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"A questão da identidade dos Espíritos é uma das mais controvertidas, mesmo entre os adeptos do Espiritismo.. Porque os Espíritos de fato não trazem nenhum documento de identificação e sabe-se com que facilidade alguns deles usam nomes emprestados."

É com esta frase que Allan Kardec abre o capítulo XXIV - Identidade dos Espíritos, do Livro dos Médiuns (ítem 225). Com sua lucidez e previdência, já naquela época Kardec sabia o quanto nos deixaríamos impressionar, levar e até enganar pela simples apresentação de um nome conhecido e renomado.

Hoje, pouco mais de 140 anos dessa observação, constatamos a enchurrada de livros e mensagens que invadem o meio espírita - psicografadas ou não, romances, poesias, recomendações, instruções quanto a procedimentos, textos repetitivos ou, pior ainda, quando na ânsia de inovar, apresentando teorias e conceitos os mais exdrúxulos e extravagantes.

No Evangelho Segundo o Espiritismo, na Introdução, ítem II - Da Autoridade da Doutrina Espírita, Kardec enfatiza que "o primeiro controle é sem contradita o da razão, ao qual é necessário submeter, sem exceção tudo o que vem dos Espíritos. Toda teoria em contradição manifesta com o bom-senso, com uma lógica rigorosa e com os dados positivos que possuímos, por mais respeitável seja o nome que a assine, deve ser rejeitada".

Contudo, o que atualmente se percebe no meio espírita, é a facilidade com que aceitamos todo e qualquer texto que mostre abaixo um daqueles nomes venerados pelos espíritas em geral. Poucos de nós nos damos ao trabalho de analisar criteriosamente o conteúdo desses textos, avaliar-lhes a concordância com os princípios básicos espiritistas e, sobretudo, com a razão e o bom-senso.

É o que acontece, por exemplo, com o conceito de "almas gêmeas" que já vimos companheiros abraçarem com entusiasmo, provavelmente por representar uma imagem romântica, tão ainda do nosso gosto... Alegam que Emmanuel, no livro O Consolador, defende esse conceito. Só que no Livro dos Espíritos, das questões 297 à 303 a, esse relacionamento entre almas está claramente explicado; e o comentário de Kardec que se segue não deixa margem à dúvida ou interpretações outras: "É necessário, pois, rejeitar essa idéia de que dois Espíritos, criados um para o outro, devem um dia fatalmente reunir-se na eternidade..."

Consequentemente, compreendendo a profunda lógica dos ensinamentos doutrinários e não simplesmente por aceitá-los sem análise, chegamos pelo menos a duas conclusões:
1ª) a de que Emmanuel, embora provavelmente mais evoluído que a generalidade da humanidade encarnada, não atingiu entretanto o grau de Espírito puro, ponto mais alto da escala evolutiva didaticamente estabelecida por Kardec e pelo Espíritos que com ele elaboraram a Doutrina Espírita, e que, assim, está sujeito ainda a equívocos...
2ª) a de que, por um motivo ou por outro, houve a intromissão de um Espírito, encarnado ou desencarnado, que adulterou o pensamento emitido por Emmanuel...

Outro exemplo é a questão das evocações. Ora, no Livro dos Médiuns há todo um capítulo dedicado a esse tema: o capítulo XXV - Das Evocações. Mas, ao que correntemente se divulga em nosso meio, Chico Xavier teria declarado que "o telefone não toca daqui para lá" e, a partir daí, resolveu-se firmar um "dogma" dentro do movimento espírita, qual seja, não mais se poder evocar Espíritos - parece até que voltamos aos tempos de Moisés...

Quando se argumenta que toda a nossa doutrina foi firmada sobre evocações, frequentemente a resposta é "mas quem fazia isso era Kardec!" Provavelmente essa resposta seja fruto de desconhecimento doutrinário, pois a verdade é que isso era feito em centenas de núcleos espíritas, que enviavam a Allan Kardec o resultado de suas evocações... Logicamente, Kardec as analisava, triava segundo o conteúdo, não se atendo jamais ao nome que assinava a mensagem, tanto que encontramos muitas vezes, na codificação e na Revista Espírita, recomendações amorosas e racionais ditadas por "um Espírito Protetor", sem a citação de nome conhecido ou desconhecido.

Ao fato é que, o que acontece a nós espíritas, é o mesmo que acontece a todos os nossos irmãos em humanidade, trilhando outros caminhos em busca do mesmo objetivo, que é paz interior, a felicidade e a sabedoria necessária para atingir essas metas o mais rapida e seguramente possível - ainda temos medo de assumir a responsabilidade pelo nosso destino, ainda não confiamos em nosso discernimento para realizar as boas escolhas; queremos ainda o "salvador da pátria", buscamos ainda aquele que possa resolver os nossos problemas e nos entregar a felicidade numa bandeja, como se fosse um prato feito, belamente elaborado, e que a nós nos cabe apenas saboreá-lo, sem que tenha havido de nossa parte nenhum esforço para a sua realização...

No entanto, a verdade (embora relutemos em aceitá-la) é que somos, cada um de nós, "o princípio inteligente do Universo"(OLE-q.23), o qual, com o passar do tempo e mediante nossas conquistas evolutivas, se transforma em "ser inteligente da criação" (OLE-q.76). Desse modo, queiramos ou não, submetidos que somos à lei natural de progresso, a cada passo, a cada experiência, a cada exitência, vamos nos tornando senhores do nosso livre-arbítrio e crescendo em entendimento e lucidez. Jesus de Nazaré nos assegurava "fareis tudo que eu faço e muito mais" - mas como tantos outros ensinamentos do Nazareno, não lhe demos importância, seja por medo, ou por comodidade, ou ainda porque não interessava aos detentores do conhecimento que todos nós viéssemos a nos tornar independentes de seu jugo terreno...

É por tudo isso que, ainda no Livro dos Médiuns, ítem 31, encontramos a seguinte afirmativa: "No Espiritismo, tem-se de lidar com inteligências dotadas de liberdade e que provam, a cada instante, não estarem sujeitas aos nossos caprichos". É, portanto, chegado o momento de assumirmos a nossa condição de inteligências livres, capazes de discernir, avaliar, escolher e caminhar sem medo rumo à nossa destinação, cientes da nossa perfectibilidade - além do fato de sabermos também que, embora os amigos mais evoluídos, encarnados e desencarnados, não possam fazer a nossa parte, estão sempre ao nosso lado para nos dar força e bom aconselhamento (desde que lhes permitamos a companhia através de um procedimento fraterno e tão justo quanto já nos é possível).

 

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