.

O objetivo da encarnação é abordado n' O Livro dos Espíritos em apenas três questões1. Todavia, este tema é complexo, requer atenção e necessita ser correlacionado com outros pontos constantes na Codificação Espírita para que se possa elaborar um entendimento mais completo e formar um corpo de ideia a este respeito.

Importa ressaltar que é necessário a abstração do modo como a encarnação é conhecida na crosta terrestre, com as características necessárias para um mundo de expiações e provas, para considerar a encarnação de forma geral, incluindo outras condições de mundos e de corpos físicos que não necessariamente seja carnal.

Na questão 1321 , na qual Kardec pergunta sobre o objetivo da encarnação aos espíritos, a resposta obtida é longa, mas logo no início dizem que é para "fazê-los chegar à perfeição” e que, para isso, é necessário "sofrer todas as vicissitudes da existência corporal” e que "nisso é que está a expiação”. Pode-se, portanto, supor que todos os espíritos estariam sujeitos à expiação.

Contudo, como imaginar um processo evolutivo elaborado por Deus, infinita bondade e justiça, em que processos expiatórios seriam uma fatalidade para os espíritos? Percebe-se, assim, que esta questão necessita de aprofundamento.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, com relação aos mundos de regeneração, encontra-se o seguinte: "Cada turbilhão planetário, a deslocar-se no espaço em torno de um centro comum, arrasta consigo seus mundos primitivos, de exílio, de provas, de regeneração e de felicidade. Já se vos há falado de mundos onde a alma recém-nascida é colocada, quando ainda ignorante do bem e do mal… Já também se vos revelou de que amplas faculdades é dotada a alma para praticar o bem. Mas, ah, há as que sucumbem, e Deus, que não as quer aniquiladas, lhes permite irem para esses mundos onde, de encarnação em encarnação, elas se depuram, regeneram e voltam dignas da glória que lhes fora destinada >2 ”.

Pelo seguimento de texto apresentado, tem-se que o espírito, no seu início, é ignorante do bem e do mal, portanto, não há necessidade de se regenerar. Uma discussão a este respeito foi apresentada no artigo >Bem, Mal e Ignorância 3.

Verifica-se, ainda, que o espírito é dotado de amplas faculdades de praticar o bem e, sendo uma Criação direta de Deus, deve-se considerar que, na sua origem, não possua nenhuma faculdade para praticar o mal. Desta forma, a lógica diz que praticar o mal não pode ser uma fatalidade para o espírito. Sob a ótica Espírita da bondade infinita do Criador, não existiria a possibilidade de se considerar um processo evolutivo em que o espírito precisaria desenvolver faculdades para praticar o mal e, depois, necessitar de processos de depuração para não mais o praticar. Tal processo seria altamente contraproducente.

Encontra-se, ainda no mesmo seguimento de texto extraído do livro >O Evangelho Segundo o Espiritismo , a seguinte expressão: "Mas, ah, há as que sucumbem 2”. Pode-se concluir que, se há os espíritos que sucumbem, haverá também os que não sucumbem. Assim, a lógica diz que a depuração através da expiação é para os que sucumbem.

Desta forma, verifica-se a necessidade de se considerar possibilidades encarnatórias diversas daquela conhecida. A sequência das perguntas em O Livro dos Espíritos sobre o tema em análise demonstra que Kardec estava ciente disto, tanto que as duas outras perguntas estão relacionadas com aqueles que não sucumbem1:

133. Têm necessidade de encarnação os Espíritos que, desde o princípio, seguiram o caminho do bem?

“Todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal. Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito”.

133 a) - Mas, então, de que serve aos Espíritos terem seguido o caminho do bem, se isso não os isenta dos sofrimentos da vida corporal?

“Chegam mais depressa ao fim. Demais, as aflições da vida são muitas vezes a consequência da imperfeição do Espírito. Quanto menos imperfeições, tanto menos tormentos. Aquele que não é invejoso, nem ciumento, nem avaro, nem ambicioso, não sofrerá as torturas que se originam desses defeitos”.

Verifica-se que as atribulações e expiações não são inerentes à encarnação propriamente dita, mas ao comportamento do espírito e sua relação com os outros. Somente através do amor, sem expressões de ódio, egoísmo e orgulho, é que a vida se torna sem aflições e, consequentemente, com menos enfermidades e com menor gravidade das que conhecemos na Terra.

A isenção completa de imperfeições, conduz à isenção também completa de aflições. Entre a isenção completa e o grau máximo de imperfeições que um espírito pode chegar existe uma gradação infinita de níveis aflitivos para o espírito encontrar material para sua depuração. A condição de pouca ou nenhuma imperfeição pode ser alcançada pelo espírito em qualquer nível, tal como apresentado no artigo intitulado Níveis Evolutivos4.

Notas bibliográficas:

1. Allan Kardec; O Livro dos Espíritos >; Questões 132, 133 e 133a.

2. ___; >O Evangelho Segundo o Espiritismo; Cap. III, item 16.

3. Claudio C. Conti; Bem, Mal e Ignorância, Jornal Correio Espírita, setembro de 2016.

4. ___; Níveis Evolutivos, Jornal Correio Espírita, agosto de 2016.

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