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Artigo do Jornal: Jornal Janeiro 2016

Sobre o autor

Cláudio Sinoti

Cláudio Sinoti

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            Recentemente, a JAXA, agência espacial japonesa, anunciou a chegada da sonda Akatsuki a Vênus, visando colher informações mais precisas sobre a estrutura e composição da “Estrela d’Alva”, nome pelo qual é chamado o planeta por conta do seu brilho no céu terrestre. Vênus é o nome romano da deusa grega Afrodite, arquétipo do amor, da beleza e da união para os helenos, muito embora sua imagem tenha sido deturpada e limitada ao erotismo em algumas interpretações.

            Alguns meses antes, o robô Curiosity, em um projeto da NASA, apresentou imagens extraídas do planeta Marte, denominação romana para o deus da Guerra, conhecido pelos gregos como Ares. Esse deus é o símbolo arquetípico das forças de destruição, da belicosidade humana, porquanto nas narrativas mitológicas estava sempre nos campos de batalha, independente da causa à qual estivesse a serviço.

            Sem desejar adentrar em interpretações astrológicas ou astronômicas, é no mínimo curioso notar que o ser humano da era moderna também necessite explorar essas duas expressões nele mesmo, o Amor e a Guerra, para poder finalmente considerar-se senhor de sua alma.

            Pelo que se pode constatar na observação dos noticiários diários, a expressão de “Ares” ainda se apresenta de forma significativa. A agressividade ainda é parte expressiva do comportamento humano, demonstrando que ainda somos dominados pelos instintos, nada obstante o desenvolvimento da razão e da inteligência. “Ares” se apresenta no cotidiano das cidades, no trânsito, nos relacionamentos e na violência que se espalha como vírus, veiculada em grande escala e aplaudida muitas vezes como solução para a própria violência que se vive. Programas e expressões de arte, na música, no cinema e na literatura, que deveriam voltar-se ao engrandecimento dos valores e princípios, exploram a tendência doentia ao comportamento destrutivo, e tornam-se best sellers com velocidade impressionante.

            Enquanto isso, os cidadãos costumam reclamar da violência e tentam transferir ao estado a responsabilidade do caos que se apresenta, esquecendo-se muitas vezes de cuidar desse lado sombrio em suas próprias fronteiras emocionais. Não conhecendo a si próprio, desconhecendo as próprias emoções, o indivíduo reage quando deveria agir para modificar os panoramas da realidade terrestre.

            Por outro lado, a nobre expressão do amor muitas vezes é confundida com o erotismo, tal qual ocorreu com a imagem da deusa Afrodite. Derrapando para a sensualidade descomprometida, o ser humano mantém-se vinculado aos instintos quando poderia e deveria dar saltos mais altos, deixando-se conduzir pelo sentimento sublime. Enquanto nos espantamos com a crescente capacidade humana de explorar o sistema solar, desvendando enigmas do Universo, ficamos a nos perguntar quando é que, ao lado das conquistas da ciência e da tecnologia, finalmente teremos a capacidade de explorar o nosso mundo íntimo, vasculhando a sombra que ainda predomina em nosso comportamento e fazendo despertar a força do amor, a única capaz de curar os males que se apresentam no indivíduo e na sociedade. Exemplos para tal não faltam, na vida dos grandes expoentes religiosos como Buda, Francisco de Assis, Madre Teresa de Calcutá, dentre outros, assim como nos anônimos que todos os dias se vinculam com compaixão e solidariedade ao próximo, tornando mais amenas suas dores e o mundo um lugar melhor para se viver. Não é à toa que o maior desses exemplos, o Mestre Jesus, nos conclamou a amar em profundidade, pois de nada valeria ganhar o mundo e perder a alma.

            Esse momento que vivemos na era moderna nos faz recordar a poesia de Carlos Drummond de Andrade, que em sua pena inspirada nos apresentou: “...Vamos para Marte – ordena a suas máquinas. Elas obedecem, o homem desce em Marte, pisa em Marte, experimenta – coloniza – civiliza – humaniza marte com engenho e arte. Marte humanizado, que lugar quadrado. Vamos à outra parte? Claro – diz o engenho sofisticado e dócil. Vamos a Vênus. O homem põe o pé em Vênus, vê o visto – é isto? ...Restam outros sistemas fora do solar a colonizar. Ao acabarem todos só resta ao homem (estará equipado?) a dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo: pôr o pé no chão do seu coração. Experimentar, Colonizar, Civilizar, Humanizar o homem, descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas a perene, insuspeitada alegria de com-viver”.[1]


[1] Trecho do poema “O Homem; as Viagens”, de Carlos Drummond de Andrade

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