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Desencarnou na manhã desta terça-feira 22/12/2009, às 9 horas, em Uberaba, MG , Dona Aparecida Conceição Ferreira, fundadora do Hospital do Fogo Selvagem. O velório ocorre na própria instituição e o enterro será por volta das 11 horas da manhã do dia 23/12. Exemplo de humildade e inesgotável amor ao próximo D. Cida se transformou em ícone da caridade naquela cidade mineira, sendo admirada pela comunidade em geral e por baluartes do movimento espírita como Chico Xavier e Dr. Inácio Ferreira. Dona Cida, que recebia a todos os visitantes com muito carinho, também nos recebeu com muita afabilidade e doçura, inclusive nos concedendo entrevista para a Folha Espírita, publicada em setembro de 1999. Dona Cida, receba o nosso reconhecimento através das preces que brotam do fundo dos nossos corações.

Aos que desejam saber um cisco sobre a vida desta pessoa de profunda abnegação....

Chico Xavier também mudou a vida de Aparecida Conceição Ferreira, uma enfermeira do Setor de Isolamento da Santa Casa de Misericórdia. Especializada no tratamento de doença contagiosa, ela deu os primeiros passos em direção ao desconhecido antes mesmo de conhecer o fenômeno de Pedro Leopoldo. No dia 8 de outubro de 1958, Aparecida abandonou o emprego para acompanhar doze vítimas de pênfigo foliáceo, o fogo-selvagem. Com os corpos cobertos de bolhas, muitas delas transformadas em crostas, elas receberam alta do hospital sem qualquer perspectiva de cura. A direção considerou o tratamento longo e caro demais.

A enfermeira, inconformada, pediu demissão e saiu pelas ruas da cidade em busca de abrigo para as vítimas da doença inexplicável. Febris, algumas com os pés descalços, elas deixaram um rastro de sangue pelas calçadas e terminaram a via-crúcis sem ter onde ficar. As pessoas apenas olhavam para o grupo e aceleravam os passos, sem conseguir disfarçar o nojo.

Aparecida levou as doze pessoas para a própria casa. Na época, a doença era considerada contagiosa. Os vizinhos ficaram apavorados. A família também. Seu marido e os filhos deram o ultimato:
-- Ou eles ou nós.
-- Eles.

Os doentes ficaram na casa quatro dias, até alguém, comovido, alugar um barracão a duas quadras de distância. A temporada no novo endereço durou o mesmo período. Quatro dias depois, a prefeitura cedeu um pavilhão no Asilo São Vicente de Paulo para os enfermos. Eles poderiam ficar ali durante dez dias até conseguirem novo abrigo. Os dez dias se prolongaram por dez anos e, desde a primeira noite, Aparecida passou a morar com as vítimas do fogo-selvagem.

Em 1959, o número de doentes já tinha quadruplicado. Um deles estava louco, descontrolado. Aparecida decidiu pedir socorro a Chico Xavier. Foi até a Comunhão Espírita Cristã com um amigo e o doente e, quando lhe apontaram o espírita, levou um susto. Viu um senhor com a cabeleira branca cortada à la garçon e reconheceu a figura estampada em livros de literatura: era Castro Alves.

Chico ainda colocava no papel um poema assinado pelo morto ilustre, quando Aparecida voltou para casa. O doente estava inquieto demais e não poderia esperar.

Na tarde seguinte, Aparecida teve outra surpresa. Recebeu de um auxiliar de Chico Xavier dois conjuntos de roupas para cada doente: lençóis, fronhas, pijamas, toalhas de rosto e de banho. E ainda ganhou três vestidos e um par de sapatos. Ficou perplexa.

Nem havia conversado com o médium. Na época, cada doente tinha apenas um conjunto de roupas e, após o banho, precisava ficar nu, na cama, enquanto ela lavava e passava as mudas. Sua situação também era precária. Aparecida andava descalça, tinha um único avental. Um detalhe deixou a ex-enfermeira ainda mais impressionada: os sapatos eram de número quarenta, um exagero para mulheres e um absurdo em relação a sua baixa estatura.

Como Chico adivinhou?

Na mesma semana, o vidente voltou à cena, desta vez ao vivo e em cores. Aparecida tentava levantar dinheiro para pagar o óleo de cozinha - tinha gasto doze cruzeiros -, quando recebeu a visita de Chico Xavier. Ele apareceu sozinho e lhe entregou um envelope. Dentro dele, estavam trezentos cruzeiros, quantia suficiente para saldar a dívida e ainda reforçar a despensa. Ela ficou perplexa. Não acreditava em espiritismo.

O trabalho aumentava a cada ano. Em 1960, 187 doentes se amontoavam na enfermaria de Aparecida. Em 1961, o número subiu para 363. O pavilhão do São Vicente de Paulo ficou pequeno demais. A enfermeira pôs na cabeça uma idéia fixa: iria construir um hospital. Um conhecido lhe ofereceu um terreno por 300 mil. Aparecida nem pensou duas vezes. Saiu às ruas, com seus doentes, para pedir ajuda. Muita gente se apressava em lavar e desinfetar o chão por onde eles passavam e, mesmo diante deles, esfregavam com álcool as grades tocadas pelas vítimas do fogo-selvagem.

Apesar da resistência geral, Aparecida conseguiu juntar o dinheiro. Comprou o terreno, abriu uma cisterna, cortou árvores e lançou a pedra fundamental. Estava pronta para começar a obra. Nem imaginava, mas tinha caído numa armadilha: comprara os lotes da pessoa errada. Os proprietários eram outros e estavam dispostos a processá-la por invasão de propriedade alheia. Pior: ela não tinha um documento para provar o pagamento do terreno.

Voltou à estaca zero. E pediu socorro a Chico Xavier. Bem relacionado, o espírita a encaminhou a um corretor de imóveis, que negociou a compra com os proprietários de verdade. Tudo sairia por 260 mil cruzeiros.

Mais calma, ela voltou até Chico e comunicou:

-- Vou a São Paulo porque, dizem, lá é só estender a mão que o povo dá.

Chico perguntou se ela conhecia a cidade e ouviu a resposta:

-- Só sei que fica para lá.

E apontou a direção.

Chico lhe deu um cartão endereçado a um radialista. Aparecida foi à procura dele e tropeçou no dono dos Diários Associados, Assis Chateaubriand. Teve muita sorte. O empresário colocou à sua disposição suas emissoras de rádio. A campanha beneficente arrecadou 720 mil cruzeiros. Aparecida tomou fôlego e avisou a Chico que iria iniciar as obras. Desta vez, ele foi desanimador.
Virá muita tempestade, ainda não é o momento. Aguardemos a hora para iniciar a construção.

Aparecida perdeu a paciência. Não iria aguardar hora alguma. Comprou 22 mil tijolos e começou a acumular o material. Na semana seguinte, vizinhos pediram tijolos emprestados. Nunca mais devolveram. A ex-enfermeira se lembrou do conselho de Chico e sossegou.

Em janeiro de 1962, Chico apareceu no hospital com a boa notícia:

-- Você pode pôr os ovos para chocar, que agora vêm os pintinhos. Não espere pelos poderes públicos, São Paulo é que vai ajudar.
Em 1964, Aparecida voltou à capital paulista para pedir donativos. Com doentes ao redor, ela começou a abordar os transeuntes embaixo do Viaduto do Chá. Resultado: foi presa por mendigar em nome de entidade fictícia. Ficou atrás das grades oito dias até provar sua honestidade, com atestados e cartas da Prefeitura, Câmara de Vereadores, juiz e delegado de Uberaba.

Ela levantaria o prédio e seria vítima de acusações constantes. Ganhava dinheiro à custa dos doentes. A cada nova sala, os boatos se multiplicavam. Um dia, Aparecida pensou em parar. Ouviu de Chico, já acostumado com a desconfiança geral, uma contra-ordem firme:

-- Se desistir, vão dizer que roubou o suficiente.

Numa tarde, para estimular a ex-enfermeira, ele cometeu uma rara indiscrição: revelou a Aparecida a última encarnação dela. Aparecida tinha sido responsável pela morte de muitos "hereges" nas fogueiras da inquisição. Na atual temporada, ela resgatava sua dívida. Os doentes também. As vítimas do fogo-selvagem, tratadas por ela, tinham obedecido às suas ordens e incendiado os corpos.

Aparecida se aproximou do espiritismo. Numa noite, foi a um centro espírita em São Paulo e sentiu vontade de sair de fininho. Ninguém a conhecia, mas o presidente da sessão chamou até a mesa a dirigente do hospital do fogo-selvagem. Queria que ela aplicasse um passe na residente do centro, vítima de uma paralisia repentina, que a impedia de andar. Aparecida nem se moveu. Nunca tinha dado passe em ninguém. O sujeito devia estar mal- informado. No fim da sessão, ele repetiu o convite. Era o próprio mentor espiritual do centro quem pedia a ajuda de Aparecida.

Ela tomou coragem e se apresentou. Em seguida, subiu três lances de escada para se encontrar com a doente. Todos se concentraram em torno da cama. Aparecida sentiu algo estranho nas mãos, no corpo, na cabeça. Sentiu medo. Mesmo assim, com suas rezas, realizou um "milagre". A doente se levantou no dia seguinte e se tornou não só amiga de parecida como sua companheira em várias campanhas de assistência aos doentes do fogo-selvagem. A ex-enfermeira mudou. Começou a aplicar passes curadores em seus doentes, com resultados surpreendentes.

O Hospital do Pênfigo viraria Lar da Caridade e, além de vítimas do fogo-selvagem, atenderia a "desamparados em geral". Aparecida se transformou em mais uma devota de Chico Xavier. Baseou seu tratamento em valores fundamentais para o discípulo de Emmanuel - os doentes deveriam trabalhar e estudar, com disciplina, para ter melhoras -, e passou a reverenciar o aliado:

-- Quando Chico vem ao hospital é como se Jesus chegasse.
Da Obra: As Vidas de Chico Xavier - Marcel Souto Maior.

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