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Artigo do Jornal: Jornal Outubro 2016

Sobre o autor

Cláudio Conti

Cláudio Conti

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Para muitos espíritos, sendo incapazes de compreender questões atemporais, é mais viável entreter uma visão fatalista e, com isso, consideram a condição de espírito puro como a etapa última deste processo ou, dependendo da vertente de pensamento, consideram que a condição que se encontrarão no futuro será determinada no momento da morte do corpo físico. Contraditoriamente, há a aceitação, com relação à própria existência do espírito, de que haveria um início o momento da Criação sem que, com isso, haverá um término.

       Em outras palavras, ao mesmo tempo em que se considera a existência de um processo com um final, também se crê em um processo associado ao primeiro no qual não existiria um fim.

       Esta contradição pode ser explicada pelo anseio tanto da felicidade quanto da imortalidade. Na visão espírita, o conceito de espírito puro está atrelado à condição de felicidade plena e, em mundos de expiações e provas, apenas a transitoriedade das coisas já é motivo de sofrimento em decorrência do apego nas suas mais diversas expressões1.

       Ainda sob uma análise temporal, não sendo possível alcançar a perfeição absoluta, condição exclusiva de Deus, o processo evolutivo para o espírito não deve ter um fim. Sob este prisma, o espírito sempre vivenciará a transitoriedade das coisas, isto significa que seu universo se manterá em constante mudança.

       Desta forma, o que caracterizaria um espírito em sua origem, isto é, no “momento da sua Criação” e a condição de espírito puro? Deus, em sua infinita bondade, o verdadeiro Pai, tal como Jesus O apresentou, criaria espíritos infelizes para alcançar a tão almejada felicidade apenas após um processo extremamente longo?

       Deus e espíritos, enquanto tais, não estariam sujeitos ao tempo, a sujeição observada é uma condição em que se encontram espíritos com características bem específicas, tais como aquelas compatíveis com um mundo de expiações e provas. Portanto, uma avaliação temporal para o processo evolutivo conduzirá, forçosamente, à limitações de análise e de entendimento.

       Abstraindo-se da interpretação em que o tempo permeia todos os fenômenos e processos, a evolução espiritual pode ser analisada sob a premissa de condição em que o espírito se encontra, e não em termos de idade. Nesta abordagem, a felicidade pode sempre ser vivenciada, independentemente do nível em que se encontre na escala evolutiva.

       Em O Evangelho Segundo o Espiritismo consta uma mensagem intitulada “A Felicidade Não é Deste Mundo”2 que é, infelizmente, muitas vezes difundida como não sendo possível, aos habitantes do planeta Terra, alcançar estados de felicidade.

       François-Nicolas-Madeleine, autor do texto citado, não se refere à fatalidade de uma existência infeliz, muito pelo contrário, ele apenas relata os procedimentos equivocados, comumente adotados pelos encarnados, na busca da tão sonhada e propalada felicidade; deixa claro que o ponto principal, o motivo de tantos desenganos, é o desconhecimento da real necessidade do espírito ao dizer: “o em que consiste a felicidade na Terra é coisa tão efêmera para aquele que não tem a guiá-lo a ponderação, que, por um ano, um mês, uma semana de satisfação completa, todo o resto da existência é uma série de amarguras e decepções”2.

       Após estas considerações e na busca de respostas para as perguntas apresentadas anteriormente, pode-se chegar a algumas ilações interessantes sobre o tema em análise:

1. Na sua origem, na condição de simples, pode-se supor que o espírito seja despojado de desejos e interesses pessoais. Se reconhecendo como parte integrante de um sistema Divino em decorrência das Leis estarem gravadas em sua consciência3, sente que necessita se comportar como parte mantenedora da saúde do sistema, ciente que deste mesmo sistema também depende sua própria saúde;

2. Um espírito elevado, que atingiu certo grau de perfeição, se reconhece como parte da Criação, sabedor dos seus deveres para com o objetivo da Criação;

3. Nestes dois, por assim dizer, extremos, pode-se supor que exista a diferença sobre o alcance da visão e do entendimento do que significa ser “filho de Deus”, todavia, há equivalência daquilo que se almeja e dos meios utilizados. A estrutura mental de ambos se ocupa com conteúdos equivalentes que, por serem salutares, mantém o equilíbrio e saúde mental, conduzindo à felicidade nos dois casos;

4. Para espíritos compatíveis com um mundo de expiações e provas, nos quais os conteúdos mentais são “contaminados” com interesses incompatíveis com o objetivo da Criação, a felicidade pode ser impossível quando se considera a coletividade como um todo. Todavia, o espírito, enquanto individualidade, deve trabalhar pela conquista da própria felicidade ainda neste mundo.

Notas bibliográficas:

1. Divaldo Franco (Joanna de Ângelis); Plenitude; Livraria Espírita Alvorada Editora; 9a. edição; pg. 22.

2. Allan Kardec; O Evangelho Segundo o Espiritismo; Cap. V - item 20.

3. Allan Kardec; O Livro dos Espíritos; Questão 621.

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