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Artigo do Jornal: Jornal Março 2017

Sobre o autor

Cláudio Sinoti

Cláudio Sinoti

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O tema da “Criança Interior” tem sido recorrente em muitas abordagens psicológicas. E quase sempre vem à tona a imagem da criança ferida, aquela parte da personalidade que, tendo passado por algum evento traumático, vivenciado uma educação castradora ou mesmo por negligência, dentre outros fatores, teve seu desenvolvimento prejudicado.

No entanto, não basta reconhecer os aspectos da criança ferida para se libertar dos conflitos que ela apresenta. Para nos tornarmos plenos, é preciso resgatar a criança saudável, aquela parte genuína do ser que ficou prejudicada por uma visão distorcida da existência.

Para auxiliar a trazer à consciência essa criança saudável, é válido questionar: 

- O que te vem à mente quando pensa na imagem da criança? Quais aspectos se apresentam de forma mais intensa? São justamente esses aspectos que auxiliarão no “resgate” da criança interior.

De forma geral, percebemos que alguns aspectos surgem com mais frequência, tais como: Espontaneidade, Sinceridade, Capacidade de Perdoar, Alegria etc. Percebidos os aspectos que se destacam, podemos passar à seguinte questão: 

- Como se apresentam esses aspectos na minha vida, neste momento?

Espontaneidade e Sinceridade: aprendemos tanto a esconder e disfarçar emoções e sentimentos, que muitas vezes perdemos a espontaneidade. A persona¸ a máscara que usamos para o convívio social, muitas vezes nos sufoca, e se não nos damos conta disso, vamos perdendo contato com nossas características genuínas, com os aspectos da nossa própria identidade. A espontaneidade se associa à nossa verdade interior, sem que necessitemos ser agressivos ou desrespeitosos com o outro para manifestá-la. Muitas vezes a espontaneidade é perdida no próprio contexto familiar, ao se punir a criança por manifestar aquilo que sente ou naquilo que acredita ser melhor para ela. Certamente que, em muitos momentos, a “vontade” da criança não deve prevalecer, mas para isso não é necessário castrar sua manifestação, pois o custo disso é muito grande na formação da personalidade.

Em sua origem etimológica, espontâneo surge de impulso, algo que vem de dentro. Sinceridade surge de “sem cera”, ou seja, a retirada da cera que mascarava alguns defeitos de peças deterioradas, mas que logo eram descobertas com o calor do sol. O adulto que somos precisa descobrir suas verdades internas, para poder manifestá-las aos outros da melhor forma possível, sem a preocupação de querer agradá-los nem intencionalmente desagradá-los, mas de respeitar e seguir sua verdade interior, única que nos pode conduzir ao encontro com a alma.

Capacidade de Perdoar: é muito interessante perceber a forma como a criança lida com as emoções, passando da raiva intensão do outro à condição de melhor amigo em questão de momentos. Isso é algo que devemos aprender, para não sermos mais vítimas do ressentimento. Muitos confundem perdoar com esquecer, mas o perdão vai além disso. Quando se perdoa de forma genuína, mesmo se recordando da ocorrência o seu conteúdo emocional não nos perturba mais, porquanto já foi elaborada pela consciência, não gerando mais conflitos internos por estar pacificado. A pacificação tem que ocorrer internamente para que possa gerar efeitos externos. Não se trata também de negar a raiva, mas de não deixar que ela corroa por dentro, transformando-se em ressentimento. 

Para auxiliar na identificação desses fatores, podemos nos perguntar:

- Quais conflitos internos tenho que pacificar internamento, para que o perdão possa acontecer de forma genuína?

Alegria de Viver: A associação entre criança e alegria é quase unanimidade quando abordamos o tema. E quando vemos as psicopatologias assolarem a humanidade, levando muitas vezes ao suicídio, percebemos que essa é uma virtude que necessita ser urgentemente resgatada. Não se trata da ilusão de acreditar que todos os momentos da existência serão um “calmo oceano”, mas aprender a lidar com os opostos – sombra e luz; dor e bem-estar; bons momentos e momentos difíceis etc. – pois quando aprendemos que a dinâmica da vida apresenta esses contrastes, não brigamos contra as ocorrências externas, mas vivemos de forma consciente cada momento. Isso faz com que a alegria de viver se apresente naturalmente, mesmo que passemos por desafios, o que é natural. Mas vivendo-os, teremos conosco a esperança, capacidade daquele que sabe passar pelas dores e sofrimento, porque acredita que o caminho da vida plena passa também por alguns obstáculos.

Por tudo isso, talvez não tenha sido à toa que, utilizando-se da imagem de uma criança, Jesus colocou-a no centro, quando ensinava os apóstolos (e a todos nós): “Em verdade vos digo que se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus”1.


1 Evangelho de Mateus 18:3

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