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Artigo do Jornal: Jornal Julho 2016

Sobre o autor

Iris Sinoti

Iris Sinoti

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Sendo a proposta de Jesus a construção de um Reino no interior de cada alma humana, um dos desafios que temos para instaurá-lo em nosso mundo íntimo é cuidar das partes que se encontram enfermas, contaminadas pela perspectiva limitada do ego, e que promovem o distanciamento de uma percepção e vivência mais profundas da existência.

Imaginemos que cada um daqueles com os quais Jesus manteve contato seja uma parte nossa, e que necessita passar por um processo de transformação para finalmente consiga se libertar. Se formos sinceros conosco, é bem provável que encontremos aspectos que se comportam tais quais...

       Cegos - Se a cegueira física não permite enxergar, o olhar limitado tolhe a noção da vida, e nos conduz a escolhas equivocadas. A nossa ignorância, assim como o estado de consciência de sono, fazem com que vejamos a vida sob as limitadas lentes existenciais. A cegueira da alma pode provir da prisão dos desejos, da vontade de poder, do orgulho, da ganância e de tantos outros condicionamentos que embaçam nossa percepção. Para resgatar a visão da alma é necessário um constante trabalho de auto-observação, de autopercepção, através do qual passamos a analisar as nossas atitudes, pensamentos e ideais, e adequá-los aos nossos objetivos existenciais. Somente um olhar profundo sobre si mesmo libera o ser da cegueira existencial que atinge um número expressivo de seres.

       Surdos É provável, no entanto, que não estejamos com os sentidos atentos aos chamados da vida. O “olhar” limitado costuma caminhar ao lado da “surdez” no sentido psicológico, pois o ego resistente não deseja transformar-se, e costuma projetar nos outros toda a sorte de problemas que acontecem em sua vida. Quando treinamos nossos sentidos, verificamos que os apelos da vida à transformação ocorrem a todo instante, bastando “ter ouvidos” para escutá-los, mas principalmente seguir o comando do que a alma nos pede. O problema é que muitas vezes estamos ocupados com tantos barulhos exteriores que esquecemos de escutar a própria alma. Resgatar a dimensão da percepção dos sentidos é condição essencial para construção do Reino.

       Paralíticos A pior paralisia não é a física, mas aquela que escraviza nossa vontade. A vontade, a disciplina e a persistência são forças/atitudes essenciais para qualquer processo de transformação. Se não envolvemos energia e se não colocamos vontade nas nossas ações, a vida se paralisa. Na dinâmica psíquica é por isso que surgem as crises, porquanto resultam da necessidade da nossa transformação. 

       Publicanos a nossa parte “publicana” é aquela que cobra do outro sem que faça a própria parte, que lhe cabe por responsabilidade. Muitas vezes isso deriva do orgulho, pois aquele que se sente especial, superior aos outros, transfere a outros ombros a parte que lhe cabe no esforço. O trabalho é dinâmica da vida, e todo aquele que desenvolve relações de dependência transforma-se em um peso para alguém do seu campo de relações, e até mesmo para a sociedade.

       Leprosos se a lepra no corpo corrói a pele e os órgãos, a lepra da alma provém da falta de valores ético/morais. No tempo de Jesus, os leprosos eram excluídos do “Livro dos Vivos”. A lepra da alma faz com que o ser torne-se tão estranho a si mesmo que constrói uma máscara, uma persona na convivência social, distante da real personalidade do ser. A grande crise que vivemos hoje tem base na crise de valores, e que faz com que cada um pense por si, esquecendo-se que no concerto universal temos direitos e responsabilidade, e que toda vez que ultrapassamos os limites éticos alguém sai prejudicado.

Se Jesus se aproximava e privilegiava esses sofredores, àquele tempo, já é o momento de fazermos esse movimento interno. Aproximar o nosso Cristo interior de todos os aspectos enfermos do nosso ser, deixando que a luz da consciência finalmente brilhe. 

Para que isso aconteça, é precioso atentar no ensinamento do Mestre a Tiago, na pena poética de Amélia Rodrigues:

O Reino de Deus concluiu o Mestre está dentro de cada um que o deseje. Não é trabalho externo, antes resultado do excelente labor anônimo e sacrificial nas noites de silêncio, nos dias de angústia e dor libertadora. Ninguém o verá, e esse herói, aquele que o conseguir realizar, não receberá aplauso, passando entre os homens desconsiderado, incompreendido, malsinado, todavia em paz consigo mesmo e em harmonia com Deus...”i


i Amélia Rodrigues (Divaldo Franco). Luz do Mundo. Leal Editora

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