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Artigo do Jornal: Jornal Fevereiro 2018
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Escrevo essas linhas em resposta a uma provocação amiga nas redes sociais, e que tratava dos sentidos da interpretação dados pelas religiões, na qual de cima para baixo adaptamos nossas crenças ao que é posto por estas, mas estas também fazem seus ajustes para atender as demandas dos seus rebanhos, em tentativas de comunicação e entendimento mútuo, dado que a verdade sempre tem um componente de subjetividade.

Esse interpretar típico das religiões, e digo todas, segue lógicas de acomodação, de jogos de poder, de porta-vozes, de consensos e dissensos, de ajustes e de endossos, na qual na nossa seara, em especial, vemos por vezes “visões espíritas” de temas na qual não se teria, em tese, necessidade dessa abordagem, ou ainda, se faz essa interpretação mediante pressupostos estranhos aos princípios da doutrina, na busca de encaixar um viés, ou de endossar algo, em meias verdades que se arvoram a título de  revelações.

Essas interpretações e as suas imposições alimentam deturpações do espírito originário de determinadas abordagens do sagrado. Martinho Lutero, indignado, indicou na Europa pós-Medieval que cada um devesse buscar a fonte de conhecimento direto no texto bíblico, como fonte confiável de conhecimento da verdade revelada por Deus, na busca de contornar essas interpretações, ainda que daí tenham surgido um sem número dessas que são estranhas ao espírito do carpinteiro que vivia acompanhado de pobres ao ouro. No espiritismo também temos nossos consensos eivados de polêmicas.

Além de deturpações, essa luta hermenêutica das religiões, e de subgrupos nestas, pelo monopólio de interpretações, termina por ser fonte e palco de conflitos, alguns até armados. Muitas dessas interpretações são espelho de divergências latentes, de interesses econômicos e de questões interiores mal trabalhadas, que encontram no campo da fé terreno forte para a luta, na busca de encontrar um aval lastreado no divino, na revelação e na verdade absoluta, como mandamento inquestionável.

Nesse contexto, a religião deixa de ser a graxa que facilitaria a nossa romagem terrestre, para ser a areia que emperra as nossas ações. Passa a ser motivo de discórdia, de disputas, e deixa de lado o ideal universal de um homem melhor, de um mundo melhor, preso a questões menores, que são pequenas, mas que tem por trás de si profundas divergências ancoradas nos preconceitos, nos desejos de poder, nas motivações pessoais.

Esse uso torto da religião como manifestação humana nos aponta que precisamos de uma religião que seja libertadora, emancipadora, e que nos seja útil como instrumento evolutivo. Isso não quer dizer uma fé cega, que não admita questionamentos, e que se impõe consensos a torto e a direito. Isso implica em uma fé viva, que se aperfeiçoe pelo estudo e pela reflexão, na qual cada um encontre suas verdades, convergências e divergências. Mais princípios, menos normas. Mais diálogo, menos patrulha.

Em tempo de divergências ideológicas profundas, de debates inflamados e de tertúlias agressivas em torno de diversos pontos, em especial nas redes sociais, inclusive no que tange a religião, pensamos que essa, que tem na sua raiz a nossa relação com o sagrado, o trato da nossa espiritualidade, quando se converte em arma de dor e opressão, afasta qualquer Deus de sua essência.

Guerras, crimes, intolerância motivadas pela fé... é um contrassenso que pensamos enterrados anteriormente nas cruzadas e na inquisição, mas que ainda são temas de periódicos, de conversas, na qual demonstramos que agindo assim, não entendemos a mensagem de religião nenhuma, e que temos nessa mais um instrumento de atraso, fator que talvez leve a existir tantos que se professam ateus, decepcionados com modelos que andam por aí.

Se interpretações da letra para a realidade são fonte de luta pelo poder, façamos então a interpretação da realidade para a letra. Busquemos em nossa religião, qualquer que seja, que ela dê conta de nossos anseios espirituais, que nos console e liberte, que nos permita ser melhores a cada dia. Correntes, que sejam apenas a da fraternidade. Imposições, que sejam apenas do amor ao nosso irmão.

Por uma religião que facilite a nossa evolução. Que não nos atrapalhe. Essa é a reforma necessária, para que esta forma de expressão humana não seja palco do inverso do que ela em essência representaria. Para que seja um diálogo com uma divindade, justa e bondosa, que nos tem como filhos e que nos pede, acima de qualquer rito ou disciplina, que nos amemos uns aos outros.

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