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Sobre o autor

Cláudio Conti

Cláudio Conti

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       Perfeição e imperfeição são termos que somente fazem sentido quando empregados para fins comparativos, isto é, o perfeito somente o é quando comparado com o imperfeito e vice-e-versa. Na ausência da polaridade, em um estado único de existência, não se concebe qualquer tipo de  comparação.

       Similarmente, as expressões “bem” e “mal” são utilizadas para expressar dois polos de um sistema desenvolvido para o entendimento de criaturas cuja existência é definida pela polarização, tal como dia e noite, claro e escuro, passado e futuro, sendo possível uma gradação infinita entres os extremos que, muitas vezes, não é sequer percebida.

       Pode-se, então, supor que a humanidade da Terra apenas é capaz de elaborar pensamentos baseados em sistemas comparativos, encontrando dificuldades de compreender conceitos absolutos. Este padrão mental é ainda tão forte e proeminente que imprime sua característica na própria estrutura material em que se expressa – o universo não é absoluto, mas relativo.

       Tempo e espaço eram considerados como sendo absolutos pela Mecânica Newtoniana, mas estes conceitos foram substituídos pela Teoria Quântico-Relativista que descreve o universo material de forma mais realista. Em artigo intitulado Espaço Universal, publicado no jornal Correio Espírita em agosto de 2014, foi discutida a distinção entre o Universo Criado por Deus, o qual podemos considerar como absoluto, e o universo estruturado pelos espíritos constituído por pólos distintos permeando toda a estrutura.

       Em O Livro dos Espíritos encontra-se valiosa informação sobre o tema principal deste artigo. Na questão 120 tem-se o seguinte: Todos os espíritos passam pela fieira do mal para chegar ao bem? Tendo como resposta: “Pela fieira do mal, não; pela fieira da ignorância”. 

       Observa-se, pela resposta apresentada, que a experiência do mal em si, como apresentado anteriormente, por não ser um necessidade fundamental, é um fator relativo e que está relacionada com o entendimento. Aquilo que é considerado como bem e mal se altera conforme a época e os costumes. Todavia, pode-se pressupor que a ignorância seja um fator absoluto por se tratar de uma condição fundamental para o espírito e que estaria em contraposição com a onisciência creditada à Deus.

       Diante do exposto, poder-se-ia dizer que a imperfeição também seria um fator absoluto pela contraposição à perfeição de Deus. Contudo, a análise deve ser outra, pois encontra-se, no livro A Gênese, no Capítulo III – Item 1, importante análise de Kardec sobre a divindade: “Sendo Deus o princípio de todas as coisas e sendo todo sabedoria, todo bondade, todo justiça, tudo o que dele procede há de participar dos seus atributos, porquanto o que é infinitamente sábio, justo e bom nada pode produzir que seja ininteligente, mau e injusto."

       Pela terminologia utilizada por Kardec para descrever Deus, dentro das limitações a ele impostas pela linguagem e conhecimento compatível com um mundo de expiação e provas,  verifica-se que tenta Lhe atribuir características absolutas, pois os termos “todo" e “infinitamente" definem um grau máximo de qualidades. Sendo Deus único, não há meios de comparação, portanto, não pode ser relativo e ao qual o espírito não pode ser comparado.

       Outro ponto importante, ainda neste mesmo segmento de texto extraído do livro A Gênese, é que tudo quer Deus faz compartilha, de alguma forma, de seus atributos. Assim, sendo o espírito Sua Criação, há de trazer em sua essência, as características da divindade. Sob certo aspecto, esta abordagem pode ser conflitante.

       Ainda em outro artigo, intitulado Espírito, publicado em abril 2014, no mesmo jornal citado anteriormente, apresentou-se uma abordagem do espírito como sendo uma estrutura com funções, assim, pode-se estabelecer a distinção entre estrutura e conteúdo.

       A estrutura, Criação de Deus, compartilha de seus atributos, contudo, enquanto conteúdo (material psíquico) é preciso evoluir, pois, caso fosse atribuído conteúdo no processo de Criação, não haveria diversidade, mas produção em massa de “produtos" iguais em todos os sentidos.

       Assim, para haver diversidade de gostos e interesses, é necessário que o conteúdo seja elaborado paulatinamente, fundamentado em experiências e aprendizados, desenvolvendo interesses, gostos e preferências, estabelecendo uma teia de relações com cada um contribuindo para um todo, preenchendo vacâncias e sugerindo alterações para o aprimoramento desta mesma teia como um todo dinâmico e pulsante.

       O ponto de partida para um desenvolvimento pessoal para o indivíduo, mas decorrente da dependência relacional da totalidade, somente pode ser a falta de conteúdo que é denominada de “ignorância” - condição fundamental para o espírito.

       Bem e mal são escolhas decorrentes do livre arbítrio, pólos de um comportamento relacional inadequado que um dia desaparecerá, ao passo que a ignorância é um estado do espírito que sempre se manterá, pois o espírito criado não poderá alcançar a onisciência do seu Criador.

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