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Artigo do Jornal: Jornal Janeiro 2014

Sobre o autor

Cláudio Conti

Cláudio Conti

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     No primeiro capítulo do livro A Gênese, Kardec trata das três principais revelações, que são as de Moisés, de Jesus e do Espiritismo. Com relação às revelações de Moisés, podemos dizer que a mais importante seria o conceito de Deus único trazido no seio de um povo politeísta e que passou a servir de norte para questões concernentes à divindade, simplificando as práticas de adoração.

     Conceitos relativos a Deus sempre serão de difícil entendimento para o espírito ainda não evoluído, pois não se tem uma experiência concreta logo de imediato, são conceitos abstratos que devem ser elaborados e desenvolvidos através de práticas religiosas para, depois de exercitadas, serem aplicadas na vida cotidiana. Atingindo a plenitude à experiência de Deus, este deixa de ser abstrato para ser concreto, momento em que surge a certeza de sua existência e não mais a pura crença.

     Em decorrência desta dificuldade, a crença na existência de vários deuses acarreta uma complexidade ainda maior, cuja extensão dependerá do número de deuses em que se crê existir, pois, invariavelmente, haverá discussões e conflitos acerca de qual seria o melhor e maior, tipo de rituais, preferências pessoais etc.

     As dificuldades decorrentes deste tipo de crença são melhor compreendidas quando comparamos o comportamento humano diante dos times de futebol e partidos políticos, onde, muitas vezes, perde-se o controle e reações mais arbitrárias ocorrem, quando não violentas.

     Todavia, apesar de convivermos com a revelação do Deus único por mais de quatro mil anos, ainda encontramos comportamento politeísta em grande escala na parte ocidental do planeta. O grande problema atualmente não é a crença politeísta de agrupamentos e povos como na época de Moisés, mas por ocorrer em nível de países.

     Desde algum tempo até os dias atuais, a questão principal deixou de ser o politeísmo claro, consistindo de diferentes deuses representando coisas específicas, mas um politeísmo velado, muitas vezes com um único nome ou representando definições semelhantes, mas conceitos que podem ser muito diferentes. Tornou-se comum ouvir frases do tipo: "creio em deus, mas não no deus das religiões"; "o deus desta ou daquela religião" etc., demonstrando a existência de variados conceitos acerca da divindade.

     Encontramos comportamento politeísta entre grandes religiões de origem comum no acidente, com cada uma considerando "possuir" o deus mais forte e mais sábio. Destas divergências de opinião surge a intolerância religiosa, da mesma forma que a intolerância política ou do futebol, chegando à culminância das guerras em nome destes diferentes conceitos de deus.

     Desta forma, pode-se até considerar o monoteísmo vigente no seio dos adeptos de uma mesma religião ou vertente de pensamento, mas existe uma multiplicidade entre as diferentes religiões ou vertentes de pensamento.

     Percebe-se, portanto, que a vivência em acordo com o conceito de Deus apresentado por Kardec no capítulo dois do livro A Gênese, isto é, uma postura pacífica e pacifista perante a vida e os outros, é muito mais adequado do que a crença ou não da existência de Deus, como se tem a possibilidade de se verificar em adeptos de certas vertentes filosóficas.

     Esta abordagem não contradiz com os ensinamentos de Jesus, pois, segundo ele, os mandamentos podem ser resumidos em dois: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito; este o maior e o primeiro mandamento. E aqui tendes o segundo, semelhante a esse: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo". Devido à semelhança dos dois conceitos, alguém somente pode amar a Deus se amar ao próximo, assim sendo, quem ama ao próximo, por definição, também amará a Deus independentemente da sua crença.

     Nos escritos de C. G. Jung disponibilizados há poucos anos no livro conhecido como O Livro Vermelho, encontra-se uma colocação muito interessante e que pode perfeitamente ser entendido à luz dos mandamentos segundo Jesus. Diz Jung: "Ninguém possui meu Deus, mas meu Deus possui a todos, inclusive a mim. Os deuses de todas as pessoas individuais possuem sempre todas as outras pessoas, inclusive a mim mesmo".

     Quando a humanidade chegar à condição de compreender que a interpretação pessoal de Deus deve considerar que Ele ama a todos indiscriminada e independentemente de qualquer outra coisa, será possível, finalmente, contar este como figurando entre os mundos de regeneração.

     Bibliografia

     A. Kardec; A Gênese – Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo; 36ª edição, FEB, [1868] 1995.

     C. G. Jung; O Livro Vermelho - Liber Novus; 2ª edição, Editora Vozes, 2013, pg 155.

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