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Artigo do Jornal: Jornal Outubro 2014

Sobre o autor

Jacob Melo

Jacob Melo

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Incrível! Depois de tanto repetirmos que o Espiritismo se apoia numa base trina – filosofia, ciência e moral – descobrimos que o tempo verbal parece estar pedindo temporização, ou seja: tirá-lo do presente e remetê-lo ao passado. Não que o Espiritismo tenha mudado, mas o comportamento espírita, de uma forma geral, tem perdido essa base.

Muito se discute – e se corrobora – acerca dos aspectos científicos da Doutrina Espírita. E mesmo quando a maioria quer insistir de que estes vigoram, basta alguém se dedicar a estudar cientificamente com um pouco mais de empenho e logo surgem os rotuladores a dizerem não ser comportamento aceitável os que querem ser cientistas. Como se a ciência, por si mesma, fosse degenerativa ou excludente da moral.

No que tange ao Magnetismo, tenho escrito seguidamente e, mesmo sem essa intenção, a de mostrar que os aspectos científicos estão relegados ao ostracismo, isso sempre termina ficando em forte evidência. E o que mais indica isto é o caráter de novidade com que têm sido recebidas as propostas de Allan Kardec e dos Espíritos Superiores acerca do vínculo dessa ciência com o Espiritismo.

Meu livro “Reavaliando Verdades Distorcidas”, tratando de inúmeras citações da obra kardequiana acerca do magnetismo, tem passado intencionalmente despercebido dos que insistem em defender um passe inócuo ou de duvidosa eficácia. A prevalência continua sendo a de que “a boa vontade e a oração” são suficientes para se alcançar um benefício, mas se este não chega, a culpa vai para os débitos reencarnatórios e a falta de merecimento.

E o que tem a filosofia a ver com isso?

Se nós ainda preservássemos o sentido filosófico deixado como exemplo por Allan Kardec, nada dos aspectos científicos do Espiritismo teria sido entregue ao descaso. Por quê? Simplesmente porque perguntaríamos, questionaríamos, duvidaríamos e partiríamos para as úteis comparações, com validações ou negações, tudo fundamentado no bom senso tão recomendado pelo codificador. Assim haveria, naturalmente, a substituição do “achismo” que infesta nossa prática atual pela análise de fatos e constituição de valores forjados na experimentação.

Espiriticamente, já não filosofamos mais. Quando alguém questiona o que alguém acha ser inquestionável, logo se isola o indagador acusando-o de provocador de desordens, de obsidiado ou, no mínimo, de herege fascinado pelo saber. Como se o provocador não requisitasse bons exemplos, como se o obsidiado não precisasse de ajuda real, como se o fascinado pelo saber estivesse cometendo algum erro por isso. Não, não estaria em erro, pois um dos pilares do Espiritismo consiste no progresso intelecto-moral, portanto, querer saber não é defeito; é virtude.

Por que então não temos mais filósofos? A resposta parece óbvia: não queremos ser importunados por questões intrigantes, por perguntas que nos tiram de nosso acomodado “os Espíritos fazem tudo” ... Não filosofamos porque “não temos tempo a perder” com perguntinhas ou coisas que peçam mudanças do que já acrisolamos na mente e na alma.

A falta de filosofia tem sido tão gritante que nem mesmo a principal obra espírita, O Livro dos Espíritos, tem servido de base, como exemplo, nem de análise, como prática filosófica. Somos desestimulados se queremos indagar, somos reprovados se lemos obras que trazem visões ou abordagens pouco convencionais, somos apontados mal se nos propomos a trazer Allan Kardec à baila das boas discussões. E em meio a esse verdadeiro tumulto de pouca produtividade, nos permitimos tudo confundir, como se isso fosse suficiente para se ser espírita.

Só para dar um exemplo, quando uma equipe decide aplicar magnetismo, nos moldes propostos por Kardec, a primeira barreira costuma ser erguida pelos mais antigos, pelos colegas de turma ou pelo movimento que prefere ficar estático; nada de filosofia, nada de ciência; apenas um “é pra ser assim ou assado”. E quando, sem o devido cuidado, se pretende fazer a mistura dessa prática (magnética) com o mediunismo, chamando este de ciência, toma-se ele como sendo o suprassumo da ciência espírita, introduzindo-se opiniões de médiuns em trabalhos oriundos de muitos estudos, sem que essas opiniões apresentem nada de lógica, racionalidade ou conveniência com o bem que se procura realizar.

Para piorar, na prática temos constatado que as opiniões ditas mediúnicas crescem de valor e dissolvem, quase que instantaneamente, todo labor decorrente dos estudos e das experiências já vivenciadas e comprovadas.

Não há como o Espiritismo cumprir seu papel sem que sejam revistas as posturas filosóficas e científicas que formam sua base. A moral – ou a religião, como se prefere dizer – carece igualmente de base, haja vista outras realidades religiosas que, por prescindirem dessas outras duas faces, periclitam em seus próprios postulados.

Se alguém se acha correto, que dê o melhor exemplo; se alguém reconhece que está em erro, que sua atitude seja de serena correção. E se não há espírito perfeito entre nós, a Doutrina Espírita nos legou bom caminho para se chegar até lá: o desenvolvimento intelecto-moral. Este se realiza com a dupla asa da filosofia e da ciência, pois, quando bem conduzidas, nos levam à moral que tanto buscamos atingir. Não há, portanto, razão para desprezarmos ou tratarmos de forma menor quaisquer dos aspectos que caracterizam a verdadeira Doutrina Espírita.

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