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Artigo do Jornal: Jornal Março 2015

Sobre o autor

Pedro Valiati

Pedro Valiati

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Seguindo os ritos descritos da Santa Ceia, próximo aos acontecimentos da cruz, o Mestre, sabedor das refregas a serem enfrentadas pelos seguidores, tomou o pão e, repartindo-o, deu a Seus discípulos dizendo “Isto é o meu corpo, que por vós é dado”.

Hoje, o conhecimento espírita sobre fluidificação, em adição às interações mediúnicas, nos permite compreender que não se tratava de simples distribuição de alimento. O Cristo, no momento sublime, orando, fluidificava o pão, rogando ao Pai que os abençoasse, preparando e protegendo os irmãos apostólicos para os rudes embates no curto prazo. O pão fora magnetizado pelo amor do Mestre, em profunda demonstração de carinho e cuidado, em favor da proteção e amparo dos companheiros de jornada. Era sabido, pelo Cristo, dos martírios os quais todos, inclusive Ele, seriam vitimados, sendo esfolados e sacrificados.

O enredo, guardadas as devidas proporções, não é muito distante do desterro de nossas vidas. Ainda no plano espiritual, espíritas às mancheias, como diria André Luiz, recebem o “Pão da vida”, a luz da Doutrina, em diversos cursos e treinamentos, também em preparação para as provas, não tão rudes como antes, contudo, difíceis.

Sob as bênçãos e anuência dos céus, iniciamos a jornada terrena, no lar, corpo e localização geográfica nem sempre agradável, porém necessárias à retomada da missão e ressarcimento de antigas dívidas, segundo as balizas da Lei Divina.

Atingimos a maturidade onde as dúvidas e dores perfazem a alma, colimando, muitas vezes, no reencontro com a Doutrina abraçada, adentramos pela célula mater, a casa espírita, através das portas do sofrimento. Abençoada seja a dor que nos leva a melhora íntima, cerrando desconfortos e vícios, em busca do buril da existência.

Iniciamos tímido tratamento. Palestras e passes antecedem a decisão por iniciar os cursos doutrinários. Adquirimos cultura espírita com relativa facilidade, nada mais é que o reencontro com conhecimentos anteriores, a preencher a alma com as lições e exemplo evangélicos.

Adentramos ao trabalho na seara de Deus, e via de regra, a vida é chacoalhada pelas cobranças anteriores, encarnadas ou não. Este é o instante em que muitos, mesmo que temporariamente, desistem das tarefas, soçobram na fé. Não entendem que a moratória espiritual expira diante da aquisição de certa maturidade da alma. Em face dos conhecimentos e oportunidades de elevação, irmãos de outrora, ainda amarrados nas inconsequências e correntes do passado, nos contatam, definitivamente dispostos às cobranças da Lei Natural, através da vingança infeliz.

Tornam nossas vidas um complexo de transtornos, direta ou indiretamente, seja no lar, trabalho ou sociedade, comumente exemplificado nos casos infelizes por todos nós testemunhados.

Irmãos muitos, não compreendem por que, recentemente alçados à categoria de trabalhadores espíritas, enfrentam tantas dificuldades. Antes, como “não espíritas”, nada ocorria. Esquecem-se das ocorrências pós Santa Ceia, desejam a coroa de ouro, olvidando o destinatário da coroa de espinhos. A história do cristianismo demonstra a vida de renúncia e suplício dos mártires. Nos serviços cristãos, não aguarde facilidades, o próprio Mestre afirmou: “Aquele que quiser me seguir, que tome a sua cruz”. Cada um que reflita o significado de “cruz”, conforme a respectiva existência.

Os que persistem no trabalho, muitos seguem de boa vontade, conscientes da importância da tarefa espírita para si. Contudo, de coração arrefecido, não trajam as vestes espíritas com o ânimo e entusiasmo de outrora. Entendem a gravidade da missão espírita para si, contudo, a desconhecem para o próximo, daqueles que, no passado, igualmente a nós, adentraram a esta casa por um simples atendimento que os permitisse um pensamento menos atormentado, para o enfrentamento das dificuldades da existência.

Aos que se sentem pouco motivados para a tarefa, relembrem as motivações da própria existência. Se mesmo assim as dúvidas permanecerem, proponho um exercício. Observem uma atividade de atendimento de fora. Percebam a diferença no semblante, postura, dos assistidos após a palestra consoladora e recebimento da bioenergia. Após o atendimento, muitos ali não encontraram a solução, e nem deveriam, mas sim a força que necessitam para prosseguir a jornada. Se neste momento não identificardes o significado e importância da tarefa, se não compreenderdes que as atividades de levar a paz ao próximo é próprio do Mestre, é porque, definitivamente, necessitamos retornar ao proscênio da reflexão íntima.

Muitas vezes, vidas repletas, sem tempo, nos tornam insensíveis ao sofrimento alheio, é fenômeno de certa forma natural, contudo, não se pode demorar nas almas daqueles que se dizem discípulos do Cristo, cristãos. O amor deve ser o combustível, a oração, a companheira. Deixai enternecer pela miséria alheia, para que a ação, o propósito de nossas tarefas, ganhem significado pleno em nossas almas.

O sentido do trabalho de cada um ganha o propósito quando compreendemos a jornada por um todo. Contudo, os resultados só serão adquiridos plenamente de posse da consciência cristã madura, presente em nossa entrega, devoção e sentimento.

Uma casa espírita se conhece pela fé viva, união plena, vivência evangélica, pelo se importar com todos, atendidos ou trabalhadores. Na casa espírita reina a paz, a caridade e o amor. Se nos propomos a uma casa fenomênica apenas, sem os rescaldos da luz e dos sentimentos, estaremos relegados a nos abster da vivência em uma casa espírita em favor de uma casa de espíritos.

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