pteneofrdeites
Artigo do Jornal: Jornal Novembro 2014
Compartilhar -

Certa feita, em uma reunião de início de ano de um trabalho assistencial que contava com quase trinta anos, determinado dirigente, que labuta desde o início naquela seara, comentou em tom avaliativo que o trabalho de evangelização infantil rendera frutos naquele longo período, pois entre outros sinais, verificava-se que os meninos que frequentavam aquela casa espírita, incrustrada em uma comunidade carente, repleto de tensões e pressões, não tinham bandeando para o caminho da criminalidade.

Difícil avaliarmos os frutos dos trabalhos espíritas nas plagas assistenciais, com pessoas que se abeiram ali muitas vezes à busca apenas da cesta básica que será pega em outra denominação no dia seguinte... Difícil, pois temos carência de material didático voltado a pessoas de baixa escolaridade e de produção literária que nos ampare a lidar com famílias em condições de vulnerabilidade, às vezes refletidas em desagregações familiares com o alcoolismo e outros problemas comuns a comunidades carentes, em especial na cidade do Rio de Janeiro, e suas mazelas já conhecidas.

Ainda que muito frequente na prática, os trabalhos assistenciais não gozam de uma discussão robusta e de produção que os permitam avançar sobre os paradigmas vigentes, com raras e valorosas colaborações que surgem por aí... Essa falta de discussão, por vezes, nos leva ao desânimo e a valorização do “bem quantitativo”, refletido na soma de benefícios distribuídos, de forma descontextualizada, social e espiritualmente.

A evangelização infantil, comum em trabalhos de natureza assistencial, necessita de uma discussão profunda sobre currículo, pressupostos, abordagens e visões pedagógicas que percebam ali, em sala de aula, espíritos, em verdade imersos em um ambiente de carência material, mas espíritos sequiosos de conhecimento que os console, liberte e ampare.

Nesse contexto, temos, sim, objetivos programáticos de melhoria a um longuíssimo prazo daquele grupo humano, ainda que nos vejamos, ocasionalmente, frustrados pelas forças presentes na capacidade de perpetuação de hábitos tristes, como a gravidez precoce, constantes a cada geração, em um ciclo de difícil rompimento. Mas a feliz fala desse amigo dirigente nos aponta para interessantes indicadores de nossos trabalhos espíritas no campo da infância, na percepção da importância de plantarmos as sementes do homem de bem, em qualquer espaço, seja ele carente ou não no campo material. E o homem de bem se fará percebido no futuro!

Jesus, na parábola do semeador, fala que um homem saiu a semear, a espalhar sementes por diversos terrenos, que diante das diversidades, buscavam crescer. Todas falharam, mas a que “caiu em boa terra, deu boa colheita, a cem, sessenta e trinta por um”, indicando-nos uma profunda reflexão que pode nos servir ao direcionamento das finalidades de nossos trabalhos assistenciais. Uma reflexão do nosso papel de semeadores e do crescimento no ato de semear.

Amparamos aquelas famílias materialmente pela bolsa, pelo material escolar, pelas roupas... Buscamos instrumentalizá-las a caminhar sozinhas pelas oficinas, que possam com dignidade permitir a elas ganhar algum dinheirinho... Apoiamos as suas iniciativas no campo escolar, pretendendo que a nova geração transcenda a miséria material da anterior. As abordagens assistenciais clássicas aqui estampadas cuidam do emergencial, da impossibilidade de se falar de Jesus para quem tem fome, mas necessitam de um complemento, de um pão mais sublime, que emancipe espiritualmente aquelas pessoas, na reflexão de sua condição de espíritos encarnados, na chamada resignação produtiva, que converte dor em amor.

Insta desenvolver, com igual força, as nossas atividades doutrinárias nos trabalhos assistenciais, a evangelização, a palestra, o estudo, que para além de um caráter proselitista e catequizador, visem, por meio dessa interação diria “filosófica", trabalhar valores morais, pela ótica da imortalidade da alma e da reencarnação, levando aos chamados, erroneamente a meu ver de assistidos, uma reflexão que os permitam adotar disposições renovadas, diante das provas da carência material e dos desafios morais da vida encarnada.

A atividade de discussão, de interação intelectual-moral na área assistencial, tem um caráter emancipador, que liberta aqueles espíritos de armadilhas morais, indicando o caminho do estudo, do trabalho e do esforço na superação de suas dificuldades e apontando que a dor é uma mola para despertar o nosso amor. E nessa construção, nós, ditos trabalhadores, amadurecemos, pois a falação bonita e vazia não encontra eco diante dessas dores, nos fazendo amadurecer na vivência do Cristo.

A parte boa do trabalho atinge a todos os atores, como oportunidade bendita de amadurecimento e reflexão, representando muito mais do que ir lá ensinar o evangelho para as pessoas pobres. O pão material que dá o peixe, a oficina que dá a vara e ensina a pescar, são polos fundamentais da equação da assistência... Entretanto, a discussão doutrinária, o fortalecimento filosófico, lastreado pelos pilares da doutrina espírita, traz a reflexão que faz a pessoa entender o peixe, a vara, o rio e os seus braços, convertendo todos em pescadores de almas, como disse Jesus. Não queremos fazer daquelas pessoas espíritas no sentido de que elas leiam avidamente as obras básicas e tenham um conhecimento formal. Necessitamos de uma abordagem pedagógica que mostre esse conhecimento espírita na prática, no mundo concreto, sentido, como forma de espalhar as sementes em cada coração, tornando-os sim, eles e nós, pessoas melhores, fim maior.

Essa abordagem robustece a bolsa e a oficina, contribuindo para um caráter consolador, diante da dor, é verdade, mas também de superação, fazendo que a pessoa venha à busca do alimento e saia com a sua alma revigorada, com novos horizontes. Para isso, precisamos nos adaptar... Nossas palestras, nossos estudos, nossos currículos, para que vejam nesse contexto a melhor forma de passar o espiritismo e todo seu valor transformador de atitudes, em sua expressão mais simples, nesses trabalhos, em especial na infância.

A reencarnação liberta, pois mostra a nossa situação como transitória e que pode mudar pelo esforço cotidiano, na busca de construir o homem de bem naquele espírito imortal que hoje enverga uma roupagem de carência. O livre arbítrio, a prática de bem, são valores espíritas que possibilitam construir uma vida melhor, em um sentido amplo. Tesouros morais que podem e devem colaborar na superação de situações de carência material, fortalecendo aqueles espíritos na sua prova, buscando a senda do bem.

Fica a reflexão para os que trabalham na seara espírita na evangelização de crianças que padecem de miséria material e que por esta são influenciadas, sim, no aspecto moral, podendo essa dor servir de trampolim que as impulsione ou de buraco que as afunde. Para além do peixe que mata a fome, demandamos ouvir o convite de Jesus no chamado milagre dos peixes, para falar de pães e peixes que se multiplicam e aplacam a fome do espírito.

Compartilhar
Topo Cron Job Iniciado