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Artigo do Jornal: Jornal Março 2017
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Chama-se fanatismo a adesão incondicional a uma ideia religiosa, política ou artística. Confiança cega em alguém ou em alguma coisa, paixão por algo. Muitas vezes, o fanático se acredita inspirado por uma divindade, por um espírito ou mesmo pelo próprio Deus. O fanatismo é uma espécie de doença que elimina o bom senso do fanático e que pode levá-lo a matar ou a morrer por aquilo que ele acredita. Vamos conhecer uma história de fanatismo.

Havia em uma cidade do interior do Brasil uma igreja em que havia uma estátua de ouro de Nossa Senhora. Essa estátua possuía um zelador, homem simples que amava a santinha acima de tudo nessa vida. Um dia, naquela igreja, apareceu um forasteiro que pediu ao padre permissão para pernoitar no interior do templo e o padre permitiu.

De manhã, quando o zelador acordou, descobriu que o homem havia desaparecido levando com ele a imagem da santa. Como ainda era cedo, o homem deduziu que ele não estava muito longe. Arreou seu cavalo e partiu atrás do ladrão. Pouco tempo depois encontrou o homem descansando na beira de um rio, tendo ao seu lado o saco com a imagem da santa. Não vacilou, saltou sobre ele e o esfaqueou muitas vezes. Depois arrancou-lhe o coração e levou-o consigo juntamente com a imagem. No templo, colocou a imagem em seu lugar e, num pires, pôs o coração do homem que a roubara. Estava feliz, pois havia desagravado a mãe de Deus.

Um dos casos modernos de fanatismo que causou no mundo uma profunda impressão tomou o nome de Heavens Gates ou Os portões do Céu. Vamos conhecer esta história de fanatismo e crença perigosa em lideranças doentias.

Em março de 1997, o mundo ficou chocado com a morte de 38 pessoas no Rancho Santa fé, na Califórnia. Por que essas pessoas morreram? Morreram por acreditar fanaticamente em lideranças doentias e duvidosas. No caso que estamos examinando, as lideranças se chamavam Marshall Herff Applewhite e sua companheira Bonnie Lu Trousdale Nettles.


Marshall nasceu em 1931, em Spur, no Estado do Texas. Vinha de uma família protestante. Seu pai havia sido pastor presbiteriano. Marshall graduou-se em Filosofia em 1952 no Austin College. Teve uma rápida passagem por um seminário e pelo Serviço de Comunicações do Exército. Quanto à sua aparência física, era branco de olhos claros, sorriso fácil e uma excelente voz de barítono, em razão da qual escolheu a carreira do canto lírico. Em razão de sua vocação para a arte do bel canto, conseguiu o título de mestre em música na Universidade do Colorado. Enquanto fazia esta pós-graduação, protagonizou inúmeras óperas encenadas em Houston e Boulder. Ao longo de sua carreira musical, ensinou em algumas universidades e dirigiu corais de igrejas.

Em 1960, Marshall Applewhite estava dando aula na Universidade de Saint Thomas, que ficava em Houston. Em 1970, a Universidade o despediu por causa de uma relação amorosa com um aluno. Depois disso, ficou deprimido lutando contra a tendência homossexual que ele buscava recalcar. Então escutava vozes, sintoma comum aos doentes de esquizofrenia. Assim, em 1971, foi internado em hospital psiquiátrico. Nessa época ele conta à sua irmã que sofrera um ataque cardíaco e tivera uma experiência de EQM (experiência de quase morte).

Foi nesta internação que a vida de Marshall sofreu uma grande transformação em razão de ter conhecido ali uma enfermeira de nome Bonnie Nettles, membro da Igreja Batista. À época ela estava com 44 anos de idade, e ele com 40. Bonnie havia se afastado da Igreja evangélica e se tornara uma leitora voraz de obras sobre teosofia, astrologia e vidas passadas.

Os dois tornaram-se amigos e Bonnie conseguiu convencer Marshall de que os dois não eram espíritos da Terra, mas alienígenas, portanto de um nível espiritual muito superior ao da maioria dos habitantes deste planeta. Explicou-lhe ainda que ambos haviam se conhecido em outras encarnações na Terra.

Quando Marshall teve alta do hospital psiquiátrico, ele e Bonnie fundaram uma nova religião que pregava o seguinte: Marshall e Bonnie eram espíritos elevadíssimos que haviam sido enviados à Terra para advertir os terrestres de que a presente civilização estava prestes a terminar, conforme está previsto no Apocalipse de João. Depois de destruída a atual civilização ela seria substituída, depois da batalha do Armagedon e da eliminação de Lúcifer, por uma nova civilização onde reinaria a paz e a felicidade.

Acreditavam os membros desta estranha seita que Lúcifer existia e na hierarquia do inferno ocupava um lugar dois graus abaixo de Satã. Lúcifer, auxiliado por seus cúmplices, vinha, há muito tempo, controlando o nosso planeta. Os demônios luciferinos são os pilotos das naves extraterrestres que estão abduzindo seres humanos.

Havia então uma catástrofe iminente e a pergunta que se fazia às lideranças da igreja era a seguinte: como poderemos escapar a esta destruição final? A resposta a esta pergunta era realmente inacreditável: As pessoas que serão escolhidas serão sugadas por um raio de luz que virá de uma espaçonave, pilotada por seres muito evoluídos e levadas para os portões dos céus.

Para melhor exercer a sua missão, Bonnie abandonou seu marido e quatro filhos. Marshal tinha dois filhos, mas já havia se divorciado da esposa. O casal de “missionários” uniu-se platonicamente e nunca mais deixou um ao outro. Essa relação poderia ser chamada de folie a deux (Insanidade a dois) o que acontece quando dois psicopatas vivem juntos e um reforça o comportamento e as ideias do outro.

De repente, Marshal e Bonnie passam a se denominar THE TWO (OS DOIS). Esta denominação foi tirada da seguinte passagem do Apocalipse:

Eu darei poder às minhas duas testemunhas e elas profetizarão durante 1260 dias, vestidas de saco. Estas são as duas oliveiras e os dois candeeiros que estão diante do Senhor da Terra. Se alguém lhes quiser causar mal, das suas bocas sairá fogo e devorará os seus inimigos. Se alguém lhes quiser fazer mal importa assim que seja morto.

Estes homens terão o poder de fechar o céu para que não chova nos dias de sua profecia; e tem poder sobre as águas para convertê-las em sangue e para ferir a Terra com toda a espécie de pragas, quantas vezes quiserem. Quando acabarem os seus testemunhos, a besta que sobe dos abismos lhes fará guerra, os vencerá e os matará. 1 

Bonnie dava a si mesma e a Applewhite uma enorme importância. Afirmava que a humanidade tem recebido grandes avatares que aqui encarnaram para a salvação do planeta. Entre esses espíritos estavam: Adão, Enoque que, em verdade, nada mais era do que Adão reencarnado em outro corpo; Moisés, o fundador do Judaísmo; o profeta Elias, o anunciador do Messias; Jesus de Nazaré e Bonnie e seu amante platônico Marshal Applewhite.

Continuando seu projeto, o casal abriu em Houston uma livraria de ocultismo. Faliram em 1973 e foram para a estrada a fim de fazer novas conversões. Então, em Los Angeles, criaram um grupo chamado Porquinho da Índia, em que Bonnie era o porquinho e Applewhite, a Índia. Em seguida passaram a denominar o seu movimento pela sigla HIM, que significa Human Individual Memorphosis ou metamorfose humana individual. Mais tarde, o culto mudou de nome e passou a se chamar Total Overcomers Anonymous, ou melhor, Vitoriosos totais anônimos. 

Como se considerassem condutores de um rebanho, Marshall passou a se chamar de Bo e Bonnie, de Peep. Com o passar do tempo esses dois personagens passaram a usar nomes que pareciam ser de pura brincadeira como: Ele e Ela, Winnie e Pooh, Tweedle e Dee, Chip e Dale, Nincon e Poop, Tiddly e Wink e Do e Si.

Em uma entrevista dada ao Houston Post em 1972, Bonnie fez uma revelação muito interessante. Disse ela que, em seu trabalho como astróloga, era ajudada pelo Irmão Francis, um monge do século XIX. Ele fica ao meu lado quando interpreto mapas astrais, revelou a antiga enfermeira. Contou ainda que ela e seu amigo serviam de canais (médiuns) para as vozes de seres muito evoluídos que vivem em mundos muito mais avançados do que a Terra.

Tudo isso nos parece extremante infantilizado abeirando-se da insanidade, entretanto, as pessoas que assistiam as pregações do casal afirmava que ambos possuíam uma retórica muito convincente. Os primeiros convertidos foram jovens hippies e pessoas da comunidade Nova Era, que viviam desencantadas com o mundo contemporâneo e estavam dispostas a se associar a qualquer movimento que apresentasse ideias novas por mais exóticas que fossem.

Em 1966, o grupo de seguidores de Marshall e Bonnie alugou uma grande propriedade em estilo espanhol, no Rancho Santa Fé, que ficava a alguns quilômetros ao norte de San Diego. O aluguel era de sete mil dólares por mês. A vida cotidiana naquela comunidade era a seguinte:  o dia iniciava-se às três horas da manhã com orações coletivas; faziam duas refeições por dia; seus cabelos eram cortados bem curtos; usavam calças largas para que parecessem assexuados; era usada uma disciplina mais severa do que a militar.

A comunidade possuía um estoque de armas para caso fosse atacada por forças do governo, como já havia acontecido com a seita dos davidianos em Waco. Foram traçados planos meticulosos para o suicídio em massa assim que houvesse o sinal por parte dos seres superiores. Este sinal seria uma espaçonave gigantesca que seguia o cometa Hale-Bopp. Um eclipse da lua, que aconteceu no dia 23 de março de 1997, teria reforçado o sinal. Foram, então, feitos diversos vídeos em que os membros da seita apareciam sorridentes e felizes por deixarem este mundo.

Tudo preparado, foram mortos dezoito homens e vinte mulheres, sedadas com feno- barbital misturado a um pudim com molho de maçã ingerido depois de tomarem vodka. Foram amarrados sacos plásticos em suas cabeças para que morressem sufocados durante o sono. Os corpos foram cobertos com um pano vermelho de formato quadrangular. Todos os trinta e nove suicidas estavam vestidos com calças largas e usavam tênis preto da Nike. Havia dois cadáveres femininos, cobertos com o saco plástico, mas sem a manta vermelha.

Este relato é realmente incrível e a gente chega mesmo a imaginar que se trata de uma história de ficção, porém, não é. Aconteceu mesmo. Felizmente, nós, os espíritas, em razão do compromisso de nossa doutrina com o racionalismo, estamos vacinados contra essa espécie de coisa, uma vez que as pessoas fanáticas pensam que pensam, mas não pensam, pois alguém, as suas lideranças, pensa por elas.


1 Apocalipse de João XI 3-7

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