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Artigo do Jornal: Jornal Agosto 2018
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Uma das mais extraordinárias revelações da literatura espírita na atualidade, frequentando habitualmente as litas dos mais vendidos, a autora Lygia Barbiére conta nessa entrevista ao Correio Espírita sobre sua trajetória como escritora, buscando através de seus livros, auxiliar as pessoas que, desconhecendo os postulados espíritas, encontram-se em dificuldades para superar seus problemas.

Conhecida pelos romances que tratam de importantes problemas do homem moderno acaba de lançar seu mais novo romance: Após a Chuva, que aborda o universo das emoções e até onde o ser humano pode chegar por amor, quando perde o controle sobre si mesmo e seus sentimentos.

 

Como iniciou seu trabalho como escritora no segmento espírita?

Sempre escrevi desde que me entendo por gente. O mais interessante é que sempre pensei em histórias espíritas, embora minha família fosse católica. Quando tinha uns 9, 10 anos, escrevi a história de “Elizabeth, a gorda”, uma menina que sofria bullying na escola, naquela época ainda não usávamos esta palavra, mas era isso, porque era gordinha e acaba se suicidando em desespero. Só que ela ficava ao lado do caixão, desesperada em ver sua mãe sofrendo. A minha mãe leu aquilo e ficou de cabelo em pé: “quem te ensinou essas coisas?”, ela perguntou preocupada. Minha mãe até conhecia espiritismo, mas não podíamos falar sobre essas coisas em casa porque meu pai não admitia. E eu respondi simplesmente: “ora, eu sei! Ninguém me ensinou!”


Mas você já tinha o sonho de se tornar escritora?

Naturalmente, eu tinha o sonho de me tornar uma escritora quando crescesse, mas, mesmo sendo criança, achava aquilo muito difícil, não podia imaginar que caminho me levaria até lá, já que, na prática, sequer conhecia um escritor de verdade. E assim segui pelos caminhos do jornalismo, sempre ouvindo dos meus editores na redação: “Lygia, jornalismo não é literatura! Você perde muito tempo lapidando um texto que amanhã vai embrulhar peixe!” Então, no meio do caminho, surgiu uma oportunidade, um concurso para a oficina de teledramaturgia na Globo. Cinco vagas para o Brasil inteiro, mal pude acreditar quando descobri que havia sido selecionada. Fiz duas oficinas, mas acabei não ficando, porque não tinha exatamente alguém que me segurasse na emissora, muito provavelmente minha competência ainda não era suficiente. Mas não desisti. Decidi então estudar profundamente a estrutura dramática das telenovelas, fui fazer especialização em teatro, mestrado em literatura, cursos e mais cursos de roteiros. Até então parecia que a minha vida era uma colcha de retalhos que não levava a lugar nenhum. E foi nesse meio tempo que uma amiga me ofereceu uma atividade freelance de legendas para palavras cruzadas numa grande empresa. Por incrível que pareça, ali estava o meu futuro como escritora. Ou, pelo menos, a pessoa que iria me conduzir até lá. Após algumas semanas, para minha surpresa, fui chamada pelo editor. “Você é espírita, não é?”, ele me perguntou. Sim, naquela época eu já conhecia a doutrina espírita, até frequentava um Centro na Tijuca. “Estive olhando seu currículo e cheguei à conclusão de que você precisa escrever romances espíritas”, me disse o editor, com ar muito sério. Quase caí para trás.  Ainda assustada, perguntei: “Mas como, eu não conheço ninguém nesta área”. E ele disse: “Escreva que depois eu resolvo isso”. E assim nasceu “O Jardim dos Girassóis”, meu primeiro romance.

 

Quantos livros publicados?

Ao todo tenho nove livros já publicados. “O Jardim dos Girassóis”, primeiro e mais conhecido de todos, e que está, inclusive, sendo transformado em roteiro de cinema, conta a história de um jovem casal, com dois filhos, cuja existência é subitamente abalada com a morte inesperada do chefe da família. O livro procura mostrar tanto o que acontece com os que ficam, como também as angústias e o sofrimento daquele que vai e não se conforma com a situação.  Cada livro tem sempre um tema principal e vários outros subsidiários, que vão se entrelaçando como em uma novela de TV. Em linhas gerais, A luz que vem de dentro” fala sobre suicídio; O silêncio dos domingos aborda a síndrome do pânico e paralelamente, a questão do aborto; “O sono dos hibiscos” fala de coma e experiências de quase morte. Depois vem “A ferro e flores”, sobre alcoolismo; “Entre nós”, sobre câncer, mortes prematuras e depressão; “Um tom acima”, sobre a necessidade da reencarnação, abordando também a importância da música nas esferas espirituais e a síndrome de down; “Castelos de Marzipã”, que investiga a fundo o diabetes e, finalmente, “Após a Chuva”, que tenta abordar toda essa questão de nossos desequilíbrios nos relacionamentos. Na verdade, penso em fazer agora uma trilogia, que se estenderá pelos próximos dois livros, onde abordarei, além do Alzheimer, temas como a homossexualidade, os diversos tipos de mediunidade e a hipnose como forma de comunicação com o mundo espiritual.

Como surgiu a ideia de escrever o livro Após a Chuva?

Todos os temas com que trabalho vem sempre por sugestão dos leitores que me procuram, dos fatos e situações que chegam até mim por intermédio das pessoas e que, com o tempo, aprendi a interpretar como sinais do mundo espiritual.

No caso do livro Após a Chuva, quando eu estava fazendo uma das últimas palestras de divulgação do livro anterior, Castelos de Marzipã, em uma casa no Rio de Janeiro, havia uma médium vidente na mesa. Ela viu quando um espírito se aproximou de mim, parou ao meu lado e soltou enorme borboleta azul no salão. Naquela época eu não entendi muito bem, não sabia que a borboleta é exatamente o símbolo dos sedutores.  Aliás, só vim a me lembrar deste detalhe depois que o livro já havia sido lançado! Depois desse dia, cerca de um mês depois dessa palestra, reencontrei uma amiga, que há muitos anos não via, e ela estava profundamente envolvida com um rapaz que nunca definia se queria ou não ficar com ela. Ao mesmo tempo em que estava perdidamente apaixonada, minha amiga sofria, porque a relação nunca se definia. Comecei a acompanhar o caso, que tinha características muito peculiares, já que o rapaz vivia mandando mensagens, mas nunca se corporificava de fato, por assim dizer. Até que uma outra amiga, que é psicóloga, deu o veredicto: “ah, mas esse cara é um sedutor!”. Como assim um sedutor? Eu perguntei. A partir deste pontapé inicial, fiz um pedido na minha página do face perguntando sobre casos assim e, para minha surpresa, muitas pessoas se manifestaram. Tanto sedutores, quanto as chamadas mulheres que amam demais, que eu descobriria logo em seguida. De todas essas entrevistas e das muitas pesquisas que realizei a respeito, surgiu este livro.

 

Como foi o trabalho de pesquisa para essa obra?

Basicamente, todas as entrevistas surgiram a partir deste contato inicial pela internet. As pessoas escreviam - às vezes amigos de longa data, que se abriram sem pudores, só para me ajudar neste trabalho; em outras vezes eu fui até elas pessoalmente para fazer a entrevista. Mas nem sempre foi possível um contato pessoal direto, já que algumas destas pessoas moram fora do Brasil. E aí é impressionante, porque os casos começam a aparecer. Um dia, por exemplo, eu estava aproveitando um momento de folga numa praia do Rio, quando de repente a pessoa que estava sentada ao meu lado começou a conversar e logo me contou sua longa experiência como mulher que ama demais. O que mais me chamou a atenção neste tema é que ele é muito mais comum e corriqueiro do que a gente imagina, são muitas as pessoas que vivem este momento de desequilíbrio nos relacionamentos. Acho que faz parte deste nosso momento de transição. Se por um lado são muitas as pessoas que, de tanto vivenciar relacionamentos fugazes, sem muita profundidade, desequilibraram sua capacidade de amar e sentir verdadeiramente, viciando-se nas sensações decorrentes deste tipo de conquista inconsequente; da mesma forma também é assustador o número de pessoas que se acostumaram a se alimentarem dos ganhos secundários de uma relação onde são permanentemente desconsideradas e desrespeitadas por seus parceiros.

Qual é a principal mensagem do livro?

Acho que a mensagem mais importante é que, ainda vivendo num mundo de provas e expiações, somos todos em alguma medida, um pouco mais ou um pouco menos doentes em termos emocionais. Fomos criados e gerados por pessoas que experimentaram nossas mesmas dificuldades.  E no final das contas tendemos a repetir infinitamente este modelo, porque ele se encontra em consonância com a nossa realidade mais íntima de espíritos em aprendizado.   Faz parte da condição de habitante de um mundo de provas e expiações essa dificuldade de formar e manter relações afetivas mais saudáveis e equilibradas, da mesma forma que faz parte da condição de aspirantes a um mundo de regeneração uma postura mais questionadora, no sentido de trabalhar nossas próprias fraquezas e vulnerabilidades. Não nos cabe mais apenas ficar chorando pelo que a vida fez conosco, mas assumir e perceber que atraímos para nós exatamente a lição que nos conduzirá a nossa evolução espiritual se a acolhermos com seriedade e maturidade. Como costumo escrever nas dedicatórias que faço para meus leitores, é essencial percebermos as muitas flores que sempre brotam após a chuva.  E também que as chuvas, por piores que sejam, sempre passam: só a luz é permanente.

Você diria que tanto as mulheres que amam demais quanto os sedutores refletem a carência afetiva e o vazio existencial?

 

É comum as pessoas perguntarem: por que sedutores e mulheres que amam demais? Não existem mulheres sedutoras e homens que amam demais? Ao que respondo que sim. O único detalhe é que, por serem padrões de comportamento milenares, é natural que existam muito mais homens sedutores e mulheres que amam demais. Porque este é o “molde”, a “fôrma” em que já nascemos inseridos, um comportamento ancestral que é até incentivado pela sociedade. 

As famílias, em geral, acham bonito um rapaz conquistador, assim como a maioria das mulheres costuma desde cedo ser educada para tolerar incondicionalmente. Todos esses modelos acabam por aumentar a carência afetiva e o vazio existencial na medida em que não levam em conta a imensa gama de particularidades individuais que constituem a essência de cada ser. Somos o tempo todo como que empurrados por uma correnteza que nos induz a agir conforme aquilo que é esperado de nós em detrimento de nossas próprias aspirações e necessidades: esta é uma das características de uma sociedade de massa. Por outro lado, acredito que a nossa prova, o nosso teste consiste justamente nisso. É o mesmo que diz a pergunta 260 de O Livro dos Espíritos: Como pode o Espírito querer nascer entre pessoas de má vida? ao que os espíritos respondem: “para lutar contra o instinto do roubo, é preciso que se encontre entre pessoas que roubam”. Acho que quando encontramos justificativas para esses comportamentos não estamos contribuindo para o nosso próprio crescimento enquanto seres espirituais. Cabe-nos, acima de tudo, questionar, o que de diferente já temos condições de fazer. Afinal, solidão é simplesmente a ausência de você mesmo. Penso que só nos sentimos vazios quando perdemos a noção do que verdadeiramente é importante para nós, do que verdadeiramente viemos fazer aqui neste mundo.

 

Em uma época de relacionamentos tão descartáveis você diria que o tema do livro se encaixa na atualidade? 

Procuro escrever sempre sobre os temas que inquietam as pessoas no presente.  Penso que o tema se encaixa muito neste nosso momento atual porque nos faz refletir sobre o preço íntimo de nossas escolhas. Posso adquirir um namorado/namorada bonito (a) e bem sucedido (a) pela internet? Posso beijar três ou mais rapazes/ moças numa única noite?  Posso cozinhar alguém em banho-maria até que apareça uma outra pessoa que me interesse mais? Como dizia o apóstolo Paulo, “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”.  Será que me convém carregar comigo a dor de todas as pessoas que magoei com cujos sentimentos eu brinquei, o arrependimento de ter machucado alguém com minhas atitudes? Em que medida tais procedimentos não acabam por prejudicar a mim mesmo em um nível espiritual mais profundo? São perguntas que já estamos prontos a nos fazer antes de nos arriscarmos numa aventura aparentemente descartável e inconsequente. 

 

Quem são as mulheres que se encaixam no perfil que amam demais?

Mulheres que amam demais são mulheres que sempre se veem atraídas por homens problemáticos e relações conflituosas, mulheres que confundem amor com sofrimento, numa conduta nociva a si próprias que geralmente tem origens numa infância tumultuada, onde se viram, por alguma razão, desprovidas do amor essencial a qualquer ser humano.  Pessoas que se acostumaram de uma tal forma a receber “amor” de maneiras abusivas que passaram a enxergar isso como algo normal. É a forma como elas aprenderam e em geral, a única que conhecem e, por isso, vão buscar quem dê a elas o mesmo tipo de afeto.  Em seu inconsciente, acreditam que, já que não conseguiram consertar o pai ou a mãe doentes emocionalmente, aquela outra pessoa elas irão consertar. Só que isso acaba se transformando em uma obsessão doentia. Como no caso de uma mulher que apanha do marido, perdoa, depois apanha de novo, e resolve dar mais outra chance, e outra, e mais outra, num ciclo de co-dependência sem fim. Importante destacar que nem sempre a agressão é necessariamente física.  Mas sempre existe a característica de tentar relevar, de fazer de conta que, mesmo sem o outro fazer qualquer tipo de tratamento, isso não vai mais acontecer. Por outro lado, como também são emocionalmente doentes, assim como seus abusadores, essas pessoas costumam se apegar aos chamados ganhos secundários das situações de abuso, seja fazendo-se de vítimas para merecer a admiração alheia, seja chantageando o parceiro em momentos chave para perpetuarem a ilusão de que podem conseguir o que querem.  É preciso muita lucidez para analisar estes casos. Na mente de uma “pessoa que ama demais”, se ela preencher o outro (que ela geralmente vê como alguém ainda mais incompleto e machucado de que a si mesmo) em todas as suas carências e necessidades, este outro, em determinado momento, ficará pleno e completo a ponto de preenchê-la, com gratidão e dedicação, em todas as suas próprias carências. Só que este raciocínio é na verdade uma falácia, não contém nenhuma lógica real. Afinal, como alguém que tem menos do que nós irá se preencher a ponto de nos proteger, de nos curar? É o mesmo que pegar, por exemplo, uma criança de rua, cheia de sequelas emocionais, com a intenção de que algum dia ela venha a fazer por nós o mesmo que fizemos por ela. 


E o perfil dos homens sedutores?

O sedutor, por sua vez, é uma figura perfeita para atrair este tipo de pessoa emocionalmente doente. Ele tende a se comportar ora como o protetor por excelência quando faz sua abordagem, repetindo para essa pessoa todas as frases que ela sempre sonhou ouvir, ora como o ser desprotegido, que necessita tanto da “cura” que só ela sabe como proporcionar. Em geral, eles se apresentam como alguém que nunca conseguiu amar de verdade (o que é fato, mas na fala deles a explicação não estará na doença que os faz agir deste jeito e sim na “culpa” das outras mulheres que nunca souberam como conquistar o que eles têm de melhor a oferecer). Porque existe realmente uma doença. A síndrome de domjuanismo se caracteriza pela produção de substâncias que dão uma sensação de prazer que só se verifica no momento preciso da conquista, mas logo se dissipa.  É necessário que esta pessoa faça um esforço para vencer sua tendência natural a buscar por estes momentos de prazer fugaz e se permita aprender, que se deixe envolver por outras formas de amor que transcendam o estágio inicial da paixão. Em ambos os casos, é necessário consciência e lucidez para perceber a grande oportunidade de aprendizado que se encontra à disposição na presente existência.    


Como o Espiritismo explica esses tipos de comportamento? 

É semelhante ao que ocorre com qualquer compulsão. Se a pessoa, por exemplo, tem o hábito de comer além do necessário para suprir suas carências, em dado momento ela vai acabar danificando a capacidade de armazenamento do seu estômago, que vai passar a funcionar de maneira deficitária. Da mesma forma, se eu me ativer apenas às sensações imediatas de um flerte, sem jamais me aprofundar no relacionamento, além de não poder experimentar nunca um amor de verdade, vou acabar por desregular esta capacidade de sentir. Em geral, os sedutores são pessoas que já acostumaram a agir desta forma, aquilo já está internalizado, é quase como um comportamento automático que de repente se manifesta – sobretudo se for incentivado pela sociedade. Da mesma forma também, as chamadas “mulheres que amam demais”, que prefiro aqui chamar de pessoas que amam demais, de tanto se condicionarem a não enxergar, a relevar quando alguém próximo as machuca, acabam por danificar a própria capacidade de discernimento, de colocar limites em nome de seu amor próprio. Em ambos os casos, é necessária uma postura lúcida e madura para iniciar um trabalho no sentido de modificar esse quadro. Certamente essa é uma das tarefas que trouxe este espírito até aqui.

Gostaria de acrescentar algo?

Penso que neste momento em que nosso planeta se prepara para entrar em uma nova etapa de regeneração, cabe a cada um de nós analisar os seus próprios processos, tudo aquilo que ainda nos afasta de mundos mais felizes e iniciar um trabalho conosco mesmos, de forma a que possamos efetivamente inaugurar uma nova etapa em nosso ciclo evolutivo. Acredito que, se estamos todos aqui neste momento, isto significa que já temos plenas condições de nos trabalhar neste sentido. Não somos mais como crianças que precisam ficar esperando pelos pais na porta de casa para reclamar do comportamento dos irmãos, queixosos e infantis. Ao contrário, como adolescentes espirituais que já somos, podemos, ao invés de perder tanto tempo reclamando do comportamento alheio, cuidar de nossas próprias atitudes de forma a sermos no mundo o exemplo da mudança que gostaríamos de ver. Afinal, como bem destaca o Evangelho segundo o espiritismo, “reconhece-se o verdadeiro espírita (e eu diria aqui o verdadeiro cristão) por sua transformação íntima, mas, sobretudo pelos esforços que faz para dominar as suas más tendências”.  Na minha concepção, este é o único caminho capaz de nos levar a uma existência mais pacífica, mais proveitosa e mais feliz.  

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