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Artigo do Jornal: Jornal Maio 2014
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Terminei esta semana a leitura do livro Kardec, a biografia, de Marcel Souto Maior. Gostei do livro, com os senões (e vantagens) de uma obra escrita por alguém que está de fora das fileiras espíritas, pelo menos no discurso, mas que soube retratar de forma leve os eventos históricos que conduziram a chamada codificação da Doutrina Espírita e que hoje nos alenta e nos inspira, nas lutas cotidianas.

Bem redigido, de forma clara e didática, antecipando o roteiro da película a ser produzida, o livro mostra um Kardec homem, com dificuldades, inserido em um contexto político e filosófico, para assim ser o baluarte do espiritualismo moderno, que entre mesas e cadernos, produziu um manancial de conhecimento a influenciar o mundo até hoje, passados mais de 150 anos.

A leitura do livro mostrou-me um homem de ciência, sagaz e bem intencionado, que diante de fenômenos populares envolvendo mesas girantes, busca identificar a sua gênese e com o apoio das informações fornecidas pelos próprios causadores dos fenômenos, os espíritos, elabora assim uma tese que deu conta daquela casuística, abrangendo um sistema filosófico amplo, sobre a natureza e o destino do ser humano no universo.

Essa tese, fundamentada na imortalidade da alma, na comunicabilidade dos espíritos e nas múltiplas existências, inédita na sua integração, jaz insuperável, influenciando um sem número de produções culturais, que trazem nesse paradigma seu espelho, no qual apesar da baixa difusão percentual do espiritismo como movimento religioso, tem seus princípios basilares nesses mais de 150 anos conquistado seu espaço ao sol das ilações sobre a vida futura.

A imortalidade da alma, hipótese comum à maioria das religiões, tem mais recentemente ganhado corpo nas pesquisas sobre EQM - Estado de Quase Morte do Dr. Raymond Moody Júnior e Sam Parnia, na análise de pessoas que em estado de coma retornam a vida e narram situações similares. A despeito das hipóteses formuladas sobre a ação do subconsciente, os estudos continuam amparados na hipótese básica.

As múltiplas existências tiveram também seus baluartes, nas pesquisas e produções de Hemendras Banerjee, Brian Weiss, Albert de Rochas e Ian Stevenson, com destaque para os estudos da Prof.ª Hellen Wambach, que comparou dados das regressões com informações históricas sobre as sociedades. Recentemente a Terapia de Vidas Passadas se vulgarizou entre os profissionais, tem-se estudado relatos de vidas passadas e marcas de nascença e temos ainda os estudos na Universidade do Prof. Jim Tucker, que vira e mexe aparece nos programas televisivos com intrigantes casos de lembranças de vidas passadas.

No campo da comunicação com o Além, os médiuns brasileiros forneceram grande material de estudo, nas mediunidades de Chico Xavier e os diversos estudos correlatos, em especial na questão da grafologia. Os cases mediúnicos de Divaldo Franco, Arigó, Peixotinho e do Médium de cura João de Deus tem sido objeto de estudos que ratificam e fortalecem as ideias postas por Kardec.

O ceticismo ainda campeia, por comodismo, por interesse ou por decepção. Ainda que surjam explicações isoladas de céticos, de forma integrada esses fenômenos encontram guarida nas formulações kardequianas a luz dos depoimentos dos espíritos, o que vem sendo reforçado pela ação dos estudiosos citados e outros desconhecidos, que labutam de forma incansável, enfrentado o preconceito da academia e a pressão de ideologias religiosas, como enfrentou Allan Kardec no seu tempo, conforme bem descrito pela sua presente biografia.

Para além de uma revelação, Kardec apresentou um sistema lógico como resposta ao fenômeno, construído a partir do material coletado das comunicações com os espíritos. Uma hipótese que ele mesmo apresentou as contradições, ao estudar os sistemas no Capítulo IV de O Livro dos Médiuns. Ali, Kardec já se posiciona sobre as demais hipóteses em relação ao fenômeno posto e expõe, por argumentos, por que a tese espírita se apresenta insuperável para dar conta da situação. E até hoje, a explicação ainda é válida.

Os pilares, a visão de que o fenômeno derivava de inteligências, que chamadas de espíritos, nada mais eram dos que os homens sem a roupagem carnal, que se sucediam em existências no mundo de cá e de lá, permanece robusta e convergente aos estudos que se seguiram, pelas regressões, comunicações e lembranças. Dizer que Kardec é atual não é tomá-lo pela letra idêntica de um livro sagrado e sim pela força do paradigma por ele proposto na explicação da fenomenologia espírita.

O aspecto filosófico da hipótese espírita, abraçando Deus e o problema do ser, do destino e da dor, traz a essa uma grande força, impulsionando vidas à modificação de disposições, a reforma íntima e a prática da caridade, tornando nosso mundo melhor. Outras hipóteses, além de não atenderem a completude dos fenômenos, baseiam-se em pressupostos teológicos estranhos a razão, com deuses seletivos e injustos, atendendo a injunções e poderes estranhos a visão do bem. O espiritismo se apresenta como uma verdade ratificada pela razão e pelos fenômenos, na cantiga de esperança que embala a humanidade, mas que se faz incômoda.

Incômoda, pois rompe os grilhões filosóficos do mundo antigo, da idade de trevas e das visões escravizantes de vida futura, que Kardec não se furtou a tratar no livro O Céu e o Inferno. Ideias que ainda pululam por aí, com os mesmos fenômenos de outrora, a busca de soluções razoáveis, que surgiram no século retrasado pelas mão do mestre Lionês.

Assim como ocorreu na biografia de Chico Xavier, acredito que o livro do escritor Marcel Souto Maior despertará o interesse pela obra Kardequiana no público em geral, obra essa que se apresenta insuperável, pelo método e pela consistência, na resposta aos fenômenos mediúnicos. O estudo sistematizado das obras nos permite entender a essência do espiritismo e de como chegamos a compreender que mesas que giravam nos forneciam uma resposta filosófica para a existência.

As ideias de Kardec influenciaram o mundo. Ainda que carentes de autoria, talvez como um bom caminho para evitar a captura e a exposição, seguem por aí em filmes e livros, distantes da estranheza de outras épocas. Ideias de um Deus justo, de vidas que não terminam, de mortos que não se calam, de falhas que são reparadas. Uma visão de mundo libertadora, que pelo esforço de um homem, das pessoas a sua volta e das gerações que se seguiram, continua a nos brindar com o consolo que ampara, mas também com a sagacidade que liberta.

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