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Artigo do Jornal: Jornal Dezembro 2016

Sobre o autor

Cláudio Conti

Cláudio Conti

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       Os conceitos de alma e de espírito se confundem e, ao final, parece se tratar da mesma coisa. Contudo, certas nuances que podem ser observadas conduzem à conclusão de que o objeto de avaliação é o mesmo, porém, as condições em que pode se encontrar são distintas.

       Verifica-se que Kardec foi muito cuidadoso em seus questionamentos a este respeito e, pode-se dizer, até certo ponto, insistente. Pode-se supor que o Mestre Lionês estava ciente da necessidade de projetar alguma luz sobre os cantos que permaneciam na obscuridade. Assim, alma e espírito foram abordados nas seguintes questões1:

 

134. Que é a alma?

“Um espírito encarnado”.

 

134. a) Que era a alma antes de se unir ao corpo?

“Espírito”

134. b) As almas e os espíritos são, portanto, idênticos, a mesma coisa?

“Sim, as almas não são senão os espíritos. Antes de se unir ao corpo, a alma é um dos seres inteligentes que povoam o mundo invisível, os quais temporariamente revestem um invólucro carnal para se purificarem e esclarecerem”.

       Das três questões transcritas, verifica-se a equivalência entre alma e espírito como sendo uma e única coisa. Somente quando se encontra no estado de “alma”, o espírito cria/desenvolve/elabora um corpo material – o corpo de carne. Contudo, em se tratando de alma, surge, ainda, um outro componente, aquilo que os espíritos responsáveis pela Codificação Espírita denominaram de “laço”, que liga a alma ao corpo. Este laço, dizem, é necessário para que haja comunicação entre os dois extremos, por assim dizer. Esta comunicação deve ser vista, conforme afirmado, como uma via em dois sentidos, assim, a informação flui tanto do espírito para o corpo, quanto do corpo para o espírito2.

       Em comentário à estas respostas, Kardec explica a posição relacional, não necessariamente espacial, deste laço utilizando-se das partes constituintes de um fruto. Assim, denomina de “perispírito” em comparação com o perisperma de um fruto3, que faria a ligação entre a semente, na parte mais interna, e a casca, a parte mais externa. No livro A Gênese, Kardec reforça o mesmo conceito ao dizer que o perispírito é "o veículo da transmissão do pensamento e, durante a vida do corpo, serve de laço entre o espírito e a matéria”4.

       Contudo, ao desencarnar, o espírito mantém o seu perispírito; nesta condição não haveria a necessidade de ligação com um corpo mais denso. Onde, então, o laço? Qual seria o seu funcionamento?

       Obviamente que muito ainda há para se descortinar no que concerne o espírito e as formas possíveis para se expressar na matéria. Todavia, alguma ilações são possíveis, visando o aprimoramento do entendimento.

       No processo encarnatório, verifica-se um processo, ou propriedade, peculiar do perispírito. Nas palavras de Kardec: "Quando o espírito tem de encarnar num corpo humano em vias de formação, um laço fluídico, que mais não é do que uma expansão do seu perispírito, o liga ao gérmen que o atrai por uma força irresistível, desde o momento da concepção. À medida que o gérmen se desenvolve, o laço se encurta”5.

       O corpo físico é suscetível a mudanças ao longo da vida. Pode-se citar, como por exemplo, as numerosas transformações com a chegada da puberdade, período em que ocorre a ativação de processos que permanecem latentes até o momento oportuno, decorrente de processos precedentes que estabelecem as condições propícias e necessárias para o amadurecimento do corpo. Assim, o corpo físico é um todo dinâmico em constante mudança, dependendo da situação e condição em que se encontrar.

       Similarmente, pode-se interpretar o perispírito: um todo dinâmico em constante mudança. Uma destas mudanças é uma espécie de “amadurecimento”, decorrente de processos precedentes, que conduzirão à certas condições que demandarão a formação de uma “casca" ou “camada" mais densa ao seu derredor. Por “derredor" deve-se entender como uma componente relacional, como dito anteriormente, e não necessariamente espacial.

       A transformação ocorrida no perispírito quando chegado o momento de nova experiência na carne, conduzirá, ou ativará, a formação do laço, um espécie de força que gerencia a formação do corpo físico.

       Em processo inverso, no caso da desencarnação, ocorrerá uma nova transformação perispiritual que conduzirá à cessação das forças relacionadas com o laço, tal como ocorre na idade mais avançada em que glândulas ativadas na puberdade, são, por assim dizer, desativadas e deixam de produzir certos hormônios.

       A dificuldade encontrada pelos espíritos, nos casos de suicídio, pode ser interpretada como tendo a desencarnação ocorrida antes de que a transformação necessária do perispírito tenha ocorrido. As forças relacionadas com o laço continuam ativas, mas não encontram a contrapartida carnal, conduzindo aos mais diversos desajustes.

       Importa ressaltar que os casos de suicídio não são todos iguais, havendo atenuantes e agravantes, dependendo da situação6. O mesmo princípio pode ser aplicado às mortes violentas.

       Por fim, os termos "alma" e "espírito" corresponderiam à etapa de desenvolvimento do ser, o qual será impresso no perispírito, tal como infância, puberdade, madureza são etapas no desenvolvimento humano que correspondem ao estado do corpo físico.


Notas bibliográficas:

  1. Allan Kardec; O Livro dos Espíritos.
  2. ___; O Livro dos Espíritos; 135 e 135a.
  3. ___; O Livro dos Espíritos; Comentário à questão 135.
  4. ___; A Gênese; Cap. I.
  5. ___; A Gênese; Cap. XI.
  6. ___; O Evangelho Segundo o Espiritismo; Cap. V.
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