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Artigo do Jornal: Jornal Julho 2017
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A pobreza é uma realidade em nosso País, manifestando-se não apenas pela carência financeira, mas espraiando-se em suas consequências pela deficiência nutricional, falta de acesso à escola, saneamento precário, negativa de acesso à energia elétrica, instabilidades familiares, trabalho infantil e o chamamento da criminalidade, dentre outras problemáticas. Uma realidade em bolsões que margeiam as grandes cidades, mas que também se faz presente nas áreas rurais, sacrificando gerações em uma provação das mais difíceis, que nos preocupa como cidadãos e como espíritas.

Como não poderia deixar de ser, na lição do codificador que exalta o primado da prática do bem, as casas espíritas atuam também nesse segmento, no campo de suas ações da chamada promoção social, com uma diversidade de trabalhos que busca mitigar o sofrimento dessas pessoas, seja pela bolsa, seja pela sopa, ou ainda, pela presença de casas espíritas incrustradas nas comunidades, com a finalidade de atender aquelas pessoas, material e espiritualmente, de forma mais próxima.

Muitos desses trabalhos incluem em suas linhas de ação a evangelização espírita infanto-juvenil para essas crianças, convergindo nessa ação a dimensão assistencial, dada pelo apoio material; com a dimensão espiritual, por meio do passe e da oração; e ainda, a dimensão pedagógica, que se apresenta pelos ensinamentos morais e os conceitos espíritas trabalhados nas aulas de evangelização.

Sobre essa dimensão pedagógica é que nos deteremos nesse singelo artigo. Das peculiaridades que as aulinhas têm, voltadas para esse público, que não vem necessariamente de uma família espírita de moldes tradicionais, que nem sempre assim se vê e que padece de carências materiais que se espalham em outras dimensões, afetando a relação ensino-aprendizagem da Doutrina Espírita e a sua formação psicobiológica.

O primeiro passo é reconhecer que sempre que possível essas aulas de evangelização devem ser em conjunto com os filhos dos demais frequentadores, evitando a segregação e o preconceito, nos muros de trabalhadores/frequentadores/assistidos, favorecendo a indulgência e a aprendizagem mútua.

Porém, por questões de horários, não é o que ocorre na prática na maioria das casas, desconsiderando-se que essa inclusão é salutar e que rompe as barreiras das desigualdades, fortalecendo o crescimento pela integração, possibilitando a construção de outros paradigmas sociais para todos os envolvidos, no espiritismo vivo e vivido.

Considerando-se o que se vê na maioria das instituições espíritas, na qual temos um dia na casa de trabalhos assistenciais e em paralelo, as aulas para os filhos dos ditos assistidos, devemos refletir incialmente sobre o currículo a ser adotado, no qual deve comparecer o espiritismo em sua expressão mais simples, com conteúdos morais e evangélicos, com certeza, mas também com princípios básicos da doutrina, em especial a reencarnação e a imortalidade da alma.

Sim, faz-se mister trabalhar os conceitos essenciais da Doutrina, pois a visão de conduta cristã saciará nas crianças a demanda por um regramento que elas muitas vezes não dispõem, mas o saber espírita atenderá as suas necessidades mais profundas, de compreensão de suas dificuldades, fortalecendo a esperança, a coragem e apaziguando a revolta. O aprendizado como espírito, escondido ali naquele papel transitório.

No que tange a abordagem, isso tudo deve ser trabalhado com muitas histórias, dinâmicas, em uma visão lúdica e concreta que dê conta das restrições de ordem material e escolar que essas crianças venham a ter, mas procurando passar a essência do ensinamento espírita, não na busca de formá-los espíritas, mas sim para instrumentalizá-las para as lutas de agora e do futuro. A caridade também se faz em lhes fornecer um alicerce para que ali se erga um homem de bem.

Para mediar a construção desse conhecimento, não bastarão apenas metodologias e artifícios pedagógicos, em que pese esses sejam de grande relevância para todo aquele que labuta na evangelização. Será necessário também que essa dimensão pedagógica se revista de um aspecto afetivo, pelo abraço e pela palavra afetuosa, pela música e pelo exemplo, de modo a tocar o coração daquelas crianças, por vezes imersos na revolta que desagua no ódio, para que elas possam converter aquelas breves aulas em degraus que as possibilitem crescer como espíritos diante da prova da carência material.

Assim, os pilares dessa evangelização para o público de trabalhos assistenciais se fazem pela conduta cristã, no trabalho dos valores morais, mas também pelos conceitos espíritas, concretos e vividos, sem formalismos de obras e autores, mas com uma profunda verve conceitual, de aplicação daquela visão a realidade prática. E tudo isso trabalhado de forma lúdica e com valorização da afetividade, como elemento mediador que possibilitará o atingimento daqueles corações e mentes.

A evangelização espírita necessita construir futuros. A realidade da pobreza, em todas as suas dimensões, afeta sobremaneira o processo de desenvolvimento das crianças, inclusive o desenvolvimento como espírito. Evangelizar é uma relação entre espíritos, e aqueles irmãos hoje na dificuldade material necessitam de nossa mão estendida, para avançar, mas também têm muito a nos ensinar. Precisamos tocar aquelas histórias, para que elas sejam reescritas. Mas também precisamos nos deixar tocar por aquelas narrativas, para que possamos ressignificar a nossa existência, e dessa forma tornarmos o mundo melhor. Somos evangelizadores, fazemos a diferença.

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