pteneofrdeites
Artigo do Jornal: Jornal Novembro 2018

Sobre o autor

Itair Ferreira

Itair Ferreira

Compartilhar -

       Há 100 anos, no dia 1° de novembro de 1918, desencarnava o Apóstolo da Caridade Eurípedes Barsanulfo, em Sacramento, Minas Gerais, aos 38 anos e seis meses de existência.

Nascido no dia 1°de maio de 1880, sua vida foi pautada na disciplina e determinação no bem, sem esmorecimento, num amor incondicional a Deus, a Jesus e ao próximo.

Eurípedes era o terceiro dos quinze filhos do casal Dona Meca e Senhor Mogico, como eram chamados. Sua infância foi muito pobre. Os pais trabalhavam muito para o sustento dos filhos. O menino Eurípedes, apenas com seis anos de idade, ajudava o pai no balcão do armazém de secos e molhados, onde ele trabalhava. “Quase da altura do balcão, atendia os fregueses, fazia embrulhos e, às vezes, podia ser visto em frente à Estação de Cipó, mesmo nos dias de chuva, com os pés descalços no barro vermelho, tomando conta de cavalos ou besta de carga; quando não carregando malas de viajantes comerciais. Recebia em troca moedas de cobre que eram colocadas, à noitinha, nas mãos de Dona Meca, dizendo: — É para a senhora, mamãe.” (1) 

Eurípedes sempre foi religioso. Era católico. Exercia com muito respeito as funções de “coroinha”, nos rituais da Paróquia da cidade. No início da idade adulta, foi cofundador da Irmandade de São Vicente de Paulo, tornando-se secretário dessa congregação, com a admiração e o respeito de todos pelo seu trabalho feito com dedicação e amor.

Autodidata, possuía uma cultura excepcional, adquirida na leitura de todos os dias. Sempre pensando em auxiliar a população ao progresso, como jornalista, lançou a Gazeta Sacramentana.

Fundou, também, no ano de 1902, aos 22 anos de idade, o Liceu Sacramentano, tornando-se um conceituado mestre, admirado pelos discípulos e pelos seus familiares, inovando a arte científica de educar.

Entretanto, um episódio marcante, no ano de 1903, modificou a visão espiritual de Eurípedes. O Padre Augusto Teodoro da Rocha Maia, sabendo da sua capacidade de entendimento e da sua bondade, comprovada por todos que com ele se relacionavam, emprestou-lhe, em segredo, um exemplar da Bíblia, pedindo-lhe para ler e não passar adiante, pois a leitura desse livro era proibida pela Igreja a seus adeptos.

Ao ler o Sermão do Monte, o sublime código de ensinamentos morais, Eurípedes teve em si a instalação da dúvida, a chave que lhe abriria as portas da verdade. Não compreendia como o Cristo, Sábio e Misericordioso, prometera consolações aos pobrezinhos, aos injustiçados, aos que choravam e sofriam, se ele presenciou tantos deles morrerem sem as consolações prometidas.

Com a dúvida instalada em sua mente, o seu pensamento passou a vibrar em torno da justiça divina. Periodicamente, seu tio Mariano da Cunha, “tio Sinhô”, irmão de sua mãe, hospedava-se em sua casa, fato que constituía grande alegria para ele. Seu tio era um homem honesto e equilibrado, apesar de inculto, e era espírita. Eles sempre debatiam fraternalmente sobre essa Doutrina, para ele demoníaca. “Tio sinhô”, homem rude do campo, tentando se instruir na Doutrina dos Espíritos, nascente na região, muitas vezes se mantinha em silêncio, à falta de argumentação. Nessa noite, após a brilhante explanação do sobrinho, ele lhe disse:

— O que não posso explicar a você, este livro vai fazer, em parte, por mim.

E passou-lhe às mãos um exemplar do livro Depois da Morte, do filósofo francês Léon Denis, traduzido para o português, em 1880.

Enquanto seu tio dormia, ele devorou as páginas daquele livro numa excitação contínua, durante toda a noite, sob a iluminação tosca de um lampião a querosene.

A partir da leitura e releitura dessa obra, sua curiosidade aumentou a ponto de convidar seu amigo José Martins Borges para ir à reunião, no Centro Espírita de Santa Maria, que o “tio Sinhô” frequentava. Era sexta-feira da Paixão do ano de 1904.

Conta Corina Novelino, no livro Eurípedes, o Homem e a Missão:

“Todos os lugares ocupados. Atrás da linha, onde se encontrava o médium Aristides Gonçalves Fernandes, situavam-se dois lugares desocupados, providencialmente, à espera dos dois visitantes.

Um pensamento vibrava-lhe na mente... Resolve fazer o seu pedido e fá-lo mentalmente, com unção:

— Tudo compreendi na Bíblia. Mas o meu entendimento está fechado para as Bem-aventuranças. Se é verdade que os Espíritos se comunicam com os vivos, rogo a João Evangelista elucide-me pelo médium Aristides.

Alguns minutos após, Eurípedes ouvia a mais “extraordinária dissertação filosófico-doutrinária que jamais conhecera em toda a sua vida sobre o luminescente discurso de Jesus, do intérprete solicitado”.

Nos tempos evangélicos, Eurípedes fora educado por Inácio, pupilo de João, que se tornara grande propagador da Boa Nova, na Antioquia. Adolescente ainda, Eurípedes substituíra o Benfeitor na pregação, na Palestina, onde manteve contatos com João, e onde fora martirizado.” (Revelações inéditas de Emmanuel a Francisco Cândido Xavier) (2)                 

Eurípedes teve sua atuação no Espiritismo, após sua conversão, como médium de cura, o primeiro a receber o Dr. Bezerra de Menezes, prescrevendo remédios e fornecendo os medicamentos gratuitamente a todos, indistintamente. Realizava todos os partos com segurança. Possuía uma multiplicidade de dons: transporte, desdobramento, psicofonia, recebendo as mais altas personalidades espirituais conhecidas na Terra. Tudo isso foi feito em 14 anos apenas: do ano de 1904 até sua desencarnação no ano de 1918. Em 31 de janeiro de 1907, funda o Colégio Allan Kardec, primeira instituição educacional Espírita da Terra.

Mesmo assim, foi perseguido e processado por exercício ilegal da medicina. (3)

Vítima da gripe espanhola, Eurípedes retorna à pátria espiritual, deixando suas marcas luminosas insculpidas, para sempre, em nosso país, em nosso planeta e, sobretudo, em nossos corações.

Exemplo de amor e de humildade, Eurípedes Barsanulfo, receba nossa homenagem!

Muita paz!

 

Notas bibliográficas:

1 – Eurípedes Barsanulfo O Apóstolo da Caridade, Jorge Rizzini, Edições Correio Fraterno.

2 – Eurípedes, O Homem e a Missão, Corina Novelino, Ide.

3 – A Perseguição Policial Contra Eurípedes Barsanulfo, Freitas Nobre, Edicel.

Compartilhar
Topo Cron Job Iniciado