pteneofrdeites
Artigo do Jornal: Jornal Maio 2018

Sobre o autor

Cláudio Conti

Cláudio Conti

Compartilhar -

       No artigo publicado no jornal Correio Espírita de abril de 2018, dissemos que "o homem comum somente pode elaborar pensamentos comportamentais correlacionando com o que lhe é conhecido” [1], necessitando, portanto, de referências, e na ocasião citamos a matéria.

       Todavia, outro tipo de referência se faz importante para a humanidade e, em sua história, consta a mitologia enquanto um sistema de representações do psiquismo humano para nortear a vida e viabilizar o entendimento de muitas questões.

       C. G. Jung estabelece o ego, enquanto complexo funcional e sujeito de todas as decisões conscientes, assentado sobre duas bases, a material (ou somática) e a psíquica, se fortalecendo no entrechoque do somático com o mundo exterior [2]. O Espiritismo, por sua vez, estabelece a necessidade da encarnação para a evolução do espírito, estando atrelada à percepção dos conflitos inerentes à existência de duas componentes distintas: a personalidade encarnada e o ser espiritual [3]. A encarnação, portanto, possibilita a interrelação entre o exterior – o somático como expressão da personalidade encarnada – e o interior – o psíquico como expressão do espírito.

       Combinado as duas abordagens para uma mesma questão, tem-se que, em decorrência da sua base somática, o ego se manifesta enquanto ligado ao corpo físico, contudo interfere e sofre a interferência da componente psíquica. Desta forma, ligado ao corpo, o indivíduo se reconhece e se analisa enquanto corpo, sem o reconhecimento do ser espiritual que, para tanto, necessita da elevação ou, em outros termos, da reconquista da consciência do ser enquanto espírito.

       Os espíritos elevados reflexionam sem a necessidade da dualidade, eles exercitam o raciocínio sem necessidade de serem postos à prova. Contudo, os espíritos que se encontram em evolução em um mundo de expiações e provas, buscando, consciente ou inconscientemente, a reconquista da consciência, coletando fragmentos de mitos e a braços com os opostos, dualidades nas mais diferentes formas, necessitam do bem e do mal para desenvolver o discernimento.

       Para a parcela do planeta relacionada com o Cristianismo, tem-se o mito Jesus, que foi incorporado na Doutrina Espírita quando da sua elaboração. É importante, aqui, ressaltar que por “mito Jesus” não se pretende inferir a não existência ou algo fruto da imaginação, mas apenas referenciar à vida de Jesus enquanto carga emocional para os cristãos e suas consequências em termos de valores éticos e morais. Este mito, contudo, é complexo e pode ser dividido em outros, tal como o mito da crucificação.

       A crucificação de Jesus apresenta ensinamentos e demonstrações importantes da forma comum de pensar e analisar daqueles ligados ao Cristianismo. A capacidade de distinguir entre o certo e o errado depende do discernimento alcançado. Para espíritos compatíveis com expiações e provas, o discernimento é deficitário. Assim, reconhece-se com certa facilidade a distinção entre opostos muito diferentes, passando despercebidos os menos distintos, porém não necessariamente sem importância.

       O mito da crucificação é tão importante que a cruz se tornou o símbolo cristão mais importante. Apesar disso, a análise do mito da crucificação de Jesus, isto é, os acontecimentos, é tendenciosa e, com isso, grande parte do ensinamento é perdido, sendo que ensinar é a prerrogativa principal da existência de Jesus enquanto encarnado na Terra.

       Neste mito, Jesus, o bem, foi preso injustamente na cruz, o que causa grande comoção. Uma interpretação comum é de que ele, intencionalmente, se colocou naquela posição para “salvar” a humanidade. Nesta abordagem, dois sentimentos surgem, um de agradecimento e outro de alívio, pois alguém, no caso Jesus, “pagou” pelas faltas que a humanidade cometeu e ainda comete.                        Apesar do fato de que apenas seja lembrada a figura de Jesus (representação do bem) preso na cruz, há muito mais no mito, pois havia dois ladrões (representação do mal), um em cada lado, pelos quais não existe qualquer sentimento e são raramente mencionados.

       Com relação aos ladrões não se cultiva qualquer sentimento de piedade, apesar da crucificação ser uma pena muito severa por infringir graves sofrimentos. Considera-se, para eles, um castigo justo e, por isso, não merece maiores considerações, quando muito, diz-se que Jesus foi tão injustiçado que foi comparado com ladrões, denotando um sentimento de ofensa. Os que assim se expressam devem acreditar que Jesus tenha se sentido ofendido pela comparação, quando o único sentimento possível para ele é o de piedade.

       Um mito deve ser considerado na sua totalidade, e não apenas a parte que interessa, que satisfaz os desejos ou que exime da responsabilidade. O mito da crucificação, incluído os dois ladrões, diz que não se deve reconhecer os seres como personalidades encarnadas, mas como essência espiritual.

       Enquanto essência espiritual, todos são iguais perante Deus, independentemente se se trata de um ladrão ou não, porque são todos Seus filhos e, por isso, é preciso amar a todos como a si próprio.

       Ao se considerar que o sofrimento de Jesus foi injusto, enquanto dos dois ladrões foi justo, há o julgamento, mesmo sem ter conhecimento de todos os detalhes, apenas tomando um relato para avaliação. Julga-se o sofrimento daquele que se considera culpado como justificado, contudo ninguém deseja para si mesmo o sofrimento. Assim, fica outra importante lição, a de não julgar.

       No mito de Jesus crucificado, precisa ser considerado que os opostos existem e que, muitas vezes, o mesmo valor é creditado a ambos. O bem recebe o mesmo tratamento que o mal e são tidos como semelhantes ou não se credita o real valor.

       Com relação aos espíritos, é preciso reconhecer que, em um mundo de expiações e provas, como o título do mundo anuncia, todos sofrem. É preciso ampliar a observação e aceitar o sofrimento dos ladrões, daqueles que são falhos, para exercitar o perdão, a caridade para com o próximo. Neste processo, o indivíduo também se considera como falível, também necessitando de perdão, do autoperdão.

 

Notas bibliográficas:

1. Claudio C. Conti; Família, Jornal Correio Espírita, abril de 2018.

2. Carl G. Jung; AION - Estudo Sobre o Simbolismo do Si-Mesmo, §6.

3. Allan Kardec; O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XI.

Compartilhar
Topo Cron Job Iniciado