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Artigo do Jornal: Jornal Janeiro 2018

Sobre o autor

Cláudio Sinoti

Cláudio Sinoti

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Quando a gentileza se torna exceção, um sinal de alerta deve ser emitido, pois a convivência humana encontra-se em risco. É digna de nota e preocupação a falta de tato de muitas pessoas para lidar com outras, algo que, infelizmente, tem se tornado comum nas relações humanas. Comportamentos rudes, falas ácidas, desrespeito e falta de gentileza vão se intensificando, até mesmo nos meios religiosos, que deveriam ser parte da cura e não da doença. O pior é que, de tão usual o comportamento, alguns indivíduos nem se dão conta de que agem de forma hostil, sendo tomados de surpresa quando são alvo de críticas por sua forma de se expressar, ou quando os outros tendem a deles manter certo distanciamento.

Na condição de ser social, encontra-se ínsita no ser humano uma predisposição biológica, psicológica e espiritual para que busquemos o convívio com o outro. Mesmo que não queiramos ou que tentemos ser indiferentes, nos afetamos mutuamente, muito mais do que possamos perceber. As dores e alegrias, sucessos e reveses dos que nos cercam, encontram em nós ressonância. Isso ocorre porquanto, como bem estabelece Daniel Goleman 1 , somos dotados de um "cérebro social", um tipo de "wi-fi neural", pronto a captar as reações dos que se encontram ao nosso redor. Esse cérebro social, de acordo com o eminente psicólogo, “inclui um grande número de circuitos, todos projetados para nos harmonizarmos e interagirmos com o cérebro de outra pessoa”.

Investigações de neurocientistas renomados, como o Dr. Richard Davidson e o Dr. Giovanni Frazzetto, dentre outros, puderam comprovar essa realidade em experimentos realizados com voluntários que se predispuseram a ser monitorados em suas atividades cerebrais, enquanto acompanhavam uma tela que projetava cenas de diversas pessoas passando por momentos de dor, alegria, medo, pavor, desafios etc. Os resultados demonstraram que as áreas cerebrais ativadas nas ocorrências eram idênticas às de quando o próprio indivíduo passava por circunstâncias equivalentes. Isso mostra que a dor do outro torna-se a nossa dor; assim como sua alegria, de certa forma, também possui um correspondente interno. Quando isso não se dá de forma harmônica, como o processo evolutivo nos habilitou, significa que estamos incursos em alguma ocorrência patológica, de maior ou menor grau, e que devemos cuidar das expressões emocionais e sociais.

Vários fatores são responsáveis por essa patologia da convivência humana, que vai afastando a gentileza da nossa forma de ser habitual. A falta de educação doméstica tem papel relevante nesse contexto. Quando nossos modelos afetivos iniciais não estão atentos a alguns cuidados importantes na convivência entre si, e com as outras pessoas do convívio de uma forma geral, o modelo de relação fica prejudicado desde sua base. Discussões acerbas, agressões gratuitas e críticas feitas de forma indevida tornam-se o palco no qual muitas crianças fazem seu (equivocado) aprendizado emocional, e que repetirão, de forma inconsciente, aquilo que se tornou habitual na relação com o outro.

A visão estreita da vida e a falta de significado existencial também geram reflexos negativos em nosso comportamento, porquanto ao limitarem a existência para a satisfação dos objetivos egoicos, impulsionam o individualismo e a competitividade, a partir dos quais o outro passa a ser visto como um concorrente, que precisa ser derrotado para que se obtenha êxito. Armados no complexo de superioridade, na ilusão de que temos que ser superiores aos outros a qualquer custo, a gentileza vai sendo deixada em segundo plano, pois é vista como fraqueza. O pessimismo reinante nos dias atuais termina por completar o quadro negativo, que faz com que as pessoas, movidas pelo medo e ansiedade, armem-se umas contra as outras, quando, na observação de Joanna de Ângelis, deveriam estar mais atentas ao mandamento sublime de “amarem umas às outras”.

Felizmente existe remédio para o quadro que verificamos, de fácil aplicação e disponível a todos quanto desejem aprimorar a arte de conviver – viver com. Pode começar nas atitudes simples: “por favor”, “por gentileza”, “muito obrigado”, “me desculpe”, dentre outras, são expressões que possuem o poder “mágico” de nos aproximar do outro, sem alimentar a reatividade. Um sorriso amistoso ajuda a desarmar o outro, minimizando contratempos. A terapêutica complementa-se quando evitamos atitudes impulsivas, dando uma pausa para respirar e refletir, sempre que possível, em vez de reagir instintivamente quando os desafios nos chegam. Esse exercício possui razões biológicas, pois ao respirar, ganhamos tempo para que o neocórtex, a área nobre do cérebro, entre em ação, nos dando um panorama mais amplo do que estamos enfrentando no momento. Há muito mais arrependimento daqueles que foram agressivos quando poderiam ter tido uma atitude amistosa do que o oposto. E mesmo entre aqueles que tiveram uma atitude gentil e se arrependeram, pelo retorno negativo recebido, temos que considerar que nunca se sabe quais seriam as consequências se tivessem revidado ou agido impulsivamente, o que na maioria das vezes resulta desastroso para as partes envolvidas.

A empatia

A empatia, embora natural, pode ser aprimorada. Empatia provém do grego: en= dentro; pathos= sentimento. Passamos a nos comunicar com o sentimento do outro, perceber a partir “das lentes” do outro, o que amplia a ótica para o percebermos, facilitando as relações. Escutar um pouco mais, atentar para a postura do outro, tentar escutá-lo além das palavras, ajuda a tentar compreender o estado emocional do outro, e muitas vezes evita desgastes desnecessários. Como bem retrata Moreno 2 em sua poesia: “Encontro de dois. Olho no olho. Cara a cara. E quando estiveres perto arrancarei os seus olhos e os colocarei no lugar dos meus. E tu arrancarás os meus olhos e os colocará no lugar dos teus. Então, eu te olharei com teus olhos e tu me olharás com os meus” . Aquele que compreende melhor o outro tende a tornar-se mais amistoso e gentil, e a convivência só tem a ganhar com isso.

Para que a relação se estabeleça em um patamar ainda mais saudável e harmônico, poderemos exercitar a gentileza em pequenas ocorrências do dia a dia, como ceder lugar a alguém mais necessitado, levar uma palavra amiga a quem precisa, ser cordial e amistoso no trato, simplificar as coisas, deixar que o outro fale antes de expormos nosso ponto de vista, dar ao outro a oportunidade de esclarecer-se, pedir desculpas quando agir de forma equivocada, dar passagem no trânsito etc. Sim, são inúmeras as formas de ser-se gentil, e tornam muito mais agradável a convivência humana, como estabeleceu o psicólogo Piero Ferrucci 3 , que em um belo tratado a respeito da gentileza nos ensina:“a gentileza, em sua essência, é simplíssima. É uma forma de fazer menos esforço... uma vez que nos poupa a energia que poderíamos desperdiçar com suspeitas, preocupações, ressentimentos, manipulações e defesas desnecessárias. Trata-se de uma atitude que, ao eliminar o que não é essencial, nos traz de volta à simplicidade de ser” .

Que tal exercitarmos um pouco mais de gentileza?

1 O Cérebro e a Inteligência Emocional – Novas Perspectivas

2 Jacob Levy Moreno. Criador do Psicodrama. Um encontro de dois.

3 A Arte da Gentileza

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