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Pedro Valiati

Pedro Valiati

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Ansiedade, o Sentimento que Consome a Fé

A passagem de São Tomé, logo após o fenômeno bíblico conhecido como ressurreição, é bastante conhecida de todos, virando, inclusive, expressão popular a designar descrença – João 20:25-29. Não poderia ser diferente, afinal, um discípulo simplesmente duvidou do testemunho dos outros apóstolos.

A reação de Tomé não é totalmente injustificada, analisemos. Os apóstolos sentiam-se acuados, estavam escondidos numa casa, pois os judeus os perseguiam – João 20:19. Sentia-se desprotegido, abandonado pelo Mestre, algo que, por conta da própria ansiedade e angústia, provocava-lhe a incredulidade, olvidando todas as experiências pretéritas ao lado do Cristo. Quem poderá atirar a primeira pedra no descrente apóstolo?

Divaldo Franco, em palestra intitulada “Maria de Nazaré”, comenta com bastante propriedade a relação entre São Tomé e a maioria dos espíritas de hoje. Muitos dão fartos testemunhos de fé, proclamam-se “enxadas do Cristianismo”, instrumentos da divulgação espírita, naturalmente, quando esta tudo bem. Porém, quando o “jogo vira”, aparecem os problemas no lar, os apuros com parentes nos vícios, as turbulências financeiras, as dificuldades do cotidiano fogem ao controle e viramos “reféns” da intervenção de Deus, tal como os apóstolos na passagem citada, nos questionamos, “Onde estão os nossos mentores? Essa espiritualidade que não atua, enquanto estou aqui, sofrendo!”. Em absoluto desespero e descrença na providencia divina, provocados pela ansiedade.

A verdadeira fé, aquela capaz de suportar as dificuldades diárias com altas doses de empenho, trabalho e resignação, sem reclamações ou blasfêmias, esquivando-se dos queixumes e cansaços e conectada ao plano maior, ainda não nos pertence. Portanto, o comportamento “São Tomé” é parte de nós.

Nas queixas domésticas, as mais comuns, voltamos as nossas “baterias” contra aqueles que nos causam dificuldades, preferimos duvidar da justiça divina a acreditar nos nossos erros: “O que eu teria feito para estar no meio destes? Ou fiz algo de muito errado ou Deus é injusto”. Vale a pena validarmos o nosso conceito de Deus. Se acreditamos num Deus não muito envolvido com o detalhe das nossas vidas, ocupado demais com as altas deliberações do universo, o qual não se envolve com o nosso íntimo sofrimento e experiências probatórias, então, neste caso, sim, tal injustiça é possível. Se for neste Deus que acreditamos, é perfeitamente possível nascermos em uma família totalmente desconectada com as nossas necessidades espirituais.

Entretanto, se acreditamos no Deus trazido pelo Cristo, no qual não cai uma folha da árvore sem o Seu conhecimento, do Pastor que conhece todas as ovelhas, se cremos no Deus trazido pela Doutrina Espírita, absolutamente justo e bom, então a injustiça não é uma possibilidade. É uma decisão que precisamos tomar, acerca do conceito de divindade adotada.

É claro que teremos as nossas dificuldades, quando encarnamos, nos propomos a viver num planeta de provas e expiações, e não numa colônia de férias. As provações e expiações da vida são necessárias para a nossa evoluções e ressarcimento dos erros do passado. Temos as nossas obrigações e metas morais as quais não podemos fugir. Naturalmente que a resignação e a fé serão companheiras, unida a dedicação ao trabalho, deixam o “fardo” mais leve. O resto, que não esta ao nosso alcance, está nas mãos de Deus.

A vida tem sim o seu lado rude. Foi assim com todos os admiráveis exemplos do mundo, por que seria diferente conosco? Quais foram as facilidades encontradas na vida do Chico? Os ataques a sua obra e moral não cessaram mesmo após ser reconhecido como líder religioso. Qual benécia material foi concedida a Madre Teresa de Calcutá, além da saúde, para que a mesma levantasse a sua obra num país majoritariamente não cristão? E o maior exemplo de todos, quais foram os reconhecimentos e facilidades encontradas na jornada do Cristo que não tenham sido plantados por ele mesmo? E mesmo cultivando o amor a cada passo, qual foi a resposta da humanidade para com o Mestre?

Não nos encontramos imunes às vicissitudes, as experiências da existência, em um mundo de provas e expiações. Não somos possuidores nem merecedores de privilégios. Naturalmente, teremos as concessões divinas, ainda não temos a condição espiritual para dispensá-las. Por outro lado, possuímos comprometimentos anteriores suficientes para nos apresentarmos ao rol das batalhas morais, onde reclamações não pontuam e a ansiedade só atrapalha.

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