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Artigo do Jornal: Jornal Junho 2018
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Perdoe-me, estimado leitor, o uso de uma narrativa pessoal, mas entendi essa como forma adequada de abordar tão arenoso tema.

Nessas férias de 2017-2018 assisti a dois filmes na telona, que chamaram a atenção por tratar o mesmo tema, mas de forma diversa.

O primeiro filme, Extraordinário (EUA, 2017), oriundo do livro homônimo da escritora R. J. Palacio, narra um momento crucial da vida do jovem August, que tem seu rosto completamente deformado por conta de uma má formação congênita, e que tem que enfrentar o desafio de ir à escola aos dez anos de idade.

Inteligentíssimo, August (ou Augie), teme a escola e vê seus medos se materializarem pela agressividade de alguns de seus colegas pela sua condição. Mas pelo seu exemplo e pela coragem de tantos outros, ele modifica aquele ambiente, que passa a enxergá-lo de forma mais gentil.

O segundo filme é O Rei do Show (EUA, 2017), com um desempenho impecável de Hugh Jackman, narra a biografia de P.T. Barnum, que de origem humilde, ascende como produtor artístico de uma Nova York vitoriana, utilizando-se de um show de pessoas com características diferentes, invocando o argumento que o show permitiria a eles serem incluídos e ainda serem remunerados pelas chacotas que lhes causaram sofrimento durante toda a vida.

O desejo de ver o bizarro, o diferente, olhando as pessoas como objetos peculiares, é um mote subjacente ao filme, nos conflitos entre a repulsa pela intolerância e a admiração pela curiosidade, que alimenta protestos diante do caça níqueis instalado.

Ambos os filmes, sintonizados com as discussões modernas que tratam da inclusão, do convívio com a diversidade de características, da questão da aceitação e da indulgência, ocorrem em épocas diferentes, na mesma cidade, mostrando que passado cerca de um século, a curiosidade e o medo continuam a ser a tônica no trato de quem não se enquadra nos padrões estabelecidos.

A curiosidade, a busca por olhar, ver, rir e se emocionar com o que nos é diferente, é uma marca de nossa sociedade, e isso nos faz repensar, trazendo para a pauta espírita a nossa conduta em relação aos trabalhos assistenciais diante dos vulneráveis, de pessoas com deficiência, e de que olhar exercitamos em relação a eles.

Afinal, ali se encontra um espírito, em uma vivência reencarnatória tão relevante quanto a nossa, e o trabalho social no espiritismo não é um turismo pelas dores do mundo, e sim um mecanismo de intercâmbio de amor na promoção da modificação interior destes envolvidos.

Da mesma maneira, o medo, que conduz a violência, é uma forma de interação que ainda persiste e que precisa ser trabalhada, e a casa espírita não está distante dessa discussão.

Nada justifica a violência... Nada justifica a violência direcionada a uma pessoa pelo fato dela ser diferente em seu corpo, na sua crença, ou na sua orientação sexual. Não existe razão para o temor de outros que enxergam a vida de outra forma, ou de outros que tem a aparência diferente.

Quantas lendas para assustar crianças surgiram de nosso medo e da incompreensão do que é diferente? Quantas pessoas ficaram escondidas em suas casas, privadas da escola, do ar livre, da praça, pelo fato de não termos aprendido essa questão básica de convívio humano. E essa discussão necessita entrar na nossa pauta!

Os filmes citados nos convidam ao exercício dessa peculiar fraternidade, profunda, lastreada no carpinteiro que vivia cercado do populacho, que não olhava a aparência e sim a essência, pregando o amor ao próximo, sem limitar esse conceito.

Aliás, Jesus, quando perguntado quem era o nosso próximo, narrou a Parábola do Bom Samaritano, indicando que todo aquele que necessita, deve ser objeto de nossa ajuda.

Como os habitantes que se acotovelavam para ver o show das chamadas aberrações, como as crianças que hostilizam o amigo de classe pela sua aparência, nos vemos distantes do que se espera como seguidores do Cristo, que trouxe o caminho, a verdade e a vida, mas insistimos em não aprender, presos a subterfúgios alimentados pela nossa própria imperfeição.

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