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Artigo do Jornal: Jornal Outubro 2018

Sobre o autor

Cláudio Sinoti

Cláudio Sinoti

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Muitos de nós crescemos acreditando que a traição é um dos maiores males que o indivíduo pode passar. E essa crença se amplia quando se observa o poder destrutivo que a traição ocasiona nas relações em que se fez presente: são lares desestruturados, casamentos arruinados, amizades desfeitas, sociedades destruídas e inúmeros outros exemplos que colocam esse tema em primazia quando se fala das dores humanas.

Nada obstante, sem tirar o peso da dor que a traição ocasiona, ao nosso ver existe um problema muito maior, e talvez pouco observado pela maioria dos indivíduos:  a autotraição!

Às vezes é difícil aceitar que somos nós mesmos que nos boicotamos, que atiramos no próprio pé, que sabotamos nossas melhores intenções e somos o maior empecilho à realização do nosso potencial. Será que isso é possível?

Para entender o mecanismo da autotraição é necessário compreender um pouco a própria personalidade. Em primeiro lugar, nós não nos conhecemos por completo. Existe uma parte oculta em nós, destituída de luz e de contato com a consciência, que Carl Gustav Jung chamou de Sombra. Todos os aspectos negligenciados ou não desenvolvidos pelo indivíduo vão compondo sua sombra.  Quanto mais desconhecemos nossa personalidade, mais estreita se torna a nossa visão, fazendo com que nossas escolhas sejam feitas a partir de um poder de observação limitado.

Não tornar a sombra conhecida causa a nossa primeira e profunda autotraição: algo tolhe a nossa percepção, fazendo com que tomemos decisões que se voltam contra nós mesmos, por terem sido influenciadas pelo lado sombrio de nossa personalidade.

Outra forma perversa de autotrair-se é acomodar-se ao que os outros esperam de nós. A educação muitas vezes reforça esse comportamento, especialmente quando os pais são demasiadamente controladores e/ou castradores, não estimulando as crianças e jovens a aprenderem a tomar decisões e a arcarem com a responsabilidade das escolhas feitas. A criança conformada, acomodada, tende a se comportar da forma como o ambiente espera que ela se comporte, mesmo que isso contrarie seus desejos internos. Para isso, faz uso da máscara, da Persona. A persona é o contraponto da sombra:  enquanto na sombra escondemos o que somos, na persona mostramos o que não somos, e pior, chegamos até a acreditar nisso.

Aquele que agrada demasiadamente aos outros desagrada a si mesmo. E isso é autotraição.

E se a sombra e a persona limitam o desenvolvimento da nossa personalidade, fazem também com que encaremos de forma imatura os desafios e as dores da vida. Afinal, quando não reconhecemos o mal em nós, tendemos a buscar algum culpado. E ao não reconhecer a nossa parcela de responsabilidade na vida, também nos traímos. Pior quando isso faz com que guardemos mágoas e rancores, elementos tóxicos do nosso psiquismo e que vão minando a esperança e fechando a porta para outras relações.

Quando não elaboramos as experiências da vida e guardamos emoções destrutivas, a nossa autotraição vai se ampliando, fazendo com que nos percamos de nós mesmos.

É importante estar atento que, de certa forma, somos todos traídos e traidores. A nossa traição começa mesmo antes do berço, quando nossos pais nos imaginam e projetam o que gostariam que fôssemos. Como lembra Jung, o maior peso que uma criança conduz é o da vida não vivida dos seus pais. E essa “traição” nos acompanhará também durante a existência, pois serão muitos aqueles que frustrarão nossas expectativas quanto ao seu comportamento e atitude. Isso se dá porque, na sua imaturidade, o ego idealiza o outro a partir das suas próprias projeções. Por isso mesmo, muitas vezes não é o outro que nos frustra, mas apenas demonstra não ser aquilo que imaginávamos que fosse.

Também somos “traidores”, porque em muitas ocorrências não cumpriremos as expectativas que os outros têm a nosso respeito. Isso é positivo quando essa “traição” está a serviço da alma, quando seguimos os nossos propósitos conectados com a verdade interior, independente do caminho que os outros imaginam para nós.

Não há outra saída do círculo vicioso da autotraição senão o mergulho interior. Reconhecer as máscaras que usamos e que nos asfixiam, permitindo-se mostrar as faces ocultas, ou seja, trazendo a sombra à luz da consciência, é um grande passo para libertação da traição para conosco.

Ao mesmo tempo, cicatrizar as dores de relações negativas, percebendo que o “encontro de sombras”, a própria e a do outro, sempre traz dores como consequência. O entendimento, a compreensão e o perdão auxiliam o indivíduo a libertar-se do passado, podendo viver de forma consciente o presente.

E mesmo que outros traiam as nossas expectativas e afetos, isso não será valorizado excessivamente quando deixarmos de nos trair, porquanto o nosso contato íntimo com o Self¸ o Eu Profundo que somos, nos gratificará tão intensamente, que prontamente nos libertaremos para viver outras experiências, aprendendo até mesmo com as dores a nos conhecer e amar mais profundamente.

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