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Artigo do Jornal: Jornal Janeiro 2017

Sobre o autor

Cláudio Conti

Cláudio Conti

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       Materialismo e religiosidade são, a princípio, duas vertentes opostas no modo de encarar a vida. Sendo polos distintos, fica a seguinte questão: O materialismo é sempre ruim e a religiosidade é sempre boa ou vice-versa, dependendo do ponto de vista?

       Percebe-se, nos dias atuais, em decorrência da quantidade de informação e da disponibilidade de ampla possibilidade de debates, que não se pode avaliar questões como esta de forma tão simplista. Em tempos idos, os debates mais complexos permaneciam no seio dos intelectuais apenas, aos quais a população comum não tinha muito acesso e/ou capacidade de entendimento.

       Kardec questiona os espíritos sobre o materialismo e, além disso, apresenta uma avaliação pessoal. Diz ele que a ideia materialista atribui toda importância às propriedades da matéria e, com isso, a morte seria a aniquilação do próprio pensamento1.

       Contudo, Kardec continua sua colocação dizendo que o bem e o mal perderiam significação, conduzindo o homem a pensar unicamente em si mesmo e na satisfação de seus interesses pessoais. Diz, ainda, que esta posição era, à sua época, muito circunscrita, constituindo apenas opiniões individuais1.

       Assim, segundo o Codificador, as instituições não estariam subjugadas à doutrina materialista e, portanto, não representava grande ameaça. O materialismo, assim como qualquer vertente de pensamento equivocada, enquanto individual e localizada, não necessariamente causa malefícios à coletividade.

       Amit Goswami, físico e renomado autor de vários livros em que correlaciona a física quântica com temas espirituais, reconhece que a visão materialista adotada pela ciência acadêmica atual já impregnou, por assim dizer, as instituições sociais2.

       Qual seria o fundamento de tantos problemas que podem ser gerados pelo materialismo quando toma dimensões mais amplas? Afinal, tendo como foco a matéria em si e os gozos dela decorrentes, por que não busca, o homem, o bem estar social, mesmo que materialmente falando? Seria a religiosidade realmente a salvação para a sociedade atual?

       Em um passado não muito distante, o “mundo ocidental” vivia sob as diretrizes da Igreja, todavia, o respeito e cuidados aos cidadãos não era o foco principal, inclusive, a própria Igreja foi responsável por um período sombrio na história da humanidade: a Inquisição.

       Atualmente, muitos países são governados por instituições religiosas das mais variadas vertentes e, nem por isso, existe paz, harmonia e bem estar entre seus concidadãos. O que se verifica é que a opressão se mantém de forma muito intensa, onde a liberdade de expressão é completamente cerceada e imposição de comportamento e costumes, muitos ainda bárbaros.

       Mesmo em países que não são diretamente governados por instituições religiosas, verifica-se uma forte tendência em comportamentos de exploração de fiéis e tentativas de imposição de suas doutrinas, inclusive de participação no governo. Muitas delas incitam ao preconceito e, com isso, geram discórdias das mais variadas.

       A vertente materialista se impõe pela força e desrespeito. A vertente religiosa, por sua vez, se impõe pela crença deturpada e exploração da ignorância espiritual da população que não procura esclarecer.

       Em uma observação mais detalhada, percebe-se que o problema fundamental da sociedade atual não se encontra na vertente de pensamento em si, seja ela materialista ou de qualquer uma das religiões vigentes, mas nas tendências morais. O materialismo por si mesmo não conduz aos desvios morais e, por sua vez, a religiosidade por si mesma não conduz à transformação moral.

       Os espíritos responsáveis pela Codificação Espírita dizem que “não é exato que o materialismo seja uma consequência dos estudos científicos conduzidos pelos cientistas. O homem é que deles tira uma consequência falsa, pela razão de lhe ser dado abusar de tudo, mesmo das melhores coisas”3.

        Portanto, extrapolando esta afirmação, pode-se dizer que é o homem que abusa, tanto dos conceitos que conduzem ao materialismo quanto daqueles que conduzem à religiosidade.

       No passado, os conceitos de religiosidade e de espiritualidade se confundiam e eram tomados um pelo outro. Por isso, para o ocidente, a concepção da crença em Deus, por exemplo, somente era entendida quando correlacionada com religião e o mesmo se aplicava aos ensinamentos apresentados por Jesus. Todavia, ambos transcendem à religião. Deus e Jesus já não mais “pertencem" aos religiosos e seus líderes.

       Atualmente, no meio acadêmico/científico, religião e espiritualidade possuem definições distintas. Um bom exemplo são os conceitos apresentados pelo National Cancer Institute (EUA), em que diz: “A religião pode ser definida como um conjunto específico de crenças e práticas, geralmente dentro de um grupo organizado. Espiritualidade pode ser definido como o sentido individual de paz, propósito e conexão com os outros, e crenças sobre o significado da vida. Espiritualidade pode ser encontrada e expressa através de uma religião organizada ou de outras formas”4 (tradução livre).

       Espiritualidade é um estado de ser do indivíduo que transcende as abordagens materiais da vida, incluindo rituais e práticas ditas sagradas apregoadas pelas religiões.

       Assim, pode-se compreender a colocação dos espíritos responsáveis pela Codificação3, pois da mesma forma que o homem pode tirar consequências falsas, também pode tirar consequências benéficas para si próprio e para a sociedade como um todo. Desta forma, fazer o bem ou fazer o mal depende do indivíduo, e não da crença que professa.

 

Notas bibliográficas:

  1. Allan Kardec; O Livro dos Espíritos; comentário à questão 148.
  2. Amit Goswami; O Ativista Quântico; e-book; Prefácio.
  3. Allan Kardec; O Livro dos Espíritos; questão 148.
  4. National Cancer Institute; http://www.cancer.gov/about-cancer/coping/day-to-day/faith-and-spirituality/spirituality-pdq
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