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Mukhtar Mai percorre e sensibiliza o mundo divulgando sua história. Essa paquistanesa ousou denunciar as práticas cruéis perpetradas ainda hoje contra as mulheres em seu país e em vários outros daquela região, sendo ela própria uma dessas vítimas. Ela divulga seu caso visando chamar a atenção do mundo para as crueldades que os chefes das tribos impingem às mulheres, com o consentimento e o aval das famílias. Ela sofreu o estupro de seis homens, como castigo pelo erro cometido por seu irmão, tudo assistido pelos familiares.

É de todos os tempos a percepção da figura da mulher como ser inferior no seio de todos os povos. Exilada da participação como cidadã, junto com escravos e estrangeiros, na democracia grega clássica, considerada como não tendo alma, de cérebro menor que o do homem, e sem utilidade além da procriação, de um modo geral, a mulher tem sido, ao longo da história e em todas as latitudes, vítima do preconceito - que é postura mental, interna, e da discriminação-a face visível do preconceito.

Em muitos grupos ainda hoje vige a visão patrimonialista da mulher, sobre a qual o homem, como pai, marido ou irmão, tem exercido todos os direitos, inclusive o de vida e morte.

Tais posicionamentos afrontam a Lei de Deus, que prescreve a igualdade entre todos os seres. A Doutrina Espírita proclama esse dispositivo divino como Lei de Igualdade, nas respostas dadas a Kardec pelos Espíritos Orientadores da humanidade às perguntas 817 a 822 em O Livro dos Espíritos. Segundo esses ensinamentos, Deus outorgou tanto ao homem quanto à mulher os mesmos direitos, a inteligência e a faculdade de progredir. A inferioridade moral da mulher em certos países provém "do predomínio injusto e cruel que sobre ela assumiu o homem. ...[refletindo] abuso da força sobre a fraqueza...[pois] entre homens pouco adiantados, a força faz o direito."  Os Espíritos esclarecem ainda que "todo privilégio a um ou a outro concedido é contrário à justiça, [que] a emancipação da mulher acompanha o progresso da civilização [pois] sua escravização marcha de par com a barbaria"; e não pode haver nenhuma diferença entre homem e mulher, "visto que os Espíritos podem encarnar num e noutro sexo". A mulher, assim como o homem, é um ser espiritual-ou um Espírito encarnado femininamente, e como ser psicológico apresenta perfil condizente com as funções reservadas pela natureza a cada expressão de gênero no mundo. Assim também com o homem.

Desse ponto de vista, a chamada lei de ação e reação, através da reencarnação, como recurso didático-pedagógico divino, encarrega-se de promover o despertamento das consciências, ao fazer as criaturas encontrarem e viverem o estado de coisas que promoveram em encarnações anteriores. Este é o mecanismo básico dessa lei, cujo objetivo são a "expiação, [e o] melhoramento progressivo da Humanidade. Sem isto, onde a justiça?" (O Livro dos Espíritos, pergunta 167).

Quadros de preconceito, injustiça e crueldade têm sido patrocinados pelas instituições sociais humanas, que vão sendo substituídas à medida que as consciências passam a perceber que são seres iguais perante Deus, e portanto, devem sê-lo também perante os homens.
Verifica-se, no caso que espanta o mundo, que vige naquele e em outros grupos o princípio injusto da comunicabilidade da responsabilidade dos erros de uns a outros membros da família. Isto é contrário à lei de amor e de justiça que assevera, através de Jesus: "A cada um segundo as suas obras".

Mas qual a visão espírita, strictu sensu, sobre a situação vivida por essa corajosa mulher paquistanesa? Vejamos algumas possibilidades.

Em princípio, ela pode ter sido submetida ao mesmo tipo de experiência que eventualmente tenha imposto a outrem no passado, como expiação dessa falta perante a Lei de Deus, a Quem unicamente compete a aplicação da pena de talião (O Livro dos Espíritos, pergunta 764). Mas a expiação, que é imposta, irrecusável, rigorosa, só é aplicada quando a criatura é reincidente na falta, depois de beneficiar-se das provações, que são experiências requeridas pela criatura, ou propostas pelos guias espirituais antes da reencarnação. Portanto, pode ser também possível que um caso desses seja provacional, como escolha pessoal, situação que se caracteriza pela resignação e coragem demonstradas pela criatura, pela sua alegria perante ocorrências dolorosas, e pela forma construtiva como desdobra o mal sofrido em ações para o bem de outros. É o que vemos pelo semblante e pela luta que Mukhtar Mai vem empreendendo mundo afora.

Pode dar-se também o que o Espírito Joanna de Angelis conceitua como expiação aparente, em sua obra Plenitude. Em nome do amor, há seres que escolhem situações dolorosas para lecionarem coragem e conforto moral aos enfraquecidos na luta. Ninguém dispõe de elementos para avaliar quem quer que seja, mas é bom lembrar que a atuação de Mukhtar Mai já fez extinguir-se em sua aldeia o procedimento de que foi vítima, e os homens que o perpetraram estão presos. Qualquer que seja o seu quadro, é-de se louvar a coragem do esforço pacífico pela implantação da justiça na Terra.

 

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