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Artigo do Jornal: Jornal Fevereiro 2017
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Allan Kardec, como bom cientista e homem experiente, compreendia a importância de que cada conceito fosse expresso através do termo apropriado a fim de facilitar o entendimento. Depreende-se esse cuidado do codificador na escrita dos itens I e II da Introdução de O Livro dos Espíritos . Mais adiante, na questão 134, os Espíritos estabeleceram uma diferenciação entre espírito e alma , definindo esta última como "Um Espírito encarnado".

À primeira vista não parece haver tanta diferença entre um e outro, pois a alma continua sendo um Espírito só que agora envolvido num corpo físico. Na prática, porém, há poucas semelhanças, pois o simples fato de participar de um meio material através do organismo biológico desenvolve mudanças graves na expressão, percepção, comunicação e locomoção do Espírito. Podemos imaginar um diálogo mais ou menos assim entre o espírito e a alma.

Espírito - Eu sou o ser essencial, o princípio inteligente, criado por Deus em um momento tal que não consigo decifrar, pois se perde na noite da minha infância como ser existente.

Alma - Eu carrego comigo essa essência, porém sou obrigada a carregar também um organismo pesado, como uma grossa vestimenta que mais parece um escafandro de carne. Existo a partir do instante em que penetro o mundo da matéria arrastada pelo corpo físico.

Espírito - O que eu penso, existe para mim. Meu pensamento é criador, cria a minha realidade íntima e também externa. Possuo a capacidade de exteriorização do pensamento que se concretiza como sendo o mundo objetivo em que vivo e que reflete o que carrego em mim, que pode ser um jogo de luz, de sombra ou os dois juntos.

Alma - Em mim, amigo Espírito, há uma desvantagem e uma vantagem. Desvantagem por que eu perdi esse potencial criador. Bom, pelo menos parte dele. Meu pensar já não consegue criar tanto, mas continua produzindo o mundo subjetivo dos meus sonhos, das minhas lembranças boas ou ruins. Não consigo manipular ao meu gosto os materiais ao meu redor. Pelo menos isso me traz uma vantagem: os desregramentos do pensamento não causam impacto imediato, pois que o material de que é feito o organismo físico serve de abafador do pensamento, de redutor, de isolante entre o pensamento e a realidade externa. Você é o grande ser abaixo de Deus, eu sou simplesmente uma alma.

Espírito - Você é que é feliz, minha amiga, pois as experiências que você produz é que me fizeram ser o que sou. Minhas capacidades desenvolvi graças a você ter se sacrificado bravamente nos recônditos da materialidade, desde as longínquas eras em que o homem ainda perambulava de lugar em lugar à cata dos alimentos das árvores, lutando ferozmente pela sobrevivência de mais um dia junto com a sua prole e o seu bando, passando pelas lutas acerbas de todas as épocas enfrentando variadas experiências para dar desenvolvimento aos germes de inteligência que o Pai plantou.

Alma - Realmente eu vivo em um mundo difícil, buscando arar o solo ingrato do meu ser, à custa de sacrifícios e às vezes de sofrimentos.

Espírito - Você é apontada pelos versos dos poetas, embeleza as letras das músicas, é procurada pelos estudiosos da psique humana, pois que você assim o é, produz o calor humano, ameniza o furor dos descontrolados, pacifica o coração da mãe aflita, alivia o calor das paixões, arrebata o crente mais crente no testemunho da sua fé.

Alma - Isso ocorre, caro irmão Espírito, mas eu só consigo deixar aparecer um laivo daquilo que você é, eu só consigo manifestar uma réstia daquilo que é o princípio inteligente do Universo. A minha comunicação com os outros é lenta, difícil, entremeada de interpretações. Os meios de que me utilizo são limitados, uma boca, dois ouvidos, mãos e todo um arcabouço que para você deve ser muito desengonçado e simplório.

Espírito - É verdade, a minha situação é mais cômoda. Não preciso de órgãos para me comunicar, não preciso de línguas, nem de verbalizações, só preciso entrar em relação com o outro e assim sentir aquilo que ele é, o que deseja, o que venera, a que aspira. Eu consigo perceber não só o que ele pensa, mas também o que sente, o que viveu e o que pretende viver. Além disso, o meu pensamento me transporta por que eu sou "leve". Basta querer e lá estou eu, não importa a distância ou o local.

Alma - Para tudo que eu preciso fazer, o corpo biológico é o meu veículo. Ele ainda se arrasta pelo solo para se locomover, torna lentos os meus passos e ainda, devido à sua densidade ele gasta muita energia e se desgasta facilmente. O Criador dos mundos, entretanto, como Pai bondoso, deu-me todas as noites a possibilidade de ir me retemperar nesse mundo em que você vive. Liberto-me provisoriamente do corpo de carne e vou ter com os meus. Aproveito para viajar na velocidade do raio e vou a mundos distantes enchendo-me de saudades e de uma certa melancolia quando aqui aporto novamente pela manhã, quando o meu corpo desperta do sono em que ele se refaz.

Espírito - Nesses momentos alma e espírito tornam-se quase um só, você quase se iguala a mim. Quase por que você ainda se mantém ligada a esse corpo que é o seu fardo e o seu professor.

Alma - O magnetismo é o que estabelece essa ligação. Eis uma grande diferença entre eu e você. Quando eu toquei esse corpo pela primeira vez algo aconteceu. Um mecanismo foi disparado fazendo com que a energia vital da natureza transmitisse a minha vida para ele. O que poderia ser apenas um aglomerado de células tornou-se orgânico. O corpo tomou vida enquanto eu me tornei cativo dele. As minhas sensações são aquelas que o meu grilhão consegue ter. Tão limitadas! E tantas vezes acabo me rendendo e amando essas sensações! Já você, meu irmão, que sensações deve experimentar com a sua liberdade!

Espírito - Eu não tenho como traduzir numa linguagem que você entenda, querida alma, as sensações com as quais eu convivo, que perpassam o meu ser, que invadem o meu íntimo. As alegrias são mais fortes, pois que não tenho um corpo amortecendo-as. Do mesmo modo, as tristezas perfuram o meu ser fortemente quando eu me deixo por elas levar.

Alma - Você é mais sensível que eu. Em mim, tanto as impressões boas quanto ruins são abrandadas pelo meu instrumento grosseiro de aprendizado. Isolada aqui na matéria, eu me sinto às vezes numa corda bamba prestes a cair nas tentações e nos arrastamentos a que o corpo me submete. Felizmente, de vez em quando eu me comunico com você, Espírito, nos momentos de reflexão, de introspecção, de emancipação. Assim eu posso beber da sua sensatez. Você me faz lembrar dos meus compromissos, você que é muito mais antigo que eu, de uma vastidão muito maior que a minha. Desses contatos eu sempre volto pensativa. Às vezes esses encontros me fazem sofrer, quando eu percebo que não estou fazendo como deveria. Você alerta a minha consciência e isso às vezes dói, quando eu não estou seguindo o caminho que você traçou para mim.

Espírito - Este é o meu papel, pois é de meu interesse que você consiga realizar todo o planejamento. Só assim eu posso crescer, armazenar conhecimentos e refinar os meus sentimentos. A você eu sou muito grato, alma amiga, pois é através das suas lutas e sacrifícios que eu me purifico.

Alma - Eu sou a sua projeção aqui na Terra, sou uma das suas faces moldada pelo meio em que habito e por tudo que eu vivo. Ao retornar em definitivo para o Mundo Espiritual me somarei aos milhares de experiências que você acumulou durante sua existência. Sei que assim serei mais feliz, mas enquanto aqui estiver, valorizarei cada dia, cada instante até que eu aprenda a submeter esse corpo que por enquanto é mais forte que eu.

Espírito - Assim será, pois do teu esforço sairás límpida da Terra e serás mais um personagem por mim vivido, acumulando luz num progresso sem fim.

 

***

Se pudéssemos comparar, a alma representa a persona, a máscara, o personagem vivido no grande teatro da vida. O Espírito é o ator que se expressa de maneiras diferentes a cada peça em que atua. O autor é Deus, que dispôs para nós os cenários, as vestimentas e tudo o mais que é necessário ao enredo da vida, deixando que atuemos com liberdade de expressão, mas respondendo sempre por aquilo que fizermos.

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