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Artigo do Jornal: Jornal Abril 2016

Sobre o autor

Cláudio Sinoti

Cláudio Sinoti

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É difícil entender, em uma visão superficial, porque os aflitos e os que choram são bem-aventurados, conforme a proposta que Jesus apresenta no Sermão da Montanha. O sofrimento, a aflição e tudo que os acompanha não são normalmente bem vistos. Ninguém gosta ou deseja sofrer, a não ser que seja masoquista, e o que se preza, de uma forma geral, é poder fruir prazer e bem-estar. Qualquer sensação desagradável aos sentidos é comumente rejeitada.

Por outro lado, a ventura, no sentido de bom “destino” ou de sorte, é normalmente atribuída àqueles aos quais a vida parece conceder mais facilidades, que dispõem sem muito esforço do que desejam. Em muitas culturas modernas é comum valorizar-se os de berço de ouro, os que têm ampla exposição na mídia, mesmo os de costumes exóticos, os de poder de consumo etc. Na ótica do ego, esses seriam os bem-aventurados, aqueles a quem a sorte alcançou.

Por que, então, Jesus propõe que os aflitos e os que choram são bem-aventurados?

Temos que entender que as propostas de Jesus transcendem o olhar do ego, e partindo de uma visão ampla, da alma ou Self, Ele nos apresenta o convite para observar a vida sob prismas que normalmente não atentamos, pois se perdermos de vista esses aspectos limitaremos nossa jornada.

Por conta disso, na tentativa de encontrar “bem-aventurança” na aflição somos convidados a observar o sofrimento e suas consequências além dos seus efeitos imediatos, para poder conseguir verificar o “ganho” que pode ser alcançado quando se vive circunstâncias aflitivas. Isso nos remete à busca de um sentido por trás da aflição.

Para compreender as bem-aventuranças é importante entender que a vida tem um propósito, um sentido profundo, e que o sofrimento que nos aflige é um dos mecanismos desse propósito maior. 

Quando o sofrimento decorre da má utilização dos recursos que a vida nos coloca ao alcance, seja decorrente de existências passadas ou da atual, nos ajuda a corrigir o curso existencial, alertando para a forma como não devemos nos conduzir. Quando conseguimos perceber o sofrimento dessa forma, nos damos conta do seu aspecto bem-aventurado. Fora isso, ocorre ainda na condição de mecanismo da vida e a serviço dela, impulsionando-nos à plenitude. Por isso mesmo deve ser bem aproveitado, bem vivido, no sentido de extrair dele as preciosas lições que a vida nos traz.

Grande parte da aflição que nos atinge proveem das escolhas equivocadas que fazemos. E se isso ocorre, temos que aprender a fazer escolhas, amadurecer, sair da superfície para perceber a profundidade da vida. Ao mesmo tempo, temos que nos dar conta que a intensidade que sofremos depende da nossa estrutura: emocional, psicológica e espiritual, sendo o nosso trabalho burilar a personalidade para enfrentar os eventos perturbadores, munindo-se de valores e ferramentas para o fazer com consciência. Quando assim fazemos, e conseguimos encontrar “bem-aventurança” no sofrimento que passamos, somos consolados.

Sem a pretensão de abarcar todo o sentido que Jesus se refere, podemos encontrar algumas pistas na etimologia da palavra. No latim Con estar com Solus inteiro. Daí depreendemos: estar inteiro com as experiências que a vida nos apresenta. Isso nos remete a um sentido psicológico profundo, porquanto quando estamos divididos, abrimos espaço ao conflito, mas quando estamos inteiros, a nossa percepção se amplia. Talvez por isso o sábio Confúcio já nos ensinasse: onde quer que vás, vá todo, e leva junto o teu coração...

Jesus, portanto, na condição de sublime psicoterapeuta, apresentou um hino de esperança aos sofredores de todos os tempos. Ao assegurar a transitoriedade dos fenômenos aflitivos, nos convocou a viver com consciência cada experiência da vida, que mesmo contendo sua carga de sofrimento, trazem consigo os aprendizados necessários para a conquista da plenitude, o Reino dos Céus no interior de cada indivíduo. E os que alcançam esse estado da alma, mesmo quando sofrendo, são bem-aventurados.

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