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Artigo do Jornal: Jornal Janeiro 2018

Sobre o autor

Djalma Santos

Djalma Santos

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Há alguns séculos, vivia na cidade de Roma um milionário excêntrico, dono de um castelo, muitas terras, ouro, prata e um acervo de obras sacras de incalculável valor – originais e réplicas da Igreja Católica Apostólica Romana, de quem era devoto fiel e, por isso, sentia-se orgulhoso em possuir quase todas as peças constantes do acervo religioso conhecido naquele tempo.

       Esse Conde milionário era amigo dos religiosos que serviam no Vaticano, cardeais, arcebispos, bispos, padres e até mesmo o papa, que já o recebera várias vezes na Capela Sistina, onde semanalmente participava de reuniões com os membros da Igreja. Doava quantias enormes para as obras sociais sob a responsabilidade dos sacerdotes, angariando diuturnamente a simpatia e o respeito pela sua pessoa.

       Em uma das reuniões de que participou certo dia, o assunto acabou caindo sobre obras sacras da Igreja e ele aproveitou para se vangloriar de que tinha praticamente quase todas as relíquias da Igreja de Roma, no que foi contestado por um arcebispo que indagou se ele tinha o “cálice de ouro”, no qual, segundo a própria Igreja, Jesus havia tomado vinho na ceia de Natal com os Apóstolos, o que se imortalizou como a lenda do Santo Gral. O milionário coçou a cabeça, matutou e respondeu:

 

- Essa peça, infelizmente eu não tenho, mas nem mesmo sabemos se ele existe!

- Claro que existe, disse o Arcebispo, e está em algum lugar do mundo, numa igreja, num museu, num santuário; é só procurar.

 

       A reunião terminou e o Conde milionário voltou para casa totalmente transtornado, com a ideia fixa de que precisava encontrar “o cálice de ouro”, que dera origem à lenda de Santo Gral. Segundo a tradição da Igreja Católica, Jesus o utilizara para tomar vinho com seus apóstolos na ceia de Natal.

O Conde reuniu seus familiares numa grande sala do castelo, aos quais comunicou que faria a partilha dos seus bens materiais, deixando a metade com esposa e filhos, inclusive o castelo, e a outra parte transformaria em dinheiro vivo, pois faria uma grande viagem à procura do “cálice de ouro”.

       Feitas as escrituras legais de divisão, ele partiu em busca do objeto sagrado, começando pela própria Roma, que tem dezenas e dezenas de igrejas, e o objeto poderia estar em uma delas; porém, depois de dois anos, nada foi encontrado, fazendo com que ele partisse para o interior da Itália, onde centenas de igrejas, museus e outras instituições fossem revirados, sem no entanto encontrar a preciosidade. Sete anos haviam decorridos, e nada do Cálice. Resolveu, então, procurar em outros países católicos, como Portugal e Espanha, onde certamente poderia estar.

       A equipe que o acompanhara, de início, o abandonara; o dinheiro havia acabado, e só lhe restava trabalhar para sobreviver em país estranho e tentar encontrar o objeto de sua predileção. Possuindo uma cultura ímpar e falando várias línguas, não foi difícil encontrar trabalho, afim de dar continuidade a sua busca implacável pelo cobiçado objeto. Percorreu Portugal, Espanha, França, Inglaterra e agora estava na Rússia, onde a temperatura marcava vinte graus abaixo de zero.

       Vinte anos se passaram desde que saíra de seu Castelo em Roma, e agora estava idoso e não podendo mais trabalhar; tornou-se um mendigo, morando debaixo das marquises e pontes, mas em nenhum momento deixou de procurar o Cálice, liderando dezenas de deserdados da sorte, formando uma comunidade fraterna, onde tudo que era amealhado era dividido em partes iguais entre aqueles sob o seu comando.

       Formado em medicina, conseguiu maleta de primeiros socorros e atendia os companheiros de infortúnio, minimizando as dores e pregando o evangelho, já que possuía formação religiosa, agora colocada em prática. E de certo modo sentia-se feliz: pela primeira vez, fazia a felicidade dos outros. Até que, certo dia, sentiu uma saudade incrível de seus familiares, e resolveu voltar. Pegou carona, andou a pé, percorreu vales e montanhas, cidades e mais cidades, chegando à sua Roma, quando era noite de Natal!

       A sua cidade estava enfeitada para a noite de Natal; as pessoas andavam apressadas carregando embrulhos; mães puxando seus filhos pelos braços; luzes feéricas brilhavam nas vitrines enfeitadas, e ele se arrastava carregando um saco sujo às costas, aproximando-se finalmente do portão principal do seu Castelo, que ele abandonara anos atrás, para ir em busca do “cálice de ouro”, do qual originou a lenda do Santo Gral.

       Estava distraído, olhando para o Castelo todo colorido e enfeitado com luzes brilhantes, como sempre acontecia em noites de Natal, quando ouviu uma voz atrás de si que dizia:

- Companheiro, os donos do Castelo não gostam de mendigos, e certamente vão soltar os cães; venha comigo até um regato um pouco abaixo, e lhe darei um pedaço da pão que ganhei. Virou-se e deparou com um mendigo, o qual lhe fez sinal para que o acompanhasse até o regato.

       Desceram por uma escada de pedra, por onde tudo era dele, pertencia a ele, e sua família certamente o receberia de braços abertos; mas engraçado, não sentia a menor vontade de entrar no Castelo, e sim comer o pedaço de pão do novo companheiro, depois beber água no regato de águas cristalinas que ele tão bem conhecia. Chegando ao pequeno riacho, o novo companheiro tirou do saco sujo um pedaço de pão que ele comeu, e em seguida tirou uma caneca velha e enferrujada, a qual encheu de água, dando-lhe de beber.

       O Conde milionário, agora mendigo em suas próprias terras, bebeu a água da caneca enferrujada e adormeceu profundamente. No outro dia, foi encontrado o corpo de um mendigo à beira do riacho, morto possivelmente de frio, como acontece todos os anos em Roma, onde a temperatura pode chegar abaixo de zero, sendo enterrado como indigente; mas um detalhe chamou a atenção das autoridades: o mendigo morto segurava, em uma das mãos, uma caneca de ferro, e por mais que tentassem não foi possível retirar de sua mão a vasilha, sendo enterrado com a caneca na mão.

Seria mesmo de ouro a vasilha utilizada por Jesus na última ceia com seus apóstolos, ou seria uma simples caneca de ferro, tão ao gosto da simplicidade e da humildade do querido mestre Jesus?

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