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Artigo do Jornal: Jornal Novembro 2017
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Vamos tratar hoje do terceiro tabu que listamos na abertura desta coluna, para submeter a uma análise criteriosa à luz do pensamento doutrinário kardequiano. Ele se refere à proibição da presença de pessoas estranhas nas sessões mediúnicas.

Até onde tal procedimento, adotado pela maioria dos nossos Centros a cada novo dia com maior rigorismo, tem lógica?

O assunto é delicado e convém pensarmos sobre ele de maneira equilibrada, sem extremismos ortodoxos ou liberais porque, como diziam sabiamente os filósofos da antiguidade clássica, in medio consistit (a virtude está no meio).

Nem tanto nem tão pouco, diz-se vulgarmente. “Nem tanto ao mar nem tanto à terra” (quando temos, é claro, dinheiro para passagem aérea...).

O codificador do Espiritismo jamais se cansou de nos recomendar o bom senso para resolver todos os problemas doutrinários.

No que tange a franquia de sessões mediúnicas às pessoas estranhas, tanto nos parece errado abri-las para todo mundo, quanto se nos afigura incorreto fechá-las para o conjunto das pessoas desconhecidas, sob o pretexto de que gente curiosa prejudica os fenômenos. Baseados em que acreditamos que todas as pessoas estranhas são apenas curiosas?

E por que não admitimos que há uma curiosidade sadia, mais colaborativa do que prejudicial, dependendo isto das intenções reais de cada um, dos seus mais íntimos sentimentos?

Kardec escreveu?

“A seriedade de uma reunião, entretanto, não é sempre suficiente para haver comunicações elevadas. Há pessoas que nunca riem, mas nem por isso têm o coração mais puro.”

(O Livro dos Médiuns, Capítulo XXI, item 233.)

 

A justificativa que alguns dirigentes de Centros espíritas dão para não aceitar nas sessões mediúnicas pessoas estranhas resume-se em um único ponto: Kardec vedava o comparecimento de indivíduos curiosos nas reuniões da Entidade pública por ele fundada e mantida.

Acontece que tal instituição não era um Centro espírita, era simplesmente uma sociedade de estudos espíritas (SPEE – Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas). Isso tinha lógica na época porque o Espiritismo ainda se encontrava em sua fase de elaboração filosófica. Mas tendo em vista o seu futuro, a sua missão neste mundo, o codificador assim se pronunciou:

“A bandeira que desfraldamos bem alto é a do Espiritismo cristão e humanitário.” 

(O Livro dos Médiuns, Capítulo XXIX, item 350, 2º parágrafo.)

A decisão de privarmos o público em geral dos benefícios da participação em trabalhos mediúnicos é cristã e humanitária?

Antigamente não era assim, as casas espíritas acolhiam em suas sessões de desobsessão e cura quem estivesse materialmente enfermo ou mentalmente perturbado. Graças a isso se projetou socialmente nesta nação, sob o fogo cruzado do púlpito e da cátedra, dos sacerdotes que garantiam ser ele coisa do diabo, e dos médicos que o acusavam de induzir à loucura.

As igrejas protestantes, então, não tinham um décimo do prestígio que hoje desfrutam. Começaram a crescer, herdando os dissidentes do catolicismo que antes vinham para as nossas fileiras, porque os Centros espíritas lhes fecharam as portas dos trabalhos espirituais. Muito inteligentes, os líderes evangélicos assumiram as atividades mediúnicas no grito de “sai demônio!”, “vai embora, satanás!”, e como o fenômeno da manifestação dos Espíritos está na lei da Natureza, consoante sempre disse Allan Kardec, começaram os pastores a conseguir curas, passando a encher suas igrejas na razão direta do esvaziamento dos nossos Centros. 

Eis a realidade do momento, que só mudará quando também mudarmos o nosso modo atual de compreender e praticar o Espiritismo.

É o que penso e digo, pedindo desculpas pelo mal jeito...

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