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Artigo do Jornal: Jornal Janeiro 2017

Sobre o autor

Cláudio Sinoti

Cláudio Sinoti

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Durante um largo período na história da humanidade, e de certa forma até os dias atuais, três fatores destacaram-se como fonte de grandes preocupações, para a coletividade e para os indivíduos: a fome, as guerras e as epidemias. Mas nada obstante persistirem na condição de graves fatores para o contexto coletivo, de acordo com recente estudo publicado pelo historiador israelense Yuval Noah Harari1, chegamos a um ponto em que novos desafios se lançam aos seres humanos, porquanto, de uma forma geral, o panorama da Terra vem se modificando.

Muito embora a fome ainda persista na condição de grave problema, afetando milhões de vidas, de acordo com os dados estatísticos das organizações mundiais felizmente o problema tem diminuído, sendo que na atualidade morrem mais pessoas por conta do excesso de alimentação do que por sua carência. E mesmo os locais que enfrentam o problema da fome, os organismos internacionais têm agido com muito mais celeridade, contando com o apoio das tecnologias da comunicação e a solidariedade humana.

As guerras, embora eclodam de forma violenta e ainda causem grande preocupação e investimento por parte das nações, tornam-se cada vez menos prováveis e frequentes do que décadas e séculos atrás, quando por simples capricho governantes tiranos decidiam invadir as fronteiras vizinhas, sem que houvesse maiores consequências. Aos poucos, as guerras vão se tornando tão absurdas que nos espantam com maior intensidade quando ainda ocorrem. 

Por sua vez, as epidemias, que muito embora desafiem os estudiosos das áreas da saúde constantemente, com o surgimento de novos vírus ou mutações, com o avanço da medicina e da tecnologia têm sido detectadas e diagnosticadas de forma cada vez mais eficiente. Recentemente, estudos sérios foram publicados dando sinais de que a cura da AIDS já não é uma realidade distante.

Atento a esses fatores, e com vistas ao nosso futuro enquanto seres humanos, Harari apresenta um questionamento válido:

“Como bombeiros em um mundo sem incêndios, o gênero humano no início do século XXI deve fazer a si mesmo uma pergunta sem precedente: o que vamos fazer conosco?”

Esses recentes estudos convergem para as percepções da espiritualidade no tocante ao surgimento de uma nova era para a humanidade. Certamente que esse processo de transformação não se dará de forma mágica, e que muitas dores e desafios ainda devem ser enfrentados no percurso da construção de uma nova consciência coletiva. Por isso mesmo, é fundamental que cada indivíduo faça sua parte, tornando-se imprescindível e inadiável aprofundarmo-nos no autodescobrimento.

Conforme os ensinamentos de Joanna de Ângelis2, ainda prevalece uma grande defasagem entre o “homo tecnologicus e o ser espiritual”. Desconhecendo os nossos potenciais, ainda não exercemos em plenitude a capacidade humana que nos é inerente. Temos que repensar o humano que estamos, para viver o espiritual que somos. Temos que nos conhecer mais, para que a força do que desconhecemos não se torne fator de destruição. Somos chamados a transformar as velhas crises, que agora se apresentam de formas variadas.

Se a fome diminui, hoje ela se transforma na fome de afetos, de sentimentos nobres, de valores humanos que preencham o mundo que nos abriga.

Se as epidemias vão perdendo força, pelo menos no seu poder destrutivo em termos coletivos, há uma outra epidemia: a da “Depressão”, que torna a vida obscura e sem sentido. As de antes matavam os corpos; a atual tira a esperança da alma, torna a vida sem brilho e sem amor. A busca do sentido existencial torna-se medicamento de extrema urgência, mais até do que o dos antidepressivos (sem negar a importância desses).

Se as guerras se tornam menos intensas e frequentes do que séculos atrás, de forma relativa, infelizmente o ser humano ainda se digladia consigo mesmo, e por consequência com seu próximo. As leis e organismos são mais efetivos na proteção da vida, mas a arma mortal da inveja, do ciúme, da falta de ética e de outros tantos comportamentos desvirtuados continuam a nos atingir.

Nesse mundo em transformação, somos chamados a dar a nossa cota de afetividade, matando a fome dos carentes de amor. A evolução nos conclama a exterminar o vírus da indiferença para com o próximo, ampliando a solidariedade que deve viger na nova era. E, finalmente, quando erradicarmos as guerras do nosso mundo íntimo, novos dias se apresentarão na face da Terra, e não precisaremos mais apagar os incêndios da inconsciência, porquanto cientes do nosso potencial, nos apropriaremos da nossa realidade espiritual, dando os altos voos a que estamos destinados.


1 Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã. Companhia das Letras, 2016

2 O Despertar do Espírito. Leal Editora

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