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Artigo do Jornal: Jornal Abril 2018

Sobre o autor

Cláudio Sinoti

Cláudio Sinoti

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É paradoxal constatar o volume de pessoas que se queixam de solidão, nesses tempos revolucionários da comunicação virtual, das redes sociais e da facilidade dos divertimentos, dentre outros tantos avanços da atualidade. Por isso mesmo a solidão da chamada era virtual passa a ter uma configuração diversa da de tempos passados, pois não se trata de indivíduos que são solitários por viverem isolados ou desacompanhados, mas de uma solidão ainda mais intensa: a solidão acompanhada.

Alguns dos sintomas que a solidão na configuração moderna apresenta são:

- Intenso sentimento de não ser compreendido pelos outros;

- Crença de ser vítima constante de ingratidão;

- Profunda insatisfação perante a vida;

- Declaram que desistiram de amar, pois todas as tentativas anteriores resultaram em sofrimento, que não desejam voltar a viver.

Esses e outros sintomas dão conta de que existem questões profundas a ser resolvidas, gerando conflitos e incômodos constantes que o indivíduo guarda consigo por acreditar que ninguém irá compreendê-lo. Muitos desses indivíduos são cercados de “amigos” nas redes digitais, vão a festas e reuniões familiares e alguns são até populares no ambiente de trabalho.  Por isso mesmo, essa solidão é mais difícil de ser diagnosticada, necessitando de olhares atentos que consigam enxergar além da aparência externa.

Para compreender essa patologia em sua face moderna, é necessário recordar que a criatura humana não é o que ela demonstra em sua aparência, como bem ensinou Carl Gustav Jung quando apresentou a persona, a parte da personalidade com a qual nos relacionamos com os outros. Desconhecendo a si mesmo em essência, existe uma tendência do indivíduo na construção de um personagem para vivência social, variando conforme as circunstâncias. A persona de hoje manifesta-se de forma intensa através dos perfis das redes conectadas, das mensagens instantâneas cheias de emojis felizes, quando nem sempre é assim que se sente, e todas as vezes que se expressa algo diferente do que se conduz no mundo íntimo.

Esses comportamentos alimentam a solidão moderna, porquanto quando apresentam na aparência o oposto do que se carrega na essência a alma reage, pois têm como meta manifestar-se de forma plena na consciência, e não através de disfarces.

Mas será que existe cura para a solidão?

O solitário deve ter em mente que o que o aflige não provém dos outros, mas da própria insatisfação consigo mesmo. Por isso mesmo, passo importante para vencer a solidão é a autoaceitação. Isso não significa passividade e conformismo, mas uma resignação dinâmica, como propõe Joanna de Ângelis, na qual não se briga contra o estado em que se encontra, mas esforça-se pelo constante aprimoramento. A queixa, mesmo voltada contra si mesmo, não faz com que as coisas se modifiquem. Somente a reflexão, seguida de atitudes, faz com que o indivíduo se transforme.

Prosseguindo em seus ensinamentos, a benfeitora espiritual reflexiona: “O homem realmente não se conhece. Identifica e persegue metas exteriores. Camufla os sentimentos enquanto se esfalfa na realização pessoal, sem uma correspondente identificação íntima.”1 Nesse sentido, o indivíduo deve esforçar-se para estabelecer metas interiores de transformação, que irão auxiliar na construção da autoestima e de uma percepção mais verdadeira a respeito de si mesmo.

O processo de autoconhecimento leva o ser a aceitar os próprios limites, sem que com isso se deseje ficar aprisionado a eles; pacificar-se com os próprios conflitos, mesmo os mais intensos, porquanto os conflitos nos mobilizam para buscar respostas; transcender os traumas, mesmo os mais dolorosos, porquanto a vida é maior do que as vivências traumáticas. Não se trata de negar a dor que as vivências dolorosas causaram, mas entender que se é maior do que as experiências vividas. E se parte do problema é estar voltado para metas externas, o processo agora deve seguir o caminho inverso. Investir em si mesmo, não no sentido de alcançar sucesso, mas de ser o mais verdadeiro possível consigo mesmo.

E em todos os momentos, deve-se escolher ser aquele que ama, mesmo quando incompreendido; decidir por ser o que leva a palavra afável, o olhar compreensivo, o gesto carregado de sentimentos. Os esforços nesse sentido dão nova razão ao sentir e ao viver, que são exatamente as partes afetadas pelos solitários. E se o mal da solidão é o desamor, o Amor será justamente o remédio, para que, libertando-se das amarras que o prendem na amargura, o ser possa perceber a beleza que em si habita, e por isso mesmo encontrará no mundo e nas pessoas a divina presença.


1 Joanna de Ângelis/Divaldo Franco. O Homem Integral. Leal Editora

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