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Artigo do Jornal: Jornal Novembro 2018
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Na vida, existem certas pessoas cuja biografia é inacreditável. Albert Einstein, referindo-se a Mahatma Gandhi, indicou que as gerações por vir teriam dificuldade em acreditar que um homem como este realmente existiu e caminhou sobre a Terra. Figuras que romperam paradigmas, que souberam fazer o que devia ser feito. Com coragem e amor, entraram para a história pela porta da frente.

Um desses foi Oskar Schindler (1908-1974), industrial que salvou cerca de 1200 judeus do holocausto, na Segunda Guerra Mundial, e teve a sua história retratada em um romance, Schindler's Ark (1982), de Thomas Keneally, adaptado para o cinema por Steven Spielberg em 1993, na película A Lista de Schindler, premiado filme estrelado por Liam Neeson e Ben Kingsley.

Uma cena no final do filme ficou guardada na memória dos que o assistiram, quando, diante dos que ele salvou, Schindler tem uma epifania em relação aos bens que ele ainda possuía e podiam ter se convertido na salvação de mais vidas judias. E olhando o carro, o anel, ele repete atônito, aos prantos: “Eu podia ter salvado mais uma pessoa, e não salvei!”

Todos nós temos esses momentos de epifania, diante da oportunidade não aproveitada. E um deles, inclusive, de caráter compulsório, é o que ocorre após a desencarnação, quando vemos, aos poucos, o que fizemos e o que podíamos ter feito. Uma sensação dolorosa diante do saber que era possível, e não ter abraçado a causa com o empenho necessário.

Para evitar essa incômoda epifania, importa fazer cotidianamente uma autoanálise, que nos imponha esse questionamento: se estamos fazendo tudo que podemos, e na direção certa. Pensar se estamos acumulando coisas inservíveis, se estamos olhando a vida com uma perspectiva espiritual e, ainda, estimar se poderemos reverter as decisões equivocadas, projetando-nos no futuro.

A vida é uma longa estrada por que caminhamos, movidos por um impulso permanente, e nessa trajetória encontramos pedras que pulamos, flores que colhemos, companheiros de viagem a quem oferecemos os ombros, e vamos seguindo, de forma inexorável. O que passa fica lá para trás. Só voltamos em outras conjunturas, em outras realidades, até com os mesmos atores, mas em circunstâncias levemente diferentes. Ciclos que se repetem quase da mesma maneira e nos lembram a importância do tempo presente para decidir, de forma refletida, como seres eternos.

A oportunidade é uma peça da paisagem ao longo dessa estrada, que nos surge como presente. Pode ser um posto de gasolina, uma árvore frondosa com frutas, um ambulante vendendo água. Passamos por estas e por vezes só olhamos o momento, esquecidos de olhar para frente e para trás, sopesando se aquela breve parada para abastecer, colher uma fruta ou comprar água poderá ser essencial para a nossa jornada.

Pelo contrário, ansiosos com a chegada, com a velocidade, seguimos entre pedras e flores, sem pensar na nossa vida com as lentes do espírito. E a epifania da oportunidade nos vem lembrar dessa vida eterna, de que sempre é possível recomeçar, mas que isso tem um custo – da aprendizagem e do refazimento.

Poderíamos ter salvado mais uma pessoa? Que a voz de Schindler ecoe em nossa mente, a cada dia, na consciência de quem conduz a sua vida, com serenidade e com seriedade, para que, ao fim da estrada, atravessemos a fronteira do país, da luz, em dia com a nossa responsabilidade com a evolução. Com a nossa e com a dos que viajam conosco.

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