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André Parente

Antes de analisarmos o poder transformador e conciliador da cultura espírita, começaremos a nos aproximar de um conceito de cultura baseado no conhecimento humano até agora adquirido. Em primeiro lugar, cultura não é somente a aquisição de títulos universitários ou patrimônios históricos visitados. É muito mais do que isso. O conceito de cultura analisado pela Antropologia Cultural é um conjunto de comportamentos, crenças, valores, atitudes, padrões e normas de conduta adquiridos e compartilhados por um grupo social. Com isso, cabe fazer um breve apanhado histórico sobre como conviviam os diferentes povos do mundo, desde a Antigüidade, para entendermos como a relação (eu-outro) foi sempre difícil. Além disso, poderemos entender como o conceito de cultura foi encarado antes do surgimento da Antropologia Cultural.

Muitos povos da Antiguidade consideravam as suas percepções e visões do mundo superior às demais. Os gregos achavam que todos os outros povos que não habitavam as pólis - sociedades políticas gregas - eram bárbaros. Em seguida, assistimos às conquistas romanas, desde a República, perpassando todo o Império, representando mecanismos de conquistas cuja manutenção - escravidão por dívidas e conquista militar - era o mito de uma cidade dita eterna que fazia de seus habitantes seres que se achavam civilizados e especiais. Já com o desgaste gradativo do Império Romano, há a transferência de poder de uma instituição para outra.

Seguindo esse raciocínio histórico, observamos, respeitosamente, a ascensão da visão católica do Cristianismo. Ela triunfou com a chamada conversão do imperador Constantino, que patrocinou o famoso concílio de Nicéia (325), responsável pelo desaparecimento de várias visões do Cristianismo, entre elas o Arianismo - uma visão muito democrática que acabou silenciada. Com o triunfo da Igreja e a predominância do bispo de Roma sobre os demais, uma ortodoxia institucional é estabelecida. Essa instituição herda um espaço deixado pelo Império Romano - já combalido - e atua como cimento ideológico de uma nova época. Há três culturas em processo de interação: Romanismo, cultura romana; Germanismo, cultura das diferentes tribos germânicas; e Cristianismo à moda católica.

Dessas permutas, chegaríamos ao período medieval. Aqui já estamos na chamada Idade Média, termo preconceituoso adotado posteriormente a essa época por intelectuais europeus que queriam estabelecer um divisor de águas entre o declínio do mundo clássico greco-romano e o resgate deste mundo antigo com o Renascimento. Embora haja fundação de universidades, produção intelectual de árabes, judeus e cristãos, esse período ficou mais conhecido como a época de predomínio político econômico e psicológico da Igreja Católica.

Nos séculos vindouros, surgem acontecimentos que iriam proporcionar algumas mudanças na sociedade europeia. Com a expansão comercial-marítima, os europeus tomaram conhecimento de que outros povos já existiam, com as suas respectivas visões de mundo. Costumava-se dizer durante a Idade Moderna – pós-Idade Média – que havia povos com cultura e outros sem cultura, uns com história e outros sem história. Não obstante, no XVII e XVIII, mesmo com o surgimento das academias e dos cientistas, o eurocentrismo continuava a imperar na Europa. Até mesmo com o surgimento da Antropologia Geral, na segunda metade do século XIX, as especulações sobre a vida cultural do homem se subordinaram ao plano biológico ou climático. Portanto, uma forma limitada e racista de ver o homem no cenário terreno.

Contudo, com o desgaste da Antropologia Geral, surgiu a Antropologia Social (Cultural), que, acompanhada pela Arqueologia, buscou relacionar as diferentes culturas entre si, sem hierarquizá-las. Porém, essas perspectivas, de fato, mais vanguardistas ainda estavam a reboque das visões materialistas e niilistas tão fortalecidas na transição do século XIX para o XX, razão essa para a incapacidade de promover uma modificação maior no olhar das sociedades industrializantes sobre as outras que viviam de forma diferente.

Ainda na segunda metade do século XIX, há o surgimento da Doutrina Espírita, codificada pelo pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail. Emergida de uma aparente brincadeira dos salões europeus, essa doutrina, desde o seu início, apresenta-se como um projeto pedagógico em busca de um objetivo mais útil e mais alto para a criatura humana. Nessa doutrina, de forma dinâmica, nós temos a um só tempo Ciência, Filosofia e Religião dialogando e, por isso, apreendendo uma parte maior do real - até então não descortinada.

O Espiritismo, por isso, é uma visão de mundo sistêmica, porém sem espírito de sistema, ou seja, toca em todos os ramos do saber, mas sem, por isso, tornar a discussão impossível de ser compreendida. Por conta disso, busca desvendar o invisível de forma segura e racional e democratiza o acesso ao espiritual, até então privilégio de castas sacerdotais. Fazendo isso, pode dotar o ser humano de uma amplitude de visão capaz de ajudá-lo na convivência harmônica e útil com diferentes sujeitos históricos, atuando em diferentes palcos que a vida de relação fornece. O Espiritismo é, sem dúvida, o antídoto eficaz aos excessos do século XIX e as incertezas angustiantes do século XX.

Diante disso, a Doutrina Espírita - síntese do conhecimento humano, segundo León Denis e Sir Oliver Lodge - pode e deve iluminar as Ciências Humanas e não o contrário, como um poderoso farol, possibilitando o acesso ao espiritual sem jamais deixar de fazer uso da faculdade da razão como instrumento de análise. Entretanto, para que a variante espiritual faça parte do conhecimento humano, posto que o espírito é um dos elementos constitutivos do universo, é necessário refletir sobre um grande obstáculo ao progresso, que é a “alergia ao futuro”. Sobre isso, diz-nos o saudoso Herculano Pires na obra Educação para a Morte: "(...) A cultura é um organismo conceptual vivo, nascido das experiências humanas e dotado do mesmo instinto de conservação dos organismos. Os pelos do gato escaldado eriçam a menor aproximação de questões metafísicas (...)".

Dessa citação, chegamos à conclusão de que, assim como o instinto de conservação utilizado pelo homem de forma exagerada desemboca no egoísmo e no orgulho, este pode levá-lo a uma falsa humildade intelectual, oferecendo ao mundo uma visão distorcida da realidade. É o medo à liberdade projetado no plano individual e coletivo, que aprisiona o ser que é divino, portanto imortal, mas se aprisiona nas cavernas internas de si próprio.

Urge vencer a dita “alergia ao futuro”, pois só assim o sobrenatural irá tornar-se natural e tudo será melhor compreendido. O ser humano, mais consciente de sua realidade espiritual, irá tornar-se mais apto a assimilar o que de fato seria a cultura. O filósofo Sócrates dizia com o fogo sagrado que possuía: “Conhece-te a ti mesmo”. O interessante é que esta sentença continua atual e não há como projetarmos na sociedade visões construtivas sem conhecermos a nós mesmos.

A sociedade no plano físico é o local onde o indivíduo interage, desenvolve, isto é, o grande palco no qual o grupo social se forma. Já a cultura são as potencialidades manifestadas do Espírito encarnado em diferentes grupos, buscando, por meio da experiência, transcender a condição humana. Portanto, a vida é o espaço e a cultura é a ação transformadora do indivíduo que reencarna em diferentes grupamentos sociais na busca de autoconstruir-se.

E o que é a história do espírito, senão a ação dos sujeitos históricos que viveram antes – muitas vezes de nós mesmos – que nos trouxeram até o ponto de onde prosseguimos incansavelmente rumo à condição de Espírito puro. E o caro professor José Herculano Pires já dizia no livro O Espírito e o Tempo: "(...) A consciência humana amadurece na temporalidade. A esperança espírita não repousa na fragilidade humana, mas nas potencialidades do Espírito, que se atualizam no fogo das experiências existenciais. Curta é a vida, longo é o tempo e a verdade intemporal aguarda a todos no impassível limiar do eterno (...)".

Portanto, o poder transformador da cultura é o poder do Espírito que se autodescobre como criatura divina que é.

BIBLIOGRAFIA

BARROS, José D’ Assunção. O Campo Histórico. Rio de Janeiro, Cela, 2002.

BELLO, Angela Ales. Culturas e Religiões. Bauru, Edusc, 1998.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. São Paulo, Lake, 2000.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura - um conceito antropológico. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2002.

PIRES, J.Herculano. Educação para a Morte. São Bernardo do Campo, Correio Fraterno, 1996.

PIRES, J.Herculano. O Espírito e o Tempo. São Paulo, Paidéia, 2004.

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